Nos oitenta anos de Germano Mathias

Germano Mathias (Foto: Divulgação)

Germano Mathias (Foto: Divulgação)

O escritor paulista João Antônio, no conto “Abraçado ao meu rancor”, publicado em 1986 no livro de mesmo nome, narra suas andanças pela cidade de São Paulo, notando as mudanças da metrópole que cresce e perde suas raízes. Pergunta ele no texto:

“Por onde andará Germano Mathias? Magro, irrequieto, sarará, sua ginga da Praça da Sé, jogo de cintura da crioulada da Rua Direita? E o que foi que fez, maluco, azoado, de seu samba levado na lata de graxa?”

Depois de uma apresentação no SESC São Carlos, dois meses depois do sambista completar 80 anos de idade, encontro eu Germano Mathias. Mostro a ele o trecho – “onde andará Germano Mathias?”. No ato, a resposta:

“Tá em cana! E mais: aí no livro aparece Mathias sem H. Meu nome é Mathias com M e H: M de macho e H de homem!”

Malandro sem descanso, Germano pode ter 80 anos, mas não perdeu a ginga, a malícia e o humor. Criado nas rodas de bamba do centro São Paulo, nas décadas de 1940 e 1950, fez da tampa da lata de graxa o seu instrumento – a “tampolina da gordura”, como ele dizia –, um tamborim de metal improvisado que virou sua marca característica.

Nasceu no Brás em 1934, com carreira iniciada em 1955, no programa À procura de um astro, da TV TUPI – afora os prêmios que levou como calouro na antiga Rádio Nacional, antes dos 18 anos de idade. Gravou em 1956 pela Polydor o disco de 78 rotações com “Minha nega na janela”, um de seus grandes sucessos, e “Minha pretinha”. Daí para a frente, uma carreira recheada de grandes sambas, seus e de parceria, e também como intérprete de nomes como Zé Kéti, Padeirinho da Mangueira, do gaúcho Caco Velho e outros majores do ritmo.

Quando pergunto a ele dos antigos parceiros, a resposta vem rápida: “Ah, isso aí é antigo”. Disposto é mesmo a falar dos planos e do que faz atualmente. Em 2012, lançou Raiz e tradição (selo Genesis Music): “Esse vendeu razoavelmente muito bem. Por causa dele eu gravei um disco para a Copa do Mundo, Meu samba é de futebol, com 12 sambas. Tava indo muito bem, mas a seleção brasileira perdeu…” A rasteira de zagueiro chucro  que a seleção lhe aplicou ficou, mas o disco ainda está aí, inclusive com dois sambas que fazem menção ao Corinthians, seu time do peito. O disco conta também com um clássico de Wilson Baptista, “Samba rubro negro”, famoso também na voz de João Nogueira.

Além da música, Germano também gravou uma série para a Rede Globo, a sair. Rachando de rir, diz que “a Globo lembrou que eu existo; tá todo mundo maluco lá”. A série, por ora, chama-se Os experientes, um projeto da produtora O2, de Fernando Meirelles. O episódio que Germano participa, junto ao jornalista Goulart de Andrade, chama-se “Os atravessadores do samba”. “Protagonista”, frisa o malandro, conta as cenas que nos esperam: uma pancadaria em uma churrascaria, as suas tiradas típicas e um atropelamento – tudo descontado ou creditado nele mesmo: “eu tava sambando numa avenida e sou atropelado”, ri.

E é experiente, de fato, como diz o título da minissérie. Ela vai contar com episódios nos quais participam outros gigantes: Joana Fomm, Lima Duarte e Rolando Boldrin, expoentes da música e da dramaturgia brasileiras. Fernando Meirelles escolheu o elenco. “Pra fazer essas loucuras só você mesmo”, disse ao rapaz de 80 anos o diretor de Cidade de Deus.

Falando de coisa antiga e Indo contra sua vontade, lembro que Germano não é iniciante na frente das câmeras. Participou, entre outras coisas da televisão e do cinema, da chanchada Quem roubou meu samba?, de 1959, cantando o samba “Figurão” (clique aqui). O samba levado na lata de graxa e a ginga elástica do samba sincopado, levada no pé e gogó, já estão todos aí.

Mas o malandro não tem remissão. O “catedrático do samba”, representante do samba paulista com a alma do povo e a tradição da música brasileira por excelência prefere falar no futuro: a minissérie que vai estrear, os sambas que gravou nos últimos anos, na mesma voz e no mesmo ritmo autêntico, para nossa sorte. Germano Mathias, aos 80 anos, mantém a forma e a mesma picardia. Num samba gravado em Raiz e tradição, “Meu senhor”, de Oldemar Magalhães, diz o seguinte:

“Meu senhor, minha gente não pode parar
O meu samba vai continuar…
Só deixarei o samba
Quando clarear o dia”

O samba está nele, junto à grande história do samba de São Paulo: Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Geraldo Filme. Germano Mathias está conosco e muito bem. Nos oitenta anos do sambista, quem é velho é a gente mesmo.

Julio Bastoni

2 comentários sobre “Nos oitenta anos de Germano Mathias

  1. Pingback: Germano Mathias se joga no arrastapé e faz show de lançamento de ‘Forrós Pé de Serra’, feito em parceria com Manu Lafer | Livre Opinião - Ideias em Debate

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