Copinho Descartável

Cento e doze passos até a estação.
Dois bueiros abertos e um cheiro de esgoto fermentado invade meu organismo. Dose tóxica matinal diária. A faixa de pedestre abarrotada de sai-da-frente-por-favor-tô-com-pressa e o quase atropelamento do anão skinhead mal encarado que eu alisei a cabeça pensando que era uma criança. Reflexo estúpido. Que raiva. Não tive a intenção, o cara era um nanico.
Pausa pra assistir o quase desastre da quase criança, mas a agilidade do pequeno hobbit acrobata quebrou as pernas do publico, que esperava impaciente algum desfecho cinematográfico pra avacalhar com o transito de vez.
Ele não estava descalço nem tinha o pé peludo, claro que reparei.
E bati palma, todo mundo bateu.
Mesma medida de passadas da outra semana. Vale lembrar a rota mal calculada um quarteirão pra baixo que desembocou na passeata desnecessária das depiladoras sem diploma, e o sol de fritar ovo em capô de carro que parecia um maçarico. A calça grudada na bochecha da bunda peluda, o jeans barato roçando as coxas sem ar e a assadura inevitável em cima dos pelos encravados.
Saco o Hipoglós,
engatilho pomada no indicador
e a vergonha de ser flagrado no banheiro publico com as calças arriadas, a perna escancarada, o olho cheio de tique.
Tudo atrasa. Tudo agrava. Tudo arde. A instabilidade dessa cidade de merda escangalha com qualquer previsão. Tropeçar no cadarço em dia de chuva, cair de boca na sarjeta imunda, atochar o pé na merda e impestiar um vagão inteiro, já aconteceu de tudo.
A cidade é isso. Uma combinação caótica com recheio eclético. Um purgatório pra quem conta os passos.
Escada rolante abaixo e o alívio de ter chegado na sombra abafada do metrô, misturado à alegria infinita de não ter que mover a virilha em carne viva em hipótese nenhuma durante míseros trinta segundos. Trinta segundos de ouro. Cronometrados. O povo subindo contra-fluxo em direção á luz corrosiva do sol e a minha risadinha diabólica de sobrancelha arqueada. Coitados, não devem ter Hipoglós.
Um fluxo atarantado. Uma desordem bisonha. Um cheiro de desodorante vencido que pelo-amor-de-deus. Tem gente pra tudo quanto é lado de tudo quanto é jeito indo pra tudo quanto é direção nas mais diferentes velocidades. A cada dois passos, um encontrão com algum desvairado de chacoalhar o crânio. Todo mundo apressado. Correndo vai-saber-do-quê. Bandos de tampinhas desgovernados. Matilha de Bailarinas paradas em pliê. Cardume de moto-boys vestindo capacetes no cotovelo.
Minha visão em flashes: três piscos. Pausa. Dois piscos.
Armazeno cenas debaixo das pálpebras recauchutadas no ritmo despadronizado da piscada extrovertida. A musculatura ocular descontrolada, a fadiga inevitável do abrir e fechar sem pausa e a minha cara de psicopata desequilibrado. Exausto, o olho trava. Depois fecha por um tempo qualquer.
E não estou dormindo.
Por isso os óculos escuros.
Garrafa térmica de café extra forte com tampinha-copo, que eu acho a melhor invenção dos últimos tempos, debaixo do braço pra aplacar sede ansiedade sono, e de quebra, mal cheiro. O óculos escuros preso no bolso da camisa pólo de gola desbeiçada eu engatilho na fuça. A luz alógena de dentro da estação me delata.
Um dois três.
Terceiro vagão. É nele.
Dez piscadas e um gole gordo de café preto na tampinha-copo-sensação. Deus-me-livre caçar copinhos descartáveis por aí.
O vagão lotado e o susto. Não estava nos meus planos nem na previsão de hoje. Meu lugar, ocupado. Os outros bancos, não-é-o-meu-mas-tudo-bem, ocupados também. Pior não podia ser. De pé tudo chacoalha, o café que não consigo tomar e o Pisc Pisc que me cega em flashs. A outra mão agarrada no ferro escorregadio imundo mais conhecido como pega-bactérias. Vestígio de salgadinho de milho com baba seca, gordura de coxinha requentada, graxa e suor de mão que não foi lavada depois de chacoalhar o pinto. Um nojo. Sobra só o pé pra me proteger de um encontrão que provavelmente vou receber. Muita gente-formiga esbaforida na sauna a vapor do vagão três.
Quatro piscos e o suor, a tensão, o braço formigando e nada de tomar café. Pés de prontidão pra descer canelada no primeiro desavisado que me der empurrão.
Duas paradas, entra sete e não sai ninguém.
Desespero, não-cabe-mais-ninguém-não-dá-pra-respirar. Quatro piscos. A testa escorrendo no olho, o espasmo desenfreado, as mãos ocupadas pra pegar o lenço e o sabor do café intacto que me deixa introspectivo. A tampinha-copo quase desencaixando e o nervosismo da quantidade de cotovelo que dá rasante no meu nariz. Sete piscos. Tentando mover com a força do pensamento os invasores do sai-do-meu-banco-logo-cacete! Nada. Dia atípico. Ou vai ter show na liberdade, ou passeata de qualquer porcaria ou um rolezinho em algum shopping da zona leste.
Mais uma parada. Pro meu destino, faltam duas.
O ritmo insuportável de lotação na praça da sé fica gradativamente assustador. Tem vendedor ambulante, maloqueiros de times rivais se amaldiçoando. Duas senhoras vidradas na novela mexicana de roteiro duvidoso. Batucada de funk nos bancos de plástico. A cigana de dente podre jogando búzios, prevendo o futuro que vem ao caso. E a atrevida da calça legging de cintura mais-que-baixa, fazendo poli dance no ferro ensebado.
Desceu dois, entrou onze.
Ficou sem espaço. Mexer no cabelo ficou complicado.
Nove piscos e eu entrei em crise. O suor alagou os olhos. A garrafa-térmica escorregando sovaco abaixo e a tampa-copo a essa altura, presa pelo poder da mente. Vai-cair-não-não-vai. Putaqueopariu, caiu: Vagão maldito! E o pensamento saiu em voz alta. O corinthiano levou pro lado pessoal, a cigana escondeu os búzios no peito, a safada do poli dance parou a performance e a senhora noveleira estancou a lágrima:
-esse Luiz Miguel é um maldito mesmo, homem que trai não presta!
O tumulto formado.
Um cotovelo pontudo acerta um strike no meu nariz e o óculos some na imensidão de pés sujos pra nunca mais. Treze piscos e meio e a frenética crise, inevitável.
Ae safado, pára de piscar pra mim!, se esganiça a dançarina toda inflamada, pensando que eu estava flertando no vagão. O namorado, quem-diria-alguem-namora-isso-aí, toma as dores da ninfeta e cospe na minha direção, o corinthiano se enfeza com o suíno porque o cuspe respingou pra todo lado e o funk que fica mais alto mais sujo mais insuportável. Todo mundo se cotovelando se esmagando tá-faltando-ar-porra!, e fui ejetado pra fora do vagão que-alívio-mãe-do-céu-achei-que-ia-morrer! sem óculos sem copo-tampinha sem amor á vida e completamente cego. Travou o sistema. A um quarteirão do meu paradeiro. Pedi ajuda pra atravessar a plataforma, pra passar na catraca, subir na escada rolante e lá em cima o sol miserável de maçarico parecia o paraíso. Pelo menos tem ar pelo menos tenho Hipoglós.
Sentei no acho-que-era-um-banco suando frio. A roupa ensopada, cabelo ensebado grudado na testa, pizza debaixo do braço e a braguilha da calça aberta cheia de respingo. Acho que me mijei em algum momento entre o pensamento alto e o lançamento metrô afora. A garrafa térmica fez vácuo, colou no sovaco e fez um ploc ao desencaixar. Desrosqueei a preciosidade e aquele vapor gostoso com cheiro de padaria acalmou minha musculatura engessada.
Dava pra ouvir os passos das pessoas passando.
Sentir o cheiro de pão francês assado.
O barulho de lotação.
Imaginei o sabor do grão extra forte torrado.
Arrisquei.
Por favor, alguém aí tem um copinho descartável pra me arrumar?
-Aqui meu senhor. Deus te ajude.
Cheirava a perfume doce com naftalina e laquê, a velhinha com tremedeira nas mãos.
Servi o café. Derramei nos dedos na blusa na calça. Dei um gole gordo. A pálpebra, descolou.
Apoiada numa bengala improvisada, a velha ia embora. Andava 2cm por metro. Sabe lá Deus que horas vai chegar em casa.
Na minha frente um camelô, que-sorte-da-peste.
Comprei um óculos escuro e um estoque de copos descartáveis. Vai saber.
Café debaixo do braço. Hipoglós dentro do bolso.
Quarenta e nove passos até a estação.

Marina Filizola

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