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Me disseram que aqui, eu podia falar a verdade. Minha funilaria está recauchutada. Peça original, sobrou nenhuma. Queimei a largada.

Depois de noventa dias encarcerada numa clinica de reabilitação safada que cheirava a cinzeiro molhado -em algum lugar que eu não tinha idéia onde era porque cheguei atada-dopada-desmaiada na ambulância-cárcere do aterrorizante Samu- com o objetivo humilde de me re-inserir na sociedade com o mínimo de dignidade, cheguei às ruas sedutoras da asséptica cidade grande de consciência sangue e corpo limpo, e o fígado totalmente sobrecarregado pela dose administrativa diária de sossega-o-faixo, motivo de muita discórdia porque eu, toda noite, escondia a pílula debaixo da língua na esperança de enganar o capataz-dos-ansiolíticos e acumular quantidade suficiente que me fizesse dormir uma semana inteira e esquecer que eu estava ali. Soninho da beleza. Mas o enfermeiro que sabia das coisas, que sabia dos truques, que conhecia minha raça, mandava eu levantar a língua o lábio e a mandíbula num check-up extra-severo mega-meticuloso hiper-detalhista e nem me deu chance de manipular a situação. Nem acender meu companheiro e inseparável cigarro eu podia, diziam que na nossa mão isqueiro era arma branca, onde já se viu. Isqueiros só no bolso dos enfermeiros malignos que eu nem preciso dizer, eram uma corja de cretinos que viviam se gabando da nossa completa falta de autonomia. Até os tênis ficavam sem cadarço porque, segundo as pesquisas baseadas em gente que vive trancafiada, como eu, feita por psiquiatras psicóticos de quadro patológico questionável, nossa mente que era desocupada e confusa em tempo integral, ficava fértil misteriosamente para mirabolar cagadas homéricas, e era bem nesse insight milagroso que os laços inocentes que amarravam nossos pisantes, podiam virar tenebrosas cordas de estrangulamento em dois tempos. De acordo com o raciocínio lógico dos leões de chácara que ficavam na porta dos quartos pra evitar tumulto entre os internos, eu tinha uma porcentagem irrisória quase microscópica de ter uma vida decente com mais alguns anos de escangalho caso eu fosse obediente, e entendesse rápido a linha tênue que existe entre o que eu quero fazer, putaria pinga e mentiras, e o que eu devo fazer, ser careta ter rotina e vergonha na cara. Difícil de acreditar que no meu terceiro principio de overdose, o que certificou em absoluto minha inabilidade inquestionável de morrer, minha segunda internação não voluntária na base de pontapé tapa na cabeça e camisa de força e de ver minha vida se desintegrando, eu ainda não ter me dado conta de que preciso agarrar com força as rédeas da vida e domar essas estatísticas de merda, tomando alguma atitude efetiva que tire meu corpo fino da porcentagem gorda de dependentes químicos sem nenhuma probabilidade de conseguir se reintegrar decentemente em porcaria de lugar nenhum.

Quando eu entrei nessa sala nessa seita nesse cubículo abafado cheio de bactérias toda-anônima toda-sequelada, nem fiquei surpresa ao saber que não tinha mensalidade contribuição nem dízimo pra garantir meu direito de não cair diretamente nos braços do demo que devia, fazendo um cálculo rápido, estar me esperando ancioso já que nossa amizade era de longa data e na verdade-verdadeira a gente se esbarrou varias vezes mas nunca nos sentamos para trocar um papo-reto, colocar as fofocas em dia e lavar uns trapos sujos. Eu sei o preço que eu paguei pra trocar a cadeira boêmia aconchegante e cheia de farpas do bar, pelo encosto de plástico xexelento do divã terapêutico de ângulo desconfortável desse lugar que na minha opinião, que eu sei faz tempo não conta, é um aglomerado de cérebros derretidos. E pelo que me disse o terapêuta o psiquiatra e a pedagoga da escola do meu sobrinho -que ficou embasbacada no dia em que eu apareci grogue pra levar o menino pra casa- são exatamente iguais ao meu. Foi caro o saldo, e nem dá pra pagar em dez parcelas de será-que-dá-pra-voltar-no-tempo? carregadas de arrependimento. Olhando assim ninguém imagina o tamanho da calamidade a profundidade do desfalque a largura da dificuldade que é olhar pra cara afetada de vocês, que estão me encarando com esse olhar debochado de conta-outra-que-já-escutei-essa, e ter que me sentir em casa porque na porcaria do mundo todo esse é o único lugar que me sinto parcialmente segura, pra admitir uma quantidade volumosa de escorregadas deslizes e desvios, sem ser julgada e ser minimamente respeitada mesmo que seja pela escória da sociedade. Tá brincando? O mais bonzinho aqui roubou a mãe. É a maior concentração de placa-colada por metro quadrado que eu já vi.

Eu saio daqui todo dia cheia de tique de toque de treco, mancomunando planos mirabólicos da minha solitária guerrinha particular contra o mundo, na tentativa frustada de justificar pro meu ego atropelado-desfalcado e bastante danificado, que existe um complô contra mim, que eu não posso vacilar senão me enjaulam de novo, que tem informantes infiltrados em todo lugar esperando eu dar uma brecha qualquer pra esse sistema de merda apontar o dedo torto na minha cara lisa, e jogar sem dó a dose simbólica de confiança que eu resgatei nos últimos meses à duras penas, na boca do lixo. E todo vez que passa qualquer sirene de ambulância por mim ainda me sinto no direito de ter ataques epilépticos, toda paranóica e cheia de arritmia, com a veia da testa saltada e acabo de joelhos, me rastejando e andando de gatinho atrás do ponto de ônibus achando que é o delicado trailler do Samu vindo me resgatar com seus trogloditas amestrados. Essa mania de perseguição que não me deixa em paz desde a ultima crise se-eu-não-durmo-ninguém-dorme, e que me disse meu médico, honesto informado e eficiente demais pra minha auto-estima, com as sombrancelhas franzidas e despenteadas típicas de gente que tem diploma, que a brincadeira estava a um passo de virar uma esquizofrenia aguda irreversível daquele tipo que a pessoa fica encolhida atrás da porta do quarto, babando na gola da camisa, e aí sim eu ia ver o que era passar o resto dos dias na psiquiatria de um hospital bem bizarro, vestindo crocs fralda babador e me alimentando com sonda. Pelo que eu entendi, apesar de toda confusão de toda lama de todo enredo que eu já considero em fardo rechonchudo demais pra carregar, eu saí no lucro. A coisa por pouco não desandou de vez.

É patético esse defeito de fabrica que eu tenho. Essa intolerância intragável e não administrativa á qualquer alterador vagabundo de humor -mescalina anfetamina heroína, ketamina xilazina e o que há de melhor entre anestésicos de cavalo, tarjas preta de qualquer espécie formato e dosagem, cola benzina lança-perfume tudo mesclado goela abaixo, ritalina pra concentrar a cabeça avoada, e a maravilhosa morfina. Fora os lícitos, que são despontando os mais tenebrosos: a bomba atômica chamada relacionamento e tudo o que vem junto no pacote -brigas ciúmes rotina monotonia-, a falta de etiqueta de mergulhar sem pudor em filmes pornográficos de quinta categoria e fazer sexo barato com travestis de barba mal feita, a tão usada tão calórica tão disfarçada compulsão por comida e a válvula de escape mais caras de todas: o consumo desembestado desenfreado e quase sempre, parcelado. É o dna podre dessa genética desgranhenta. Eu fico salivando inveja quando reparo no cotidiano acertivo dessas pessoas normais que sabem brincar de perder o chão. Que usam telefone celular pra se comunicar e não pra negociar com traficantes, -lembro do meu, ficou confiscado lá no Morro do Querosene por conta de uma dívida sigilosa com gente que não brinca em serviço quando cobra pendência atrasada. Esse tipo sortudo que vem com o botão “moderado” incluído na maquinaria, que consegue brindar um fim de tarde casual com champanhe entre amigos e depois vai pra casa jantar e dormir, meus deus, onde já se viu -e não fica dois dias virado no giraia que nem eu, com a mesma taça de espumante do jantar a tira colo transbordando conhaque ralé, sem dormir sem comer sem sentir e sem noção nenhuma de perigo. E até dos namorados que se entendem sem sair na mão sem tumultuar sem se estapear eu reparo, fico impressionada, como pode, tudo tão estável tão tranquilo tão sem graça, como consegue viver uma vidinha tão previsível desse jeito, juro.

Meus pensamentos vem em cachos, num ritmo de metralhadora israelita, oscilam entre ruins horríveis e desprezíveis, e no meio do intervalo de um mau agouro e uma lembrança desagradável, pipocam milagrosamente três a quatro segundos de otimismo esperançoso, quase mágico, e me dão um flash de bem estar. E é exatamente essa fração simbólica de luz que entra nem sei como no meu coração ateu, que me faz continuar voltando aqui todo dia e acreditando que eu sou um enigma possível. Que nem tudo esta perdido. Porque de onde sai um Flash podem brotar holofotes.

Toda noite tropeço em dois botecos sujos e uma sinuca do mal que fica piscando pra mim uma luz néon cor vermelho-consumo, instigando minha índole fraca de boa moça que nunca existiu, de colombiana mal sucedida, de rata de laboratório de meta-anfetamina, e eu fico estrebuchando suando o bigode e a palma da mão por causa da abstinência maldita que vai ser cúmplice do assassinato da minha adolescência pra sempre. E nem adianta mudar o caminho, eu já rabisquei todo o guia de são Paulo que tenho em casa na desesperança de poupar minha saúde mental, já inverti a rota de todas as formas possíveis, e tenho plena consciência que qualquer esquina que eu dobrar vai ter surpresa para o meu organismo fraco, vai ter meu coração saindo pela boca, minhas mãos com trimilique, meu pulmão ricocheteando que nem potro novo. Nem paro mais na conveniência do posto pra tomar café, eu sempre entrava naquele banheiro químico e vomitava as tripas pra se recompor e tocar a carreata do arregaço por mais uns dias. Me dá flash-black.

Chego em casa suada com uma matilha de pensamentos negativos, encaro a sopa sem sal sem batatas sem graça, minha cama vazia de lençol amarelado e a tv preto e branco chamuscada me dá uma sensação ruim, um vazio estático e estético. Eu tive a proeza de chegar num estado físico mental e espiritual que é indescritível pra não dizer, irreversível. Durmo um sono agitado, frenético, que está anos-luz de ser uma noite bem dormida, o mesmo pesadelo se repete faz mais de mês: meus bolsos estão cheios de pinos pedras ampolas seringas e não consigo usar nada, e não consigo me mexer nem mover os braços o pescoço os lábios, e não consigo falar nem gritar nem grunhir, e não consigo parar de andar nem consigo arrancar a roupa nem pedir ajuda nem socorro nem nada, pelo amor de deus, parece que eu colei o platinado que eu atravessei o espelho que agora já era, vejo um orelhão disco 192 192 192 e nada do resgate nada de sirene nada de nada, 192 192 192… De manhã estou com olheiras, ressaca moral e gosto de guarda chuva na boca. Parece real. Eu, que vicio até em chicletes, ando sem moral nessa cidade asséptica: não pode fumar no elevador não pode fumar na padaria não pode fumar no ônibus. Não pode queimar largada não pode dar baixaria não podemos ser anarquistas. Tá difícil. Sou de uma época que não tinha regras não tinha esse peso não tinha o passado pesado nem esse futuro comprometido. Da época que crianças estrábicas com botas ortopédicas existiam. Até meu carro -fiel escudeiro, comparsa e parceiro- foi confiscado numa blitz safada porque eu estava completamente chumbada, veja só que novidade, e só ficou a chave reserva do falecido pendurada no porta-chapéu, lembrança de uma época que eu podia ir e vir repleta de livre-arbítrio. Quer dizer. E ainda tenho que agradecer de estar aqui, tenho que dividir essa desgraça com vocês, e me diz como chego de noite e janto sem fome, e deito a cabeça na cama suja e durmo me sentindo mal. Como.

Minha funilaria está recauchutada. Peça original, sobrou nenhuma.

Me disseram que aqui, eu podia falar a verdade.

Marina Filizola

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