Livre Opinião entrevista Andrea Del Fuego: “A palavra é uma ponte entre você e o mundo”

Andrea Del Fuego clicada por Luana Sacilotto

Andrea Del Fuego clicada por Luana Sacilotto

Fazia sol naquele dia, naquele dia sol fazia. E com o sol, o calorão a caminho do bairro da Pompeia, em São Paulo. Quatro no carro: Jorge, Vinicius, Luana e Marcelino. Táxi atritando o asfalto, quente. Nós do interior também sabemos o que é calor, dor ardente na pele, mas avante nesta saga paulistana. O que nos levou a esta jornada urbana?

Foi a mais do que merecida chamada de atenção que o Livre Opinião tomou, um puxão de orelha do amigo, o escritor Marcelino Freire, por ter quantidade enorme de homens em nossa seção de entrevista, sendo poucas escritoras: “Cabras, tem que ter mais mulheres na página de entrevista. Eta, danado!”. É verdade. Portanto, fazemos um mea culpa e, para compensar, nada melhor que entrevistar uma das escritoras admiradas pela equipe do site: Andrea Del Fuego.

Entrevista marcada, equipamentos em mãos, rumo à Pompeia. Andrea, sentada à nossa espera, bebericando seu cafezinho na varanda da famosa padaria do bairro, localizada ao lado da emissora musical de maior sucesso dos anos de 1990, Com abraços coletivos, cumprimentos sinceros e mais quatro cafés pedidos,  o calor amansou, o sol preferiu brilhar por outras bandas, para a prosa ter início.

Grande nome da literatura contemporânea nacional, Andrea começou na literatura com microcontos, martelando no teclado da rede virtual nos idos da internet discada. Passou pelo infantojuvenil, amadureceu e publicou, em 2010, Os Malaquias, vencedor do Prêmio José Saramago. Da sua carreira dedicada à escrita, Del Fuego também lançou os volumes de contos Nego fogo (2009), Engano seu (2007), Nego tudo (2005) e Minto enquanto posso (2004); na literatura infanto-juvenil: Sociedade da Caveira de Cristal (2008) e Quase Caio (2008), além do segundo romance As Miniaturas (2013).

Entre um gole de café e outro, bem à vontade, Andrea contou sobre o espaço da mulher na literatura atual, o processo da escrita de Os Malaquias, o amadurecimento da carreira e a consequência do prêmio José Saramago.

Livre Opinião: Qual é o espaço da mulher na literatura do século XXI?

Andrea Del Fuego: Acho que já foi muito pior. Em meados de 2000 a 2005 existia a pergunta constante de como era a literatura feminina, coisa que hoje não tem mais. Aconteceu que um monte de mulheres começou a sair das gavetas para a visibilidade, tanto na qualidade quanto na quantidade. Começou também com a antologia do Luiz Ruffato, a coletânea 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, que logo no prefácio diz que ao pesquisar as mulheres, ele [Ruffato] acabou descobrindo muitas, mais de duzentas, que já haviam publicado e divulgado suas ideias. Então, esse assunto já deu uma diluída.

Como a escritora Andrea Del Fuego se coloca neste espaço da qualidade e quantidade, já que você começou na internet, que no início do século era totalmente novo para a literatura?

Me coloco presa ao meu tempo! Com vinte e poucos anos eu não poderia estar em outro lugar do que na frente de um computador. Era um lugar de escoamento de textos, sendo um espaço muito importante naquele momento, mesmo não lido no papel.

Foi por conta da rede que comecei a ter uma interlocução. Devido a um site, comecei a conhecer diversos nomes da minha geração e isso mudou muito. No meu caso, sair da tela do computador para a mesa foi uma virada, enquanto a escrita não era uma obrigação de vida, pois nunca associei o que escrevia para uma publicação.

A partir do momento que a rede começou a fazer essa divulgação e depois de conhecer diversos autores, tornou-se uma coisa de se recontaminar todas às vezes que trocávamos ideias sobre os nossos escritos tomando uma cerveja. Foi uma recontaminação de coragem e de reforçar uma decisão. Porque em algum momento você toma uma decisão de partir para a escrita, escrever um livro, segundo, terceiro, quarto… até chegar a fazer dez anos nesse caminho. Esse caminho já trilhado é um indício do que vou fazer na frente.

Escrevi o meu primeiro livro muito nova, hoje olho para ele e percebo que não era muito bom. O texto dele eu poderia reescrever, mas em 2004 publicar um livro fortaleceu essa escolha: acordar, prestar contas ao mundo e daí escrever. Muitas coisas precisam dar certo para que você comece a escrever. Para concluir um livro, as contas devem estar pagas, tem que ter cúmplices dentro da sua casa, no caso o meu marido sempre foi meu cúmplice, na casa dos meus pais já seria um pouco difícil. Essa cumplicidade no cotidiano é uma conquista, um amadurecimento.

Partindo do amadurecimento, você começou com microcontos e depois publicou o romance Os Malaquias, vencedor do Prêmio Saramago. Como foi essa passagem do conto para o romance?

Eu estava pensando nisso outro dia. Acho que a gente não escreve um livro, a gente se livra de um livro. Se livra de um amontoado, emaranhado que conseguiu pentear e se livra dele. Os Malaquias começou com uma obsessão de sete anos antes de ser publicado, desisti dele muitas vezes, foi recusado por várias editoras que acharam o material ainda sem qualidade para ser publicado. Então passei por várias reflexões, como “por que continuar com isso?” “voltarei para os contos”, “vou fazer infantojuvenil” – já havia publicado um.

O romance, até atingir a fotografia área do texto, demorou cinco anos. Uma coisa é ter ele em mente outra é conseguir realizar algo sobre essa ideia, a foto área, a geografia real do texto.

Você considera Os Malaquias um romance? Porque os capítulos são curtos, possibilitando a estruturação de um miniconto.

Sim, um romance, pois ele nunca poderia ser desmembrado em contos. Existe nele uma sequência lógica, fica sempre um gancho para um próximo capítulo. A minha preocupação era que tivesse um ciclo redondinho em cada capítulo. Alguma saciedade era cumprida.

Existe um traço biográfico no enredo também?

Sim! Os nomes eu mantive todos: O Nico era o meu avô, a Maria é a minha avó, o Antonio é meu tio-avô anão, e sempre ouvia dizer que ele ficou anão por causa de um raio que caiu na casa. Porque o enredo [de Os Malaquias] começa com um raio que cai na casa, cozinha por dentro o casal e os filhos sobrevivem, eu sempre ouvia essa estória. Até que eu saiba um raio não faz uma pessoa ficar anã, ele iria ser anão de qualquer forma, mas aquilo já era uma ficção da família. Sempre que eu tentava perguntar para os sobreviventes, no caso meu avô, ele caia no choro. Isso me deu muita emoção e mais vontade de escrever sobre o caso. Pensei: quero escrever o que ele [meu avô] não pode dizer.

Quando a minha avó faleceu, a gente resolveu dar uma volta de carro nos lugares onde eles teriam nascido. De cima de uma serra olhei para baixo e decidi escrever sobre essa terra. O livro ia se chamar Serra Morena, mas o editor sugeriu trocar para Os Malaquias, pois contava a história da família e não da terra. Foi um processo muito interessante, e hoje, em cada livro, eu percebo ter um processo muito distinto. Faço de tudo para ter controle, mas não tenho. É completamente misterioso o caminho que cada livro vai seguir. Tem um determinado ponto final que mesmo reescrevendo, aquilo já está ali, a essência já está colocada ali, pode ser para o bem ou para o mal. É sempre o incerto.

Eu considero o Prêmio José Saramago um lindo acidente. Eu quero dizer “acidente” não no sentido de um acidente de automóvel, mas um acidente que fez duas montanhas se colidirem e formar lugar lindo… um acidente natural (risos).

O prêmio também teve uma consequência. Depois dele sua carreira literária mudou completamente?

Sim! Não dá para descartar isso. O prêmio é algo que o mercado vê. Para você ter uma ideia, meu marido é mais vislumbrado com o prêmio do que eu (risos).

Novamente o acidente lindo. Eu estava grávida quando recebi o prêmio, não tinha plano de saúde – como ainda não tenho – e com o prêmio em dinheiro fiz o parto muito bem, o que me deixou segura. Além de me dar segurança material, importante para uma fêmea que vai parir no fundo da toca.

Um fato curioso, no dia da premiação a viúva de Saramago, a Pilar Del Rio, falou ao público um pouco sobre o enredo do livro e percebi que ela estava contanto a história do meu avô. Isso me emocionou, além de receber chutes do Chico dentro da minha barriga (risos).

A sua escrita passa por quais influências literárias?

São três autores: Herman Melville, William Faulkner, que eu acho que é um Guimarães Rosa norte-americano, e o próprio Guimarães, que é uma literatura que termina nunca. Os latinos também, como Borges, Cortázar, JJ Veiga.

Gosto do Murilo Rubião, acho incrível a atitude dele sobre os próprios livros, curioso que ele mais reescreveu do que escreveu. O mágico dos textos de Rubião estava no cotidiano. O cara está fumando na praia, aparece um coelho e pede um cigarro. Acho isso inspirador.

Então, o que a literatura te forneceu?

Eu acho que é liberdade! Liberdade individual que pode refletir coletivamente. O espaço da escrita que se tem no cotidiano, tendo como hábito escrever, te faz conhecer um fluxo mental, vai ficando cada vez mais íntimo da sua voz e vai alinhando com as coisas que já viveu e vai vendo. Isso te dá liberdade, te dá palavra. A palavra é uma ponte entre você e o mundo. A palavra é forte!

Entrevista: Jorge Filholini e Vinicius de Andrade

 

4 comentários sobre “Livre Opinião entrevista Andrea Del Fuego: “A palavra é uma ponte entre você e o mundo”

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