Anônimos

Não lembro a hora. Não importa que horas eram. Nessa cidade abarrotada de carros, gente e bactéria, o tempo é relativo. Melhor sair de casa cedo e voltar tarde. Faz-se o que dá no meio tempo. E o possível pra voltar vivo.
Nem sei por onde devo começar. A falar. Quando encontrei ele. Entrei pela porta dos fundos. Aquilo sim era fundos. Não podia ser entrada pra nada. E tudo parecia um comercial de margarina. Parecia que estava resolvido. E cheirava suor. E hálito de gente com sede. E felicidade nem sei como. Tudo de repente fazia sentido. A minha futura família Doriana.
Odeio margarina.
Esse mundo surpreende.
– Se apresenta. Primeiro nome. Tempo limpo. Se quiser.
Habituado, nem me notou. Tentei até. Nem meio pensamento. Nada.
Mais uma chegando. Devia ser todo dia igual. Chegou outra. E aqueles que sumiram. Tanto faz. Não faz diferença. Essa fatia gorda de gente que não fica. E a maioria não fica.
Eu, escorregadia. Esperando um milagre. O sinal divino. Um cuspe de deus. Que nada. E depois disso foi a mesma coisa toda tarde. Semana após semana. O ano foi igual o ano inteiro até agora.
– menina, não acredito que vc usa crocs. Vermelho.
– é.
– sabe, é horrível.
Passei a vestir sapato. E calça comprida. Sentar com jeans era uma merda. Apertava meu corpo. Minha vida esmagada. E eu, esperava o segredo da próxima. Semana atrás de semana. Qual momento ele ia olhar sem disfarçar. Meu cabelo raspado. O sapato nojento. Só ia falar: não acredito que você usa perfume doce. E eu ia me lavar. Correndo.
Ele nem sabia. Queria que fosse meu marido. Mas nada. Nem um aceno. Nunca. Aquela cara de que sabia. Sabe? Ele tinha. Ainda mais mudo. Era perfeito. Do tipo que podia ser famoso. Se quisesse. Só que ele não queria.
Eu não queria. Estar ali. Mas estava. Era o que o tinha pra hoje.
Daí vem o destino. E torce tudo. Põe a vida na maquina de lavar. O antes o durante e o que vai vir. Gira tudo. Depois seca. E o que nem servia até encolhe. E a gente até tenta usar todo apertado, na vida esmagada. Aí desiste. E joga fora. Sobra dois punhados de peças. Meia calcinha, uma camiseta furada. É o que basta.
Aquele filho da Puta que disse. Eu escutei. Porque sento ali todo dia na mesma hora faz um ano. E escuto tudo. Até o que eu não quero. O cretino. Que solta a pérola, depois some. Disse: Um homem só precisa daquilo que pode carregar.
O maldito estava certo.
E eu tenho pouco. Por isso.
Sobrou nada.
Mas eu não podia desistir. Dele. E da sala azul. E um monte de sorriso Doriana. E aquela sensação de que tudo bem. Mas por dentro. Por dentro era tudo podre. Era um monte de ressentimento. De coisa errada na vida. Por isso. Família Doriana o cacete. Ardendo de colesterol naquele pote plástico angelical. Com sol.
Não parei por aí. Nem pense.
Duas horas. Por dia. Dia após dia. E já passou um ano. E ouvi ele falando. Das mulheres, das inúteis às descartáveis. Da noite, a luxúria e a cara inchada. A ressaca moral, da ira da ressaca moral. Da vida, aquela que tinha sido roubada. E da nova, que vinha ser devolvida. Eu vi esperança. Nem sei como mas ali tinha. E Me apaixonei. Pela mentira toda. Caí de quatro. E sonhei com os dias passando. Fui arrastando comigo esse sonho. Dia a após dia. Faz um ano. Até agora.
Foi onde martelei meus planos. Nas costas dele.
Peguei pela mão e tomei pra mim.
As vezes demora chegar. A vida. Pelo menos por aqui, levou tempo. Mas chega. E quando chega, fica vezes três. Foi assim comigo. E com ele. Com nós dois. Juntos.

Foi assim: tal dia de tal semana de tal mês daqueles dias todos, ele olhou. E me viu. E foi assim mesmo. Foi crescendo. Os dias que viraram semana e depois ano tudo foi crescendo junto. Nas tardes progressivas. Como tudo quanto é coisa que progredia dentro da gente. Tudo mesmo.
Foi a vida nova que veio. Tudo fora de ordem. Tudo tumultuado. Uma certa pressa do futuro que vinha. Pra limpar o passado carimbado.
Se foi fácil? Não. Não foi.
Se Piorou? Não, não tinha como.
…só por hoje.

marina

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