Entrevista com o escritor Luiz Alberto Mendes: “Os livros me salvaram!”

Luiz Alberto Mendes

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“Quando as balas cortavam os carros ao meu redor como manteiga, era a mim que procuravam. Foi um espanto constatar. As minhas haviam acabado; não podia prever aquele cerco. Encolhi, tentando entrar em meus ossos. Mas então senti algo quente escorrendo pelas pernas. O tênis se liquefez, encharcado. Parte da mão direita parecia estraçalhada e pulsava. O sangue escorria grosso. Do alto das nádegas, uma ardência se aprofundava corpo adentro. Estava baleado e, de repente, senti que morreria” (conto Ultrapassagem, Cela Forte, p. 53).

O escritor Luiz Alberto Mendes passou por momentos violentos e marcantes de sua vida. Ficou preso por mais de trinta anos, ou como ele mesmo ressalta: trinta e um anos e dez meses, e encontrou na literatura a liberdade. Dentro da penitenciária tomou gosto pela leitura e começou a escrever os primeiros traços de um estilo próprio onde a temática envolve violência, memórias, solidão, desamparo, á procura da humanidade ainda remanescente em um dos lugares mais reprimidos do mundo: a cadeia.

Autor de diversos livros, como Memórias de um Sobrevivente, Tesão e Prazer – memórias eróticas de um prisioneiro, Cela Forte, Às Cegas e o de poesias, Desconforto. Atualmente, Luiz Alberto Mendes participa de palestras e oficinas literárias e há dez anos é colunista da revista Trip.

Bem à vontade em um bar no centro de São Paulo, entre uma cerveja e outra,  Luiz Alberto conversou com a equipe do Livre Opinião sobre literatura, prisão, violência e a vida fora da cadeia. Muito emocionado, o escritor falou sobre a sua mãe e a transformação do corpo e da mente quando deixou a cadeia. Confira a entrevista na íntegra:

Luiz Alberto Mendes

Luiz Alberto Mendes

Livre Opinião: Trinta e um anos e dez meses preso na penitenciária do Carandiru, como se deu o contato com a literatura?

Luiz Alberto Mendes: O contato começa com uma mulher que trocava conversa comigo por cartas. Essa história tem início bem antes, pois quando fui preso eu não sabia escrever carta direito e um amigo me ensinou a escrevê-la, com rascunho e eu passava a limpo para enviar à minha mãe. Então chegou um momento em que comecei a modificar a carta, porque eram relatos íntimos com minha mãe, até que num ponto comecei a escrever sozinho. Fui escrevendo para outras pessoas também até chegar nessa professora, que morava no Rio de Janeiro, estava se formando em Letras, gostava de literatura e me mandava os livros importantes para eu ler. Os primeiros livros que eu me apaixonei foram os de Érico Veríssimo.

Eu estava fodido na cadeia, condenado a cento e trinta e dois anos e eu tinha apenas vinte e dois anos de idade. Eu não sabia de nada, a minha vida era apenas poucos metros quadrados. Eu era um moleque, fugi de casa com onze ou doze anos, comecei a frequentar o que antes era chamado de FEBEM e hoje é Fundação Casa. Fui entrando na cultura do crime que é o que mais sobrevive dentro da cadeia. Eu fugia da  FEBEM com os moleques que já viviam na cidade, não eram ladrões e sim sobreviventes desta cidade, eles eram os primeiros meninos de rua de São Paulo.

Nós vivíamos estourando vitrines, apropriando-se de bolsas, tudo na região do centro de São Paulo, aqui nós dominávamos. A polícia chegava e queria tomar o nosso dinheiro. Pegava todo o dinheiro que tínhamos e depois soltava a gente e voltávamos a roubar mais. Minha vida de moleque foi essa, até fazer dezoito anos. Quando fazia dezoito já era considerado bandido. Estávamos todos armados e queríamos assaltar, queríamos dinheiro, vingar! Porque éramos pendurados no pau-de-arara com quatorze anos de idade, a polícia batia na gente e não era para diminuir o crime e tal. Porra nenhuma, eles queriam saber sobre os caras que compravam as nossas mercadorias para poder ir lá e extorquir.

Nunca pensaram em acabar com o crime. Essa conversa de que a polícia quer acabar com o crime é mentira. Os caras querem é grana! Como todo mundo em qualquer parte! A grana é que manda, o capitalismo é selvagem mesmo. Ele induz as pessoas a uma situação que nem elas gostam, mas são obrigadas porque não tem outra chance.

E qual foi a sua chance? A Literatura?

Eu digo sempre que os livros me salvaram! E salvam até hoje, porque eu vivo de livros, vivo de escrever, de falar sobre o que escrevo e de ensinar as pessoas a viverem como eu escrevo. É que eu não tenho como ensinar de outro jeito, somente como eu sei. Então, eu vivo disso!

Aliás, não foram os livros que me salvaram, foram as pessoas que me trouxeram os livros e que me convenceram de que ler é interessante. Até um ponto em que comecei a ler por mim mesmo. E me apaixonei. São mais de quarenta anos de leitura. Só enxergo de um olho, uso óculos, mas mesmo assim adoro ler.

A minha luta sempre foi por livros, eu tenho me envolvido com o Instituto Ecofuturo. Aliás, tenho me envolvido com diversas situações em que todas elas são vinculadas aos livros. O problema de nosso país é a deseducação. É o individualismo total, isso é que acaba conosco. O individualismo é produto da não educação. Chegamos a um ponto em que olhamos as pessoas e nos questionamos se elas vão render grana ou não. Um absurdo!

Luiz, explica como foi o convívio dentro da cadeia?

É parecido com uma tese antropológica. A polícia pega um cara que roubou um xampu no supermercado e bota na prisão, pega outro que sequestrou fulano e bota na prisão, mais um que tentou passar no aeroporto com gramas de cocaína e bota na prisão, outro que assaltou, estuprou e bota na prisão. Tudo dentro da prisão e enterra os caras em pé. Abandonados. A sociedade abandona todos.

O ser humano é produtor de cultura, produz cultura em qualquer lugar e situação em que estiver. Agora eu pergunto, que cultura desenvolvemos em um lugar em que todos estavam abandonados, onde as pessoas têm seus modus operandi criminais, cada um em cada lugar. Que cultura esses caras abandonados na prisão irão fazer? A cultura do crime!

E essa cultura do crime também te afetou, pois você estava enterrado junto com eles?

Desde criança essa cultura vinha na minha cabeça. Eu fui subjulgado por esse tipo de cultura, não tinha estruturas culturais para combater isso. Na cadeia eles abandonam a gente a mercê dessas coisas.

Eu sou escritor, faz dez anos que sai da cadeia, eu recebi uma crítica esses dias. É o seguinte, meu último livro é de poesias, então quando esse crítico viu que eu era um ex-detento e não quis me ler mais. Por quê? Porque ele é um cara que combateu o que eu fui. Não estou me passando por vítima, o que acontece ultimamente é  que as pessoas estão assaltando e matando muito mais e a sociedade está se voltando contra isso. Estão certas, pois ninguém quer ser roubado. Até eu que sai da cadeia sou contra isso.

Voltando ao crítico, ele leu o meu livro por profissão, aí gostou e no texto dele colocou umas dez poesias minhas, elogiou. Mas por antecipação, as pessoas não querem me ler. Devido ao preconceito, não tenho chance. Mesmo que eu seja o maior escritor do mundo não terei chance, pois as pessoas não me dão chance.

E no mercado editorial também houve dificuldade para publicar?

Terrível! Um romance que terminei recentemente não tem como publicar. Já publiquei cinco livros e este novo não tenho como publicar. O Memórias de um Sobrevivente III – porque já existem o Memórias de um Sobrevivente e Às Cegas -, que é quando conto o momento em que saio da cadeia. Era para ser publicado no final deste ano e foi adiado por causa da Copa do Mundo. Vai ser lançado só no começo do ano que vem.

Mas a Companhia das Letras só publica este tipo de livro, autobiográfico. Sensacionalista. As coisas que publico por fora, como poesia e contos, têm que publicar em outros lugares. E é nisso aí que eu sou, não quero fazer porra nenhuma de biografia, eu quero escrever, inventar e criar. Não há coisa mais linda que escrever. Escrever é criar, meu caro. Dizer o que você viveu não tem valor nenhum. O barato mesmo é criar.

Você falou que seus livros autobiográficos são sensacionalistas, como assim?

Não, não são sensacionalistas. Para as pessoas de fora meus livros ficam sensacionalistas. Eles valorizam se eu ficar falando que a polícia entrou na cadeia e matou uns dez caras e que sai correndo que nem rato. Tiros para todo lado. Eles valorizam isso! Isso chama leitor.

Agora, se eu falar que a janela da cadeia parecia uma televisão, o que estava lá fora não tinha significado nenhum. A repetição daquela gente andando, na casa de detenção dava para ver a rua, o metrô. Era uma paisagem, um quadro em movimento. Não era a vida verdadeira que eu não consegui perceber de dentro da prisão. Então, se você começar a falar sobre isso, ninguém vai te ler. Mas se eu falar sobre a violência da prisão todo mundo irá gostar. Isso que é sensacionalista… o escandaloso!

Mais de trinta anos preso, como foi sua adaptação na sociedade? A rotina fora da cadeia.

Pra começar, não conseguia nem andar. Porque há um mecanismo nas pessoas normais, pra dizer assim, em que se anda e desvia das pessoas e elas também desviam. E eu havia perdido esse mecanismo, quando eu atravessava a cidade, as pessoas me levavam para trás, não conseguia atravessar. Quando vinha para a cidade eu dava uma volta enorme, ia pela Praça das Bandeiras para evitar a multidão. Porque em público, eu andava sempre pra trás. Só aos poucos eu consegui atravessar a multidão.

Eu fui o primeiro preso do Estado de São Paulo a passar no vestibular, primeiro colocado no vestibular da PUC. O dia em que sai da cadeia para a primeira aula na faculdade, bati a perna no estribo do ônibus e “bum”, fui de boca no chão. Estourei toda a boca, cheguei na PUC com um lenço na para estancar o sangue. Minha mãe estava na porta de entrada da PUC e nos agarramos. Cara, doze anos sem ficarmos juntos e eu nunca pude dar uma satisfação à minha mãe. Filho único. Começamos a nos agarrar e começamos a chorar. Foi um momento especial para a minha mãe, passei na faculdade e finalmente pude dar uma satisfação para ela.

Vou te contar, uma das maiores frustrações da vida é eu sair da cadeia e minha mãe já ter morrido. Foi duro sair e não ver mais a minha mãe. É uma das coisas mais terríveis para mim. Porque ela me visitou por vinte anos, minha mãe só parou de me visitar quando teve um derrame, ficou com o lado direito paralisado. Um mês antes de morrer, ela foi me ver na casa de detenção, se arrastou duas horas dentro da cadeia para chegar até a mim, pois ela tinha uma perna mole. Chegou e conversamos. Nos despedimos, depois de um mês ela morreu. Eu queria dar uma satisfação para minha mãe, ela não tinha o que falar do filho para os outros, nenhum triunfo. Minha mãe foi a minha maior vítima. A pessoa que mais amei no mundo foi a minha maior vítima.

Diante de tudo isso, como foi a prisão para Luiz Alberto Mendes?

Olha, todo mundo deve pensar que eu não quero mais passar perto de uma cadeia. Eu não penso assim. Eu passo sempre pela penitenciária, moro lá perto (risos). Eu não odeio, acho que eu tenho que ajoelhar e agradecer. Porque foi ali que eu aprendi.

Eu tive que passar por tudo aquilo, me foder na vida, ser massacrado, para eu poder ter um pensamento, de rolar a minha lógica, minha razão. Porque eu era louco de tudo.

Então, o que foi e é a literatura para você?

Eu sou um filho da puta! Não precisa editar (risos). Sou um filho da puta. Sou um angustiado e a única satisfação que eu encontro na vida é escrever. Quando escrevo um texto bonito, lógico, que acredito e gosto, eu realmente me sinto feliz. Só nesse momento eu sou feliz.

Entrevista: Equipe Livre Opinião

 

 

 

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13 comentários sobre “Entrevista com o escritor Luiz Alberto Mendes: “Os livros me salvaram!”

  1. Meu marido se encontra detento e está lendo o livro “Memórias de um sobrevivente”. Pediu para eu pesquisar sobre o autor do livro, vê como está hoje e se ainda está vivo. rs Vou imprimir essa entrevista e mandar pra ele.
    O livro está bem velho, e ele tem rinite. O nariz dele trancado e ele falando que enquanto não terminar de ler, não vai parar. rs
    Eu agradeço ao Luiz Alberto Mendes por trazer momentos de distração para ele naquele lugar.

  2. Pingback: Ex-presidiário e escritor, Luiz Alberto Mendes é homenageado no Prêmio Trip Transformadores – Bem Trilhado

  3. Um depoimento digno de ser lido e nos mostra que se houvesse uma política séria empenhada na recuperação dessas pessoas enquanto presas, com certeza, o cenário seria outro (eu acredito).
    Parabéns para a Professora que o estimulou, para o amigo que o ajudou a escrever as cartas e parabéns pra você Luis, que conseguiu dar a volta por cima.
    Aproveita a chance que a vida te deu e viva intensamente, busque a DEUS (Ele te ama), e não deixe de tentar ajudar a outros com suas experiências na literatura.

  4. oi meu nome é Romulo li seu livro , e confesso gostei muito. Fiz ate uma auto critica porque achei um pouco resumido, se tratando ja da parte final. Mas agora lendo essa sua entrevista fiquei sabendo dos volume 1 e 2, que agora mais do que nunca quero ir atras pra conhecer o retante da sua magnifica historia de um sobrevivente.

  5. Estou muito feliz por conhecer sua obra, estou conhecendo o Mundo literário e encantada, sua história é incrivelmente emocionante, estou imensamente feliz por seu desfecho após tudo que passou, Parabéns, sinceras admiração por você.
    Ass: Isana

  6. Fui presenteada com esse livro de uma pessoa que não temos muita afinidade, seria o tio do meu ex esposo e na família deles metade é Policia e a outra metade Comando. Trabalho no carrão muito próximo da celso garcia, muito conhecido por você estou engolindo o livro no trajeto de ida e volta do serviço. Já estou sofrendo por estar perto do fim e já estou em pesquisa para ler todos os seus livros!

  7. Pingback: Histórias do Cárcere |

  8. A mãe dele tinha sim o que dizer pros outros: “O meu filho é um assassino”. Ainda é menos doloroso pra ela do que pra mãe do segurança que esse canalha matou.

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