Terapia

Vou entrar.
Eu já vim até aqui, agora eu tenho que entrar.
Então entra. Não, não entra, não cai nessa de novo, vai sair injuriada. Entra logo, porra. Vai, coragem. Como se não estivesse acostumada a ser analisada, inclusive tua família é especialista nisso. Entra, sua psicótica. Entra logo que essa mulher não morde, morde nada, deixa de ser neurótica, ela é fichinha perto do que você encara em casa.
Tá, vou entrar.
Deixa eu dar uma respirada funda. Preciso de fôlego pra ficar sentada escutando lorota. É dose. Vou engolir meu orgulho na base do cuspe e entrar nessa joça, sério. Pra quem não vinha de jeito nenhum, eu até estou indo bem. Vou inflar o pulmão, melhorar a postura, dar uma estabilizada no diafragma, pose de pomba-gira. Pelo menos pinta de foda, de decidida, de resolvida, eu sei fazer.
Quer saber? Sem chance. Não vou entrar.
Eu já tinha decidido que não ia entrar, é o cúmulo da burrice. Eu não acredito que eu voltei nesse lugar, tô frustrada comigo, eu preciso reagir gente, eu me jurei que não pisava mais aqui. De que adianta essa terapia de meia-pataca, essa análise meia-boca, essa mulher toda-depressiva toda-errada toda-coisenta querendo dar palpite na minha vida, fico aterrorizada. Sem chance nenhuma de eu colaborar, co-la-bo-rar, olha só que mulher cretina, que palavra antiquada-metódica-chata. Toda vez é a mesma coisa, a esquisita pede que eu colabore com aquela boca-de-ovo-boca-de-caçapa, boca-mole, nariz empinado de quem entende e entende nadinha-de-nada que eu sei, que ela sabe, que a secretária sabe, que todo mundo sabe, credo. Olhar de doutora tolerante-elegante-centrada, cara-de-bosta, isso sim. Se eu der um tapa no óculos de doutorado-feito-nas-coxas dela, a máscara cai, por baixo sobra nada, deve ser vesga estrábica e zarolha a coitada.
Toda vez é a mesma coisa o mesmo drama a mesma ladainha, que lixo de pessoa que eu sou, jesus, eu não me levo a sério, nem minhas vontades eu respeito, é o fim, eu preciso muito mesmo de terapia, terapia intensiva, terapia ocupacional em tempo integral, minha mãe estava certa, que raiva. Preciso seguir mais minha intuição meu sexto sentido meu feeling, poxa vida, tem coisa que a gente sente no umbigo sabe, quando não é pra ser não é pra ser, aceita e ponto, semana que vem não vou vir. Não mesmo. Essa é a ultima. Ultimíssima.
Vai, lesma, aperta a campainha. Essa mão mole esse corpo sem tônus sem vontade, afunda o dedo no botão com fé pelo amor de deus minha filha, que sofrimento, por que tudo na sua vida é esse sofrimento miserável?
Apertei.
Droga.
Por que eu apertei?
Não acredito que eu apertei que eu estou aqui que eu voltei, que decepção.
Agora já era. Abriu a porta. Ai, saco.
– Oi, tudo.
Tudo sim, tudo a mesma merda de sempre.
Essa secretária saiu de desenho animado, eu não aguento olhar pra ela, juro, me dá vontade de ter ataque de riso. Ela pensa que eu não percebo mas fica me olhando de rabo de olho, olha lá, olhou, até ela tinha certeza de que eu não punha mais os pés aqui, deve ter tido um bolão com apostas gordas de que eu não voltaria, se deu mal sua perdedora, per-de-doooo-ra. Vou ficar encarando ela, agora quero ver, ela vai se caguetar que está me espionando-bisbilhotando, essa alcoviteira. Sabia, até abaixou a cabeça, safada-de-uma-figa, que foi, perdeu a aposta, foi?, esse cabelo vermelho desbotado horrível no cocuruto, nossa, a raiz preta toda ressecada é que destrói com tudo, parece aquela amiga do Scooby-Doo de óculos e cabelo chanel sempre investigando casos impossíveis, a Velma, nossa, ela é a cara da Velma, a Velma depois de um acidente de carro, toda esquisita toda neurótica toda solteira, toda-toda. Não ri, pelo amor de deus não vai ter um ataque de riso aqui, se controla mulher. Eu sou bicho ruim quando eu quero, mexe comigo não, deus me livre ser minha inimiga.
Está fingindo que está lendo a palhaça, nem tem nada na mesa, o olho nem mexe ela nem respira, nada, qual foi. Será que a doutora falou alguma coisa, falou mal de mim, falou que eu não co-la-bo-ro, que eu sou problemática de nascença, mandona-irreversível, instável e desequilibrada, certeza que falou, ai, que boca de latrina essa desaforada dessa doutora, essa despeitada, essa.
– Pode entrar, a doutora chamou.
Duas batidinhas rápidas na porta, como sempre, e aquela esperança enorme dela não responder, de ela estar estirada na chão da sala em cima de uma poça de sangue, morta-da-silva. Aí eu vou olhar pra Velma e vou dizer: morreu, hoje não vai ter consulta. Daí ela o Scooby-Doo e o Salsicha vão tentar solucionar o caso. E eu vou embora. Dando risadinha.
– Pode entrar.
Droga. Tá viva.
Tá viva e com a mesma camisa da semana passada. Trocou o esmalte a cor da calça – porque o modelo é sempre o mesmo, ela só usa calça pula-brejo, inclusive, um mau gosto, precisava dizer isso – mudou o penteado e a cor do cabelo, graças a deus, que os fios brancos estavam me deixando hipnotizada, sabe, quando não dá pra tirar o olho daqueles fios espetados? Me atrapalhou muito na ultima sessão, de verdade.
Eu não aguento esse olhar penetrante dela, fixo, parece que está olhando através da minha cabeça, peraí, deixar eu ver o que tem atrás de mim, um quadro feio, horrendo, que dedo podre pra escolher arte. A doida acha que pode ler pensamento ou o quê?, ela deve ter feito curso num centro espirita também. Psicóloga-espírita-vidente-petulante, era só o que faltava, a cereja do bolo. Que dedicada. Me sinto pelada com a visão raio x dela, será que se eu perguntar a cor do meu sutiã ela adivinha?
Começou o interrogatório.
O que ela quer saber exatamente quando pergunta se está tudo bem: se eu estou bem, se eu quero estar bem ou se eu continuo fingindo que está tudo bem mesmo estando tudo péssimo? Lógico que não estou bem, nada está bem, inclusive nunca esteve, na semana passada estava ruim, nessa está pior e a tendência é se agravar, satisfeita?
– Tudo normal.
Ela, óbvio, faz cara-de-quem-não-acredita, de pouco-caso, de conta-outra-que-essa-é-velha, de eu-te-conheço-minha-filha. Daqui a pouco começa a falar da dificuldade que eu tenho com minha família e com o resto do mundo – sempre tomando comida de rabo de todo mundo mesmo quando não fiz nada, fodida e mal-paga desde sempre – do meu medo de ser assertiva nas situações e de não me colocar mesmo quando tenho razão – aquela porrada homérica de carro no estacionamento, por exemplo, não foi culpa minha e eu paguei só pra não discutir, afinal ninguém merece armar barraco às seis horas da manhã, eu tenho seguro pra isso horas, que-se-dane. De expor meus medos mais banais mais desnecessários e etecetera e tal – de cachorro de padre de palhaço de manicure – lógico, a mulher tirou uma lasca do meu dedão junto com a cutícula com aquele alicate sem esterilização que foi o cão, depois a unha encravou e ficou inflamada pra mais de mês e eu andando de chinelo pra cima e pra baixo que não tinha maneira de vestir sapato. O trauma de relacionamento – essa é boa, quem não tem, quem nunca se sequelou com um José ou um João, e no meu caso também com o Miguel com o Catuaba, o Airtão, o Zeca e o Renato Sintomas, esse último em especial o rei dos filhos-da-puta, isso que ele era, ô sujeito cafajeste. Não tem quem não fique com o rabo na mão de se envolver hoje em dia, tudo tão superficial tão imediato tão cibernético – garanto que ela é solteira, a gente nunca falou sobre isso, mas sem esmalte sem anel sem batom sem perfume, nem precisa me dizer nada, precisa?
Esse sofá é muito desconfortável, muito mesmo, ela devia descontar do preço da consulta o valor do massagista, sério, devia incluir no pacote meia hora de relaxamento.
Impressionante como ela fala.
Parece que passou metade da vida muda, como se eu fosse surda, olha quanta mímica, que mão mais ossuda mais feia mais sem anel sem esmalte, como ela gesticula a mandíbula, parece uma metralhadora, parece que está mastigando borracha, faz mais de cinquenta minutos que fica tagarelando pelos cotovelos, que coisa impressionante, está explicado o porquê das rugas no lábio dela parecem calhas. Por isso não usa batom, está resolvido o mistério, vou avisar a Velma que esse eu solucionei, imagina a cor derretendo, escorrendo pelas calhas até a base do nariz, que trauma.
Por que ela está me olhando e balançando a cabeça, hein, que mulher maníaca, devia trabalhar dando show de mímica, olha que desenvoltura impressionante, o que ela está tentando fazer, levando a mão até a boca seguido de um balanço na cabeça, cinco segundos para adivinhar, a roleta está rolando…
– Oi, café? Aceito sim.
E lá vem a Velma, a indiscreta Velma, a bisbilhoteira Velma, segurando a bandeja e o olho comprido. Curiosa de dar dó essa aí, olha a pescoçuda tentando enxergar as anotações da maníaca, que figura.
Tá se aproximando, se aproximando muito.
Pelo amor de deus, que mau hálito dos infernos a Velma tem, que que é isso, não precisava chegar tão perto pra perguntar, a essa altura tanto faz açúcar ou adoçante minha querida, eu quero um nariz novo por favor. Parece que lambeu a bunda de um macaco, isso é caso de tomar remédio, de chamar o bombeiro, de se exorcizar.
– Adoçante, mas pode ser açúcar, tanto faz, juro. Qualquer um.
Engole o riso. Engole. Segura os dentes dentro da boca menina, que ridícula, não dá gargalhada. E as lágrimas escorrendo pelos olhos e o nariz vermelho e eu me retorcendo pra não rolar de rir, que pesadelo esse bafo de defunto, socorro, ajuda, estou derretendo, um lenço, dois, uma máscara de gás por favor!
– Que é isso, não precisa ter vergonha não, é difícil mesmo, pode chorar sem medo.
E a doutora ainda me solta essa? Se controla levanta e vai embora, vai, aperta o passo segura a risada engole esse choro e não olha pra trás. Por deus. Terapia da risada, que que é isso… Semana que vem eu volto. Juro. A Velma vale cada centavo.

Marina Filizola

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