Ossos do Ofídio: De Vitória para Araxá

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Daqui de Vitória, no Espírito Santo, puxo pela memória. Aciono o pensamento. Para escrever sobre Araxá, Minas Gerais.

Em comum: a paisagem gigante. Vitória tem guindastes triunfantes. Corredores de navios. Ancorados para abastecimento.

Araxá tem o Hotel Tauá. Cinco não. Mil estrelas. Ao que parece. Nunca estive hospedado (perdido) em lugar tão grande. Colunas imensas, corredores labirínticos. O hotel tem 70 anos. Foi construído para ser um cassino. Por muito tempo, imperou por lá a jogatina. Hoje, recebe turistas de todo canto. E idem os escritores da terceira edição do Festival Literário de Araxá, o FLIARAXÁ.

Eu estava lá, na semana passada, para um bate-papo ao lado de Luiz Ruffato, sob mediação de Humberto Werneck. O assunto: nossa imigração para São Paulo. Eu, de Pernambuco. Ruffato, de Minas. Eta Brasil danado de grande!

Aqui em Vitória, outra história: é a terceira cidade em que eu visito com o projeto Quebras (www.quebras.com.br). Por sinal, feito em parceria e com a cumplicidade artística de um dos criadores deste Livre Opinião. Falo do jovem Jorge Filholini. Foi, aliás, por ter conhecido o trabalho dele, nestas páginas e pastagens, que o convidei para peregrinar, comigo, por quinze capitais brasileiras, longe do grande eixo. Estivemos em Teresina, Belém. Vamos ainda a São Luís, Macapá, Palmas, Rio Branco…

Mas voltemos a Araxá, antes que nos percamos.

Afonso Borges, o criador do festival, conduz com leveza o simpático evento, feito a duras batalhas. Ele que é mais um desses “agitados” culturais que não param quieto no canto, por nada. O supraberto projeto Sempre um Papo é criação dele. E demais empreitadas várias. Sempre juntando autores, estreitando laços, afinando todos os parágrafos.

Hotel Tauá, de Araxá

Hotel Tauá, de Araxá

O homenageado do FLIARAXÁ este ano foi Luiz Vilela. Ele que revelou, no seu bate-papo, que Machado de Assis teve um filho. É o que prova o próximo romance de Vilela, a ser lançado.

Evandro Affonso Ferreira também, em primeira mão, contou em Araxá, sua terra natal, por sinal: que está escrevendo um diário. O de um niilista lírico. De fato: só sendo “niilista” para acreditar que a viagem de van é melhor do que a de avião.

Eu e a escritora Márcia Tiburi fizemos companhia a Evandro, viajando mais de oito horas (contando atrasos e trânsito) até Araxá. Na estrada, as imagens nada líricas de uma São Paulo esfumaçada. Seca e desértica pelas queimadas.

Na mesma van, a filha de Márcia e os amigos da filha de Márcia. E a companheira de Evandro, a psicanalista Najla Assy. Os dois, aliás, comandaram uma conversa literária bem-humorada e esclarecedora. Ajudou-me, a conversa, inclusive, a resolver um impasse. De alma. Em sua “aula-espetáculo”, impagável, o casal afina livros e conflitos. A partir de Kafka, lido por Evandro, Najla descreve os corredores de medo em que estamos, digamos, kafkaneamente socados. Faz bastante tempo.

Santiago Nazarian pode, inclusive, nos contar mais um pouco sobre isto. Ele e sua tenebrosa história que envolve falta de luz e quarto inundado no majestoso Hotel Tauá. “Uma velha fantasma veio, na hora do sufoco, me ajudar”, relatou ele. Sem contar, é claro, a equipe maravilhosa que acompanha Afonso em seu festival. Abrindo os braços para receber, entre outros, Raphael Montes (ele que está doido para escrever um romance policial tendo o hotel como cenário), Carpinejar, Affonso Romano de Santana, Jacques Fux, Laura Conrado, Zuenir Ventura, Kledir Ramil, Mary Del Priore e também os atores Alexandre Borges e Eduardo Moscovis.

Destaque, ave, para o fotógrafo argentino Daniel Mordzinski, radicado na França, e a exposição “Quartos de Escrita”, flagrante que, há 35 anos, ele faz de dezenas e dezenas de escritores (acabou fazendo um meu em cima de uma cama no Tauá), como José Saramago e Carlos Fuentes, alojados, albergados, largados em vários hotéis pelo mundo.

Em Vitória, aqui, por exemplo, neste momento, apoio o meu computador em cima de um travesseiro com o logotipo Bristol. Lá fora, avisto o mar da Praia de Camburi. E, antes de fechar as janelas deste texto, não posso deixar de celebrar e compartilhar a genialidade do escritor e cartunista Dirceu Ferreira, primo de Evandro, que conheci em Araxá – terra, idem, do poeta Francisco Alvim, vale ressaltar.

Na oficina de criação literária, que compõe o projeto Quebras, citei várias frases de Dirceu, extraídas do livro que ele me deu, o “Máximas do Dirceu” (Editora Gutemberg). Só para dizer da máxima arte dele (ressaltada por artistas como Millôr Fernandes e Henfil) e deste olhar demolidor, inaugurador que ele tem para o mundo roendo ao redor.

A saber:

(1) O homem não veio do macaco. Vem vindo.
(2) Deus se esconde para saber quem o procura.
(3) Quando um não quer, dois o obrigam.
(4) Onde há fumaça, há pulmão.
(5) A saudade é a ficção da memória.

Ave nossa! Saudade que, é bom que se diga, bateu de Araxá, na hora de, na van de Evandro, ir embora de lá.

Agora me falta a saudade de Vitória, já a caminho, transatlanticamente, podem acreditar.

marcelinofreire

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