Dia do professor

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Img: Momentum Saga.

Cirilo Braga

Toda profissão tem seu dia, mas poucas dão ao seu dia um caráter de celebração como fazem os professores. E a cada 15 de outubro – data do decreto imperial de 1827 que tratou da primeira Lei Geral relativa ao Ensino Elementar -, por mais que governos e crises econômicas tentem negar, a aura quase sagrada desse ofício se manifesta. Quase ninguém fica indiferente à data, porque de alguma forma ela nos remete a uma ou outra figura marcante, que num determinado momento fez parte da nossa vida. Certa vez li um artigo em que um professor dizia: “Tenho um passado rico em recordações; tenho um presente desafiador, cheio de aventuras e alegrias, porque me é dado passar todos os dias com o futuro”.

Na era multimidiática e da tecnologia da informação, o grande exército deles ainda convive com a rotina do quadro negro, giz e apagador. Muitos chegam a pensar que hoje não existe mais grandeza em ser professor. Alguns rejeitam o título. Outros não fazem conta dele. Os mais velhos guardam lembranças de tempos não tão remotos assim. Talvez celebrem o réquiem de um modelo de ensino. Mas a magia de ser professor, esta ninguém pode dizer que se foi sem deixar rastro.

Quando alguém decide ser professor, ainda hoje opta por um modo de vida. A atividade que tem nobreza de missão nunca foi uma função qualquer. O ato de ensinar guarda em si a generosidade e exige daquele que exerce o desprendimento, o gostar da vida e das pessoas. Estas qualidades, diria dons, estão presentes, sim, numa atividade remunerada – e, diga-se, mal remunerada.

Todo professor é, antes de tudo, um estimulador de mentes, um despertador de consciências. Reconhece no aluno a capacidade de evoluir, de ser melhor, e trabalha para lhe dar as ferramentas para alcançar esse outro estágio. É ponte, é caminho, é ligação de um tempo para o outro, o elo mais fundo entre projeto e concretização.

Quando volta para casa depois de um dia de muitas aulas, o professor não se desveste da aura que sua profissão impõe, quase como um mandato que não termina, não se esgota, não sai para o intervalo.

Existem aqueles mais acomodados ou aqueles aparentemente resignados com a fúria com que os tempos atuais atropelam a sensibilidade, mas em muitas salas de aula sobrevive aquela figura que transpõe as épocas. Apenas muda de nome, mas preserva o mesmo e eterno espírito do bom professor. Aquele que suscita a discussão de temas, que provoca a reflexão e que leva o seu pensamento para acrescentar ao pensamento dos alunos, num mosaico de idéias que torna muito mais prazerosa a aventura do conhecimento.

Um professor desse gênero tem prazer em ser professor, porque encontra a sabedoria de transformar cada dia num degrau a mais do aprendizado – dos estudantes e dele próprio. Claro, o verdadeiro mestre é aquele que aprende com os alunos e disso me falava há pouco um velho professor de Biologia. Velho é modo de dizer. Se seus alunos a cada ano tiveram a mesma idade, pode-se dizer que um professor carrega consigo o dom de tocar a eternidade, porque a eternidade está no desígnio quase sacerdotal de transmitir conhecimento e educar pelo exemplo.

O professor é também um construtor de invisíveis castelos que se escondem na trajetória de cada aluno. O que será feito deles é o que indagam professores mais sentimentais. Quando reencontram um ex-aluno, é indisfarçável a alegria, não apenas por rememorar uma época, mas pelo orgulho de ter dado algo de si para auxiliar aquela pessoa a ser melhor.

Para se ter ideia da responsabilidade que tem, ao professor não lhe é dado ser um burocrata. Agir mecanicamente é impensável na sua tarefa. Queira ou não, por estar todos os dias diante da necessidade de unir disciplina e cooperação, o professor é aquele que apresenta às pessoas as primeiras noções de democracia, de convivência social e de postura ética. Não basta ser democrático, é preciso ser coerente. Unir o que pensa com o que diz. Fazer do cotidiano da sala de aula um ponto de partida para transformações importantes.

É por tudo isso que discordo da visão que se busca disseminar de uns tempos para cá de que o professor seja um coitadinho, um injustiçado, ou que o exercício dessa profissão esteja em baixa. Nunca vai estar, apesar dos pesares, porque um professor é um semeador de idéias, que para além de números e letras ensina a ter coragem, a reinventar a esperança.

Esta é sua trincheira na qual sempre cabem novos aliados.

Cirilo Braga

2 comentários sobre “Dia do professor

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