Caviar com Cocaína

Sexta-feira.

O dia da semana que sempre termina numa noite de merda.

Tudo acontece sexta-feira à noite. O telefone sem fio de casa que não para de implorar atenção com um toque abafado perdido em algum lugar entre minha cama amarrotada desde sábado da semana passada, e as roupas limpas sujas de festa de ginástica de dormir no chão do meu quarto-cortiço. O feicebuque numa epidemia brava de catapora digital, infestado de balõezinhos vermelhos flutuantes ansiosos e que não serão respondidos, não na minha sexta feira pé na jaca não porque não preciso de álibis para fazer cagadas não porque tenho mais o que fazer do que divulgar meu itinerário sigiloso e seu rastro de desgraça. A minha indecisão típica diante do guarda roupa mais-sem-graça- do-mundo onde nunca acho o que quero e a tortura emocional nada glamorosa nada cativante nada espiritual, de ficar comparando os meus vestidos capengas com marca de cabides de plástico carcomido, aos looks que só vestem as mulheres sintéticas de sorriso fluorescente do Oscar do ano retrasado de uma Vogue roubada do consultório do meu ginecologista, pessoa que, por sinal, preciso visitar. Sem compromisso. Só por desencargo de consciência.

Três festas acontecendo ao mesmo tempo. Tudo lista VIP. Meu nome em todas elas e eu ainda me faço de difícil pra decidir em qual delas vou dar vexame. Par ou ímpar. Uni duni tê. Jokenpô. Minha mãe mandou. Como se fosse fazer muita diferença ir nessa ou naquela. Como se o pessoal da high society fizesse alguma questão de uma sarnenta sem diploma namorado perfume, sem autoestima cartão de crédito carro, sem filtro etiqueta e grife que nem eu em algum lugar. Faz tempo desconfio dessas listas e do critério duvidoso que decide quem é Very Important People e quem é gentinha ordinária. Fosse assim eu jamais estaria numa lista dessas. Minha duvida é só uma: em qual delas vou dar o meu vexame semanal, pra não perder o costume. Qual delas terá mesa de trufas na saída pra rebater minha ressaca moral, minha enxaqueca psicológica, minha vontade de morrer, e refazer meu estômago oco corroído no dia seguinte. Em qual delas será menos provável encontrar algum conhecido que vai dar o azar de bater de frente comigo às três da manhã embriagada, sem senso de direção, sem filtro na língua, dançando despudorada sem ritmo e sozinha no meio da pista, com o sapato todo mijado o cabelo esganiçado e a típica saia fim de festa arriada até as coxas. Qual delas terá banheiro com pia de mármore, de preferência preto, e papel higiênico, por favor, folhas duplas. Passando por essa eliminação rápida, a conclusão é óbvia: pode ser qualquer uma, não vou lembrar de nada amanhã.

Respiro fundo e encaro um banho daqueles nem tão longo, porque o cabelo estava sem oleosidade, escovado e, por que não arriscar, quase cheiroso desde ontem, e nem tão rápido por causa da atenção especial que eu tinha que dar para os pelos das pernas axila e virilha, e depois até da sobrancelha, que já era quase uma monocelha Frida Kahlo de aparência duvidosa. Vai que tem um esquisito perdido na festa. Vai que ele tá na carência do jeca e na falta do que fazer, me arrasta pra um muquifo quentinho pra gente trocar umas pulgas. Vai quê. Não custa dar um trato na pelugem.

Depois de podar meu parque de diversões e retirar a primeira camada brilhante da minha pele extraoleosa, fiquei livre pra escolher qual calcinha menos desbeiçada seria a premiada da noite. Eliminei o sutiã, pra dar uma valorizada no passe. Para amenizar a tortura de escolher a roupa e fracionar minha penitência, estico o braço e pesco de olhos semifechados os dois primeiros vestidos pretos que vejo, porque preto não tem erro vai com tudo e é chique em qualquer estação, e tiro a velha e companheira cara ou coroa pra decidir o que meus olhos semicorajosos seriam incapazes de fazer sozinhos. Pra ser sincera jogo a moeda três vezes seguidas, porque ela não estava sendo legal comigo e caiu todas as vezes no look que eu, de coração, não ia muito com a cara desde o dia em que eu comprei, mais ou menos dois meses atrás, numa tarde de TPM avassaladora que eu decidi gastar desenfreadamente meu salário mais que mínimo, pra tapar o buraco existencial grotesco que se multiplicava dentro de mim. Não adiantou, o buraco ficou maior mais fundo mais escuro e o vestido, faz meses, está parado no mesmo cabide com a mesma cara de bunda e ainda quando olho pra ele, lembro daquele dia em que fui à falência na primeira semana do mês e me deu vontade de morrer depois.

Massa corrida cor da pele, rímel de alongar dar brilho volume e esperança para cílios sem vida, batom vermelho Rússia Mistério, e nessa hora já estou segurando empolgada um copo de requeijão com gelo colorido e vodca sabor frutas vermelhas pra combinar com o clima e iniciar a comemoração da sexta do deslumbre. A maquiagem básica que eu não sei fazer serve só pra tapear a olheira as espinhas os pés de galinha e as manchas de sol em cima do nariz, e tapar os meus 39 anos de idade bem vividos que mais parecem 43 atropelados, segundo um amigo meu que nem é tão amigo assim pra ficar falando da minha cútis com tanta intimidade ironia e certeza.

Sapato alto tornozeleira cor preta com detalhes dourados pra destacar meu visual chique descompromissado e classudo, perfeito pra quem quer passar despercebida num evento, tomar um drink, dar o ar da graça e ir embora antes do tumulto começar, embora não seja o meu caso. Não na sexta-feira santa.
Peguei logo a bolsa falsa da Fendi tamanho médio. Nem tão pequena que não caibam trufas cigarros isqueiro dinheiro batom chave de casa cartão telefônico sorine engov espelho canudo cortado ao meio e algumas gramas de cocaína escondidas no fundo falso da bolsa falsa. Nem tão grande que me cause desconforto e eu tenha que deixar na chapelaria, coisa que não pode acontecer de jeito nenhum. Imagina ficar pegando a bolsa a cada meia hora. Não tem cabimento.

Saí de casa para o combate. Seguindo o ritual de sempre: aquela cara de louca, postura de elegante se desfazendo, a maquiagem começando a derreter e o copo de requeijão sabor vodca cheio que, infelizmente, ficaria abandonado no táxi porque eu ia esconder a prova do crime antes de pisar no tapete vermelho. Entre a porta e o banco do passageiro pra não levantar suspeita e deixar o taxista com uma cara de desconfiado. Isso porque ele teria certeza absoluta que em algum momento tinha me visto com um copo na mão, mas minha pose de magnata deixa ele sem graça de fazer qualquer comentário. Na dúvida, ele pensa que viu coisa. Tomara que eu não dê o azar de pegar o mesmo carro na volta.

Chego na festa parcialmente anestesiada e com um sorriso besta carimbado no rosto, cantarolando uma estrofe harmoniosa de Norah Jones, pra refletir o meu falso estado de espirito clean. Na porta, a entrada de gala: meu nome timbrado em vermelho na tal da lista VIP saiu gordo da minha boca pra dar um tapa na fuça angulosa da hostess anêmica, que me olhava de cima abaixo contando os segundos pra dizer de boca cheia: se não tem nome na lista não vai entrar, querida. Há! Estufei meus peitinhos acesos e entrei que nem uma leoa festa adentro. Dona de si. Majestosa. Intocável. Dei uma checada 360 graus no estábulo, e parti num trote de manga-larga para o banheiro como se nada pudesse me deter, como se o mundo estivesse aos meus pés, como se ninguém suspeitasse que eu não ia mijar nem retocar maquiagem, mas ia sim esticar uma carreira das gordas pra ver se meu pensamento clareava na marra. A ideia era adiar por alguns minutos o barraco que inevitavelmente eu ia dar hora ou outra. O banheiro deslumbrante, uma luz perfeita e a pia larga longa lisa me convidava a uma festa particular, eu a pia e o pó. Nem pensei em trancar a porta. Tirei do fundo falso da bolsa falsa meu barbitúrico da insônia, esparramei no mármore com o canudo engatilhado no nariz e na hora de passar o aspirador na preciosidade, tive um ataque de riso súbito porque vi uma perua deslumbrada me olhando petrificada do vão da porta com a boca escancarada modelo escândalo. Num tive dúvida. Encarei a Miss Recalque nos olhos e com o canudo pendurado no nariz, a fuça colada na pia e completamente desconjuntada, perguntei toda fanha: que foi, quer? Foi pó pra tudo quanto é lado. A perua deu ré porta afora com os olhos esbugalhados e no meio do surto de gargalhada me deu uma dor de barriga incontrolável. Eu, xarope de alegria, nem soube identificar o motivo real da grande caganeira. É nessa hora que as folhas duplas do papel higiênico entraram em cena em grande estilo: sedosas, macias, perfumadas, inegavelmente duplas. Indiscutivelmente confortáveis. Enfiei um rolo na bolsa pra garantir meu amanhã. Finalizei o serviço de tamanduá-bandeira na tampa da privada, de porta fechada pra evitar ataques surpresa, seguido de duas gotas de sorine em cada venta e um engov com água de pia pra manter o equilíbrio. Linda, mandei um beijinho pro espelho pronta pra arrasar.

Fiquei esquisita assim que pisei fora do toalete. Não sei exatamente o que sucedeu, mas algum tipo feio de desencontro dentro do meu estômago desandou com a minha alegria. A azia rebateu sem dó nos drinks de aquecimento, o pó obstruiu alguma válvula de saída importante e o engov, que devia ter botado um fim na confusão, entrou putaparizando o ambiente que já era hostil. Minhas pernas deveriam ter se coordenado e retomado o juízo, mas desembestaram a se trançar e eu perdi completamente a linha. Sabe o termo queimar largada? Se não estou enganada foi um pouco pior que isso. O mal estar foi se alastrando e a primeira coisa que me veio foi a imagem da mesa de trufas brilhando, piramidal, salvadora. O paraíso dos unha de fome que saem de casa na esperança de fazer a compra do café da manhã na festa privê desses figuras excêntricos, que ficam bancando balada pra meio mundo a troco de uma fotinho 3×4 na sessão de fofocas da revista Contigo. O curioso foi que, sei lá porque cargas d’água, o estúpido que escolheu o cardápio fez a palhaçada de comprar caviar. Só caviar. Caviar de tonelada. Onde já se viu, nem uma bolinha de queijo gordurenta, nem um croquetezinho de carne misteriosa, nada. Coisa mais indecente. Era a cara desses grã-finos excêntricos cheios de vocabulário, mas sem noção nenhuma de ressaca.

Por alguns segundos tive um flashback das épocas áureas. Do tempo em que serviam coxinha e das filas do banheiro que eram, disparado, o lugar mais popular da festa. Esbocei um sorriso nostálgico indecifrável. De longe devia parecer que eu estava saboreando com o pensamento a tal da ova, raríssima, do mar Cáspio. Pelo menos era o que dizia o garçom-pinguim-esnobe que, garanto, comeu um prato de arroz feijão e ovo antes de chegar no seu posto de guarda-costas de caviar. Encarei com distância a cor esquisita a textura suspeita e o cheiro de barco pesqueiro. Se eu enfiasse uma torradinha recheada de gosma pra dentro do meu organismo, àquela altura da competição, sabe lá Deus o que podia acontecer. Mas o mal-estar a sensação de desmaio e a pressão mais que baixa me deram um teto preto e acabei virando os olhos bem ali, na frente do guarda-costas de peixe que, vendo minha situação lamentável, enfiou na minha goela uma colherada do grude, consciente de que a iguaria vinha boiando no sal. O que me acordou do apagão nem foi o sal. Foi o gosto inconfundível de fim de feira que, juro por deus, parecia castigo.

É. Quem disse que não ia ter barraco.

Retomei a compostura de magnata falida. A Miss Recalque olhando horrorizada minha saia arriada, o guarda-costas se gabando que o curso de salva-vidas tinha valido a pena e minha vontade de morrer, que normalmente aparecia sábado de manhã, tinha chegado antes da hora. Pra não perder a viagem abri a bolsa com elegância e despejei sem dó uma vasilha de caviar e duas colheres de madrepérola que vieram no combo VIP. O povo não deve ter acreditado. Não teve um santo com coragem suficiente pra me deter.

No táxi salvei o dinheiro a chave de casa o batom e escondi delicadamente a bolsa lambuzada de caviar com cocaína entre a porta e o banco onde já se encontrava, veja só que coincidência desgraçada, o cadáver do copo de requeijão da vinda.

Cheguei até aliviada em casa.
Coitado do moço. Já pensou?
Ele sim que teve uma sexta-feira de merda.

Marina Filizola

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