Livre Opinião entrevista André Sant’Anna: “Acho que faço de tudo, porque não sei fazer nada”

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Os deputados brasileiros não são vagabundos, não ganham quase vinte e cinco mil reais por mês mais uma série de ajudas de custo como passagens aéreas, casa, comida, roupa lavada etc., não passam só três dias da semana em Brasília, onde não atuam somente em causa própria, comprando e vendendo favores e outras paradas que não os tornariam cada vez mais ricos ilicitamente. Eles não ganham décimo terceiro, décimo quarto e décimo quinto salário e não têm direito a dois meses de férias e mais uma série de recessos por ano. (trecho do conto “O Brasil não é ruim”,p. 10, do livro “O Brasil é Bom”, de André Sant’Anna).

Muitos têm o hábito de confundir autor e obra, escritor e personagem. Foi assim com Machado de Assis e seu Dom Casmurro, é assim até hoje. Isto já aconteceu e acontece com diversos escritores, confusão que marca também os textos do escritor André Sant’Anna: “No Facebook, vivo fazendo amizades que acabam me bloqueando depois, quando descobrem que eu não sou um de meus personagens”.

Filho e sobrinho dos também escritores Sergio Sant’Anna e Ivan Sant’Anna, André partiu igualmente para a ficção, que se tornou a ferramenta para desenvolver a escrita provocativa que desconstrói padrões consolidados na sociedade e na literatura. Talvez sem pretensão, o autor publica textos polêmicos – na concepção da crítica –, fazendo com que muitos leitores confundam o autor da obra.

André também é publicitário, músico e roteirista. Na literatura, publicou as obras Amor (1998), Sexo (1999), Amor e Outras Histórias (2001), O Paraíso é Bem Bacana (2006), Inverdades (2009) e o recente O Brasil é Bom (2014). Em um bate-papo com o Livre Opinião – Ideias em Debate, o autor não falou apenas de suas personagens e as confusões que suscitam. Ele também falou sobre a tríplice relação dos Sant’Anna com a literatura, sobre a situação política e social brasileira e também sobre sua experiência de quase morte, que mudaria talvez para sempre sua visão em relação à escrita. Confira a entrevista:

Livre Opinião: André, você é de uma família de escritores: seu pai, Sérgio Sant’Anna. Seu tio, Ivan Sant’Anna. Vocês conversam entre vocês? Um é o primeiro leitor do outro?

André Sant’Anna: Com meu pai, converso sempre sobre literatura, nossos livros e qualquer outro assunto. O Ivan vejo pouco, mas conversamos, às vezes, sim. Em relação ao meu pai, somos primeiros leitores um do outro, sim. Quer dizer, quase sempre.

Fazem muita confusão com a sua ficção? Já o acusaram de preconceituoso, não foi? Confundiram a sua voz com a voz dos personagens? O que tem a dizer sobre isto?

Acontece muito. Muitas vezes, algumas pessoas vêm conversar comigo, dizendo coisas racistas, machistas, fascistas, querendo agradar. No Facebook, por exemplo, vivo fazendo amizades que acabam me bloqueando depois, quando descobrem que eu não sou um de meus personagens.

Um dos recursos que chamam atenção na sua prosa são as palavras e frases cíclicas, que vão e vêm até a exaustão. Você poderia nos explicar como surge na sua escrita esse estilo?

É uma questão quase musical. Uma questão de ritmo. Mas tento variar esses ciclos. Alguns são cansativos, repetição de conceitos idiotas, fazendo com que os idiotas percebam que são idiotas. E busco a liberdade da forma, não me prender ao texto “bem escrito”, às regras do texto enxuto, às regras da clareza. Tento me aproximar o máximo possível do pensamento. A forma do pensamento.

Quais são os seus heróis literários? Você queria ser músico, não foi? Prefere o rock ou a literatura?

Nem todos os meus heróis literários são escritores. Quem eu mais gosto de ler e que influenciaram a minha literatura, cito Nelson Rodrigues, Glauber Rocha, Jorge Mautner, José Agripino de Paula, Kurt Vonnegut Jr., Jean Luc Godard. E, sim, fazer música é mais gostoso do que escrever – é mais rápido, menos solitário.

Para André, a crônica é um exercício de escrita? Na sua literatura, ela ultrapassou a estrutura e se transformou em conto ou romance?

Pois é. Acho que as velhas classificações de gênero não cabem mais na literatura que se faz hoje. Tenho dificuldades em classificar os gêneros dos meus livros. Não sei dizer, por exemplo, se “O Brasil É Bom” é um livro de crônicas ou de contos. Se os textos falam sobre a realidade ou são ficção. Aliás, quando faço um show, por exemplo, não sei mais se estou fazendo música, literatura ou teatro. Acho que faço de tudo, porque não sei fazer nada. Já fiz música, teatro, cinema, literatura e também faço lá as minhas coreografias.

E o Brasil é bom? O paraíso, é bem bacana?

O Brasil está bem mal. O povo brasileiro muito primitivo incapaz de interpretar os fatos. É um país rico e ao mesmo tempo com baixíssimo nível de desenvolvimento humano, cheio de crianças nas ruas, uma polícia violenta e bárbara, uma visão política rasa onde as pessoas ficaram no Petismo X Antipetismo, passando direto pelos problemas que realmente interessam. Até a democracia fica difícil, pois as maiorias são totalmente estúpidas. O Executivo é incompetente, o Legislativo é corrupto e o Judiciário é parcial. O Brasil até seria o paraíso, aquele do Glauber e do Darcy Ribeiro. Mas passou do ponto.

Não faz muito tempo, você passou internado em Natal, perdeu muitos quilos, escapou da morte. Isso modificou a tua visão de mundo, a tua literatura?

Claro. Durante vários meses, eu me preparei para morrer. Isso causa um grande tumulto na cabeça da gente. Sem essa experiência, eu não teria escrito “O Paraíso É Bem Bacana”.

Você é publicitário, trabalha, sobretudo, em campanhas políticas. O que vem dessa experiência para os seus livros? Dá para tirar algum proveito disto?

Trabalhando em campanhas, a gente aprende como funciona os bastidores da política brasileira. Por um lado, é um verdadeiro desencanto ideológico. Por outro lado, é um vasto material para a literatura.

Para finalizar, você utiliza o bordão “viva os maluco” ao compartilhar coisas no facebook de modo a divulgar situações inusitadas. Como é a sua convivência no meio virtual?

Os “maluco” são a melhor parte da humanidade. Foi uma reação minha à caretice das opiniões nas redes sociais. Numa época em que a dicotomia Esquerda X Direita perdeu o sentido, penso que a dialética política está mais na questão Caretice X Maluquice.

Entrevista: Equipe Livre Opinião

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