Mãe-Polvo

Essa coisa de ter filhos acaba com a gente.
A melhor conversa que tenho o dia inteira é às quatro da manhã. Sonâmbula.
A única pessoa capaz de entender o que uma mãe passa é outra mãe passando pelo mesmo perrengue.
– Oi, tá por aí?
– Tô. Desde as duas e quinze.
– Que foi, tá com cólica a bebê?
– Cólica dente nascendo fome e cocô até o pescoço. Todas as alternativas.
– E você, a cadeira de balanço rangendo muito?
– Cadeira rangendo o gato miando o moleque se esgoelando e meu marido roncando. Todas as alternativas. O menino está sugando minha alma.
– Ah, o de sempre.
– Tá, amanhã a gente se fala. Vamos dar uma volta no shopping? Tô enlouquecendo.
– Fechado. Mal posso esperar. Dois bebês chorando juntos vai ser o caos.
– Beijos.
– Boa noite. Dorme um pouco.
– Essa é boa, vai se fodê.
E é isso.
O que delimita a profundeza da nossa olheira é a diferença de meses entre os pivetes. Um mês: olheiras até o queixo humor instável cabelo caindo tetas ardendo. Dois meses: olheiras até o nariz humor negro cabelo ressecado, tetas rachadas. Três meses: olheiras pretas no lugar de olheiras, humor já foi embora faz tempo, cabelo preso todo arrebentado e as tetas em frangalhos.
Essa história de ficar confinada dentro de casa tira qualquer pessoa do sério. Parece que não há vida além das paredes do meu quarto. Só existe dar mama trocar a fralda passar hipoglós abotoar roupinha, dar banho dar mama de novo trocar três fraldas seguidas gastar um tubo de hipoglós, cozinhar papinha armazenar papinha colocar babador tirar babador, dar banho de novo dar mama de novo colocar pra dormir e, meia hora depois, o bebê acordou gritando. Com fome. Mijado até o cabelo. Não deu tempo de fazer xixi, cocô nem preciso comentar que a prisão de ventre predomina na maternidade. Nem de tomar um banho de gato, de trocar a camiseta toda azeda de leite. De nada. Isso quando eu não confundo a pasta de dente com creme para assaduras pra começar o dia com chave de ouro.
O combinado era:
– Duas horas passo aí. Me espera pronta.
Arrumei a mudança: mochila roupinhas fraldas hipoglós luftal mordedor chupeta chocalho mamadeira brinquedos cobertor bolsa térmica carrinho papinha suco cadeirão. Parece que estou indo passar o fim de semana fora. Já estou exausta, são três da tarde e a desgraçada não toca a campainha.
O mau humor deu um pico de audiência.
Liguei ácida pra dita cuja.
– Qual foi, esqueceu o bebê no micro-ondas? O moleque impaciente eu exausta a mudança pronta e você fazendo graça aí na sua casa.
– Ela dormiu, tô com dó de acordar.
– Pelo amor de Deus, dó da gente ninguém tem né? Enfia a menina dormindo no carro, amarra no cadeirão e sai do confinamento, santa!
– Tá. Tô saindo. Vamos ter que parar no fraldário logo que a fralda tá pesada e cheirando defunto.
Meia hora depois, minha veia da testa saltada o moleque dormindo graças a deus e ela chega discreta descendo a mão na buzina. Acordou o meu bebê o bebê dela e os cachorros da casa da frente e os velhinhos do asilo do quarteirão de trás. Uhu! Vamos.
No estacionamento do shopping, a misteriosa vaga de gestantes não estava em lugar nenhum. A de idosos, lotada. Sobrou a vaga de cadeirantes e como a gente tinha dois cadeirões pra carregar no braço, nos achamos no direito. Mesmo porque nem tinha como arrancar tudo aquilo do carro parando numa vaga normal. Nego reclama, mas não levanta a bunda pra ajudar a carregar a mudança descarregar os carrinho pegar os bebês, encaixar os bebês no carrinho amarrar eles no cadeirão de novo e pendurar as quinze mochilas aonde desse pra pendurar. Àquela altura da competição, eu pagava pra ver algum segurança que fosse homem o suficiente pra vir dar lição de moral em duas mães suando destrambelhadas com cara de loucas. A gente precisava de espaço de uma vida nova e voltar no tempo se possível.
No elevador traçamos o plano do passeio. Primeiro andar: comprar brinquedos educativos sem graça, passar no caixa eletrônico e ver o tamanho do rombo na conta, tomar um frapuccino de caramelo boiando no chantilly pra acalmar os ânimos. Partiu pro segundo andar direto para o fraldário (mesmo porque àquela altura a fralda já devia ter vazado cocô pra todo lado): dar mama trocar as fraldas (pela enésima vez) trocar as roupas que já deviam estar mijadas e aproveitar que a gente já estava ali mesmo, sentadas, coisa rara, pra tomar um litro de água no gargalo colocar o papo materno em dia e meter o pau nos maridos, aqueles encostados miseráveis de uma figa. Enfim, terceiro andar: trocar dois macacões muito-rosa por dois macacões menos-rosa, comprar um sapato de anão numero 17 pela bagatela de cem reais, adiantar dois presentes de aniversário (vai saber quando ia dar pra sair da toca de novo) e comprar uma blusa que a gente nunca ia usar só pra se sentir bonita e consumista.
O plano desandou nos quarenta minutos do primeiro tempo.
No primeiro andar tudo correu tão bem que tivemos um surto de liberdade e deixamos a etapa do café por último. Ainda não estávamos falidas no banco, quase enlouquecemos na loja de brinquedos e foi nessa brecha que os mijões sincronizaram o sono. Magica. A lógica: Uhu!
Deixamos a fralda de meio quilo de bosta pra dali a pouco e tocamos pro terceiro andar.
Não foi tão simples assim. Não sei quem foi o amaldiçoado que inventou as regras da escada rolante, mas com toda certeza algum safado solteiro livre e com tempo de sobra.
– Pela escada rolante não pode senhora, crianças de carrinho só no elevador.
Merda.
O elevador abarrotado de gente. Se você quer subir ele desce se quer descer ele sobe. Imagina a demora a impaciência a lotação o bafo. O que era pra ser uma coisa agilizada vira um tormento uma espera um saco. Perder tempo ouvindo música de elevador olhando a cara de paisagem dos outros e apertando o botão estilo-ascensorista pra ver se a coisa ficava mais agilizada é o fim. Porque ninguém vai pra andar nenhum ninguém se olha nem se fala nem se cumprimenta. E aquele cheiro de cocô mole e sem consistência foi dominando o ar que já era rarefeito. Todo mundo se acusando com olhar de suspeito, cara de não-fui-eu.
Foi no terceiro andar que o sonho acabou. No meio da troca de roupinhas os dois pimpolhos acordaram simultaneamente e começaram a se esgoelar em coro. Parecia que tinham combinado. A vendedora se atrapalhou a caixa passou a diferença errada e eu balançando os dois carrinhos ao mesmo tempo. Mãe-polvo. Deu pra ver o carrinho molhado a roupa vazando um líquido marrom corrosivo e o cheiro de carniça fresca empesteou meus pensamentos.
Partimos ao som agudo de berreiro de bosta e fome, aquele som cortante que entra no tímpano e faz um tuim no cérebro. Aquela nota que dá embrulho no estômago que mexe com o controle nervoso que faz a gente perder o rumo. Esperamos o elevador fazendo mímica cantando galinha-pintadinha e pulando num pé só. Qualquer coisa que acalmasse aquelas criaturinhas que, quando sujam a fralda, nem parecem coisa-de-deus. O cheiro de chorume providenciou uma evacuação instantânea no elevador e por algum motivo misterioso nos sentimos vencedoras. Dominamos o sobe e desce demos off na música insuportável de banheiro que, misturada aos gritos escala 5, parecia música gospel. Deu até tempo de passar um batonzinho e falar mal daquela gentinha fresca, credo.
No fraldário, aquela desgraça que sabíamos que nos aguardava: roupas salpicadas de diarreia. Trocamos aquelas bundinhas azedas com agilidade de enfermeira de berçário. Depois de um tempo, todo processo vira uma coisa mecânica e sem sentimento. Desabotoa, arranca meia mijão macacão numa mãozada só. Tudo direto pra um saco de plástico vedado: material químico. Como o pobre do lenço úmido não ia dar conta de jeito nenhum, o pré-banho foi providenciado na pia. Seca passa hipoglós põe a fralda o body o mijão as meias abotoa a roupinha, pronto. Nesse ponto o silêncio era o que garantia nosso juízo. Qualquer palavra que saísse viria acompanhada de lágrimas. Chegada a hora da amamentação, sentamos esgotadas e oferecemos nosso último estoque de energia, que as crianças sugaram até a última gota sem miséria.
Ainda conseguimos tomar dois goles de café antes de colocar a mudança no carro. De novo.
O segurança já esperava a gente com as mãos na cintura. Faltava bater a ponta do pé e balançar a cabeça estilo que-coisa-feia-hein, roubando a vaga de aleijado. Tomou um vai-se-foder em coro com as crianças se esperneando de backing vocal. Nem reagiu. Anotou alguma coisa num caderno, provavelmente pra ele se lembrar de nunca mais mexer com um mãe com criança-de-colo.
– Oi, tá por aí?
– Tô. Não estou sentindo minhas pernas.
– Bom, então você tá no lucro. Eu não sinto mais nada.
– Chegou bem em casa?
– Ô! Bem desequilibrada. Ainda o outro perguntou o que tinha pra janta, vai vendo, a panela voou direto na cabeça dele.
– O de sempre então…
– Foi gostoso, semana que vem a gente repete o passeio.
– Tá. Hoje é quinta… Então até domingo eu tô recuperada.
– Boa noite. Tenta dormir.
– Essa é boa, vai se fodê.

marina

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