Vida Morna

Cinco e quarenta e cinco da manhã. Meio-noite meio-dia. O galo grita histérico no alto-falante estourado do meu despertador campestre. Tá um frio desgraçado. Mais um dia normal e gelado pra dar levante na minha vida morna.

Acordo indecisa, pra variar, e o gato me olhando estrábico com o focinho gelado como quem dormiu o suficiente e está pronto pra caçar. Sentado no rodapé da janela, lacrada desde ontem. Abro a porta do armário que range, as roupas de sempre, os olhos cheios de ramela e a visão turva. O michano se esbofeteando todo garboso contra as gavetas emperradas. Só abre no pontapé. Visto jeans-batido e casaco de pele falso. Não. Calça de camurça e malha desbotada. Não. Legging néon top-trançado e colete de plumas. Calça bailarina preta casaco de pele e gorro de veludo. Não. Bota de couro. De plástico. De pelúcia. Não. Salto-alto. Baixo. Sapatilha? Nunca. Tênis? Que nervos! Ok. Desodorante gelado e o arrepio no bico dos peitos, dente escovado daquele-jeito e água trincando no rosto quente e amassado com marcas de fronha. Perfume. Que cheiro? Miracle. Muito chique. Flowers, enjôo. Be Delicious só para encontros. Nada então. Cheiro de fêmea selvagem. Nunca falha. Fome. Frio. Indeciiiiisa…mulher. Normal. Quase normal vai. Xícara suja de suco de ontem transbordando café fraco e sem açúcar do fim-de-semana e pão amanhecido com manteiga rançosa. Gargarejo com suco de laranja direto da caixa pra limpar as cascas oportunistas grudadas nos molares e o bico de plástico embolorado de tanto eu meter a boca babada me dá um pouco de nojo. Pronto. Vamos á labuta. Saio pontual. Enfim. Sem drama, é só mais um dia. Seis e quinze da manhã e o sol safado desponta sorrateiro atrás do viaduto e camufla as gotículas transparentes de água no banco-porcaria do ponto de ônibus. Sento decidida e a bunda ensopada me deixa emputecida. Não levanto de birra. O que molhou molhado está. Deus sabe o que faz. Dez, quinze, vinte, quarenta e cinco minutos depois nada do busão e minha unha no toco. O que me mata é essa espera. O ônibus que não passa, reunião que atrasa, musica de banheiro nas linhas de trem, mocinhas do marketing vendendo seguro de vida. O pão lerdo banhado de margarina na chapa suja de ovo e bacon, estimulantes bloqueados pelo médico, opiniões sem nexo, pessoas acéfalas. Parodias. Melodramas. Novelas mexicanas. Laboratórios de diagnósticos. Secretarias eletrônicas. Catracas emperradas. Filas de banco lotadas.

Não, nada de ônibus de lotação de porra nenhuma. Greve? Coloco o fone de ouvido pra tapear os pensamentos azucrinando minha vida pacata.

O que me enlouquece são esses zumbidos que não desocupam minha mente avacalhada. Todos eles. Pernilongos dopados. Cochichos no cinema. Sirene da policia. Interfones. Varejeiras. Helicópteros transparentes. Nextel. Passarinhos sonâmbulos. Gota de água vazando na pia. O barulho dos pensamentos. Juras de casamento. Padres. Mensagens inbox cortadas ao meio. Orçamentos superfaturados. Cesariana com data marcada. Bom, Pouco importa o que eu penso. Dez para as oito e o ônibus chegando lá de longe, abarrotado de gente atrasada. Balangando de um lado pro outro. Com a suspensão arreada. E o numero de lotação- máxima pra lá de estourada. Tem gente sentada no colo do cobrador. Vai ser um inferno. Subo receosa e me encaixo entre a moça de ancas largas e o motorista. Fiquei sem respirar por dois minutos até me habituar ao cheiro de enxofre que subia fino, expandia, e grudava impiedoso nos pelinhos do meu nariz. Olhei o horizonte forrado dos mais diversos tipos de cabeças: oval, achatada, pontuda, de boné, de toca, com cabelo, sem cabelo, todas as cores do arco-íris. Enrolados lisos encebados. Babyliss escova progressiva e bobs.

As nove e vinte três em ponto começou minha tremedeira. Aquele aperto indecente e eu me contorço pra arrancar o casaco de lã o moletom a malha térmica o gorro de veludo o cachecol ensopado grudado no pescoço e as luvas de neve. E nada da tremedeira passar. A cada duas ondas de calor vinha uma violenta de calafrio pra rebater o mal estar. Pronto. Eu estava doente. Eu estava com febre. Aquela altura da competição minha temperatura oscilava entre 40 e menos dois graus. Pra não entrar em desespero desfoquei da enfermidade e começo a ler tudo o que está ao alcance da vista. Feed de notícias, cartas alheias, pichações nos bancos, revistas podres, itinerários, placas de rua, porta de banheiro. Marcas de jeans de relógio de bolsa. Anúncios de “compra-se ouro” de “trago seu amor de volta em três dias” de “vende-se lote no céu”. Outdoor de propaganda política enganosa.

Nada de melhorar. Dei o sinal pro motorista parar através de mímica e desci do bumba do-jeito-que-dava. Dando ré na multidão. Me escorando numa bunda ou outra. Apoiando o sovaco num pescoço ou outro. Um tropeção no ultimo degrau e quase fico estatelada na sarjeta, não fosse a fila que já estava pressionando-empurrando-se amontoando desesperada para entrar. Mão na testa depois no joelho e um sinal da Cruz pra Deus olhar por mim. Foi o que deu tempo de fazer antes de me diagnosticar doente-de-verdade. Me agasalhei inteira pra acalmar o esqueleto frio. Volta toca, casaco 1 2 e 3, luva e cachecol úmido. Corri pra farmácia mais próxima atrás de um anti-térmico um anti-qualquer-coisa que me melhorasse a sensação de morte. O farmacêutico sem diploma de medicina já foi me lançando quatro caixas de cura-tudo com cara de entendido do assunto: contra febre dor-no-corpo e mal-estar. Enjôo ânsia e vontade-de-morrer. Dor-de-cabeça dor-no-corpo dor-na-consciência e depressão. Contra intoxicação alimentar, vírus desconhecido e suspeita de epidemia brava. Tinha de tudo. Desconfiada me esparramei na cadeira, desfalecida e macambúzia, e tratei de debulhar toda contra-indicação que cabia nas caixinhas milagrosas. Posologia advertência orientação prazo-de-validade, composição referências modo-de-usar reações-adversas, informações-ao-paciente á-família á-funerária, características farmacológicas influencias psicológicas efeito-rebote e duração da lombra. Conduta em caso de super-dosagem, em caso de pilantragem em caso de erro-de-calculo e o diabo a quatro. Na duvida comprei todos. Tomei as bolinhas do dia junto com as bolinhas da noite num talagada só. O Doutor coçou a cabeça preocupado ajeitou os óculos todo sem graça e disse cheio de experiência que os tarja-preta precisavam de receita, não tinha maneira de fazer mutreta. O meu caso era muito mais serio do que ele pensava.

Onze e quinze da manhã e lembrei do trabalho enfadonho que me aguardava, da reunião pentelha que eu já tinha perdido, do almoço intragável que eu não tinha desmarcado. Do contrato que eu não assinei, dos relatórios que não entreguei, das contas que eu nunca ia pagar.

Potencializei a voz de doente e exagerei com uma rouquidão arranjada as pressas.

– Doente, isso, muito mesmo. Não consigo ir hoje. Já tomei, amanhã estou melhor, prometo, vou pra casa descansar. Não, amanhã sem falta, segunda-feira foi complicação de família, agora é caso de saúde, juro.

Em casa abri a porta quase desmaiando, a janela ainda lacrada graças-a-deus, o gato me olhando estrábico e indignado porque tinha acabado a ração. Arranquei como-dava as roupas do corpo, abri o armário, a porta maldita rangendo, e dei um pontapé certeiro na gaveta emperrada pra pegar algum pijama que vestisse aquele momento clinicamente desagradável. Camisola. Não. Moletom e calça de lã. Não. Babydoll e patufas do Mickey. Não. Macacão térmico e sleeping-bag. Não. Calcinha sutiã e meia de três quartos no cobertor de pena de ganso. Ok. Um gargarejo em água com sal pra liberar a rouquidão psicológica, vitamina C efervescente no copo sujo de café-fraco da manhã pra dar um tapa na resistência, um gole gordo direto nada caixa de bico embolorado de suco de laranja seguido de duas capsula de sabe-lá-deus-o-quê.

Me enfiei debaixo do edredon assassino só com os olhos de fora. O gato ronronado toda sua preguiça aos meus pés frios e suados. A pantufa do Mickey olhando vesga minha situação de merda. À janela sempre lacrada, adicionei cortinas-fechadas.

Cinco e quarenta e cinco da manhã. Meio-noite meio-dia. O galo grita histérico no auto-falante estourado do meu despertador campestre. Tá um frio desgraçado. Mais um dia normal e gelado pra dar um levante na minha vida morna.

marina

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