Milton Hatoum: “Ainda considero a literatura como uma aventura da imaginação e do conhecimento”

Hatoum

Milton Hatoum. Img: PEN American Center.

A viagem terminou num lugar que seria exagero chamar de cidade. Por convenção  ou comodidade, seus habitantes teimavam em situá-lo no Brasil; ali, nos confins da Amazônia, três ou quatro países ainda insistem em nomear fronteira um horizonte infinito de árvores; naquele lugar nebuloso e desconhecido para quase todos os brasileiros (…)¹

Manauara, professor, escritor. Brasileiro. Milton Hatoum é completo: romancista, cronista, contista e tradutor. É também premiado – arrebatou o posto máximo do Jabuti com Relato de um Certo Oriente (1990), Dois irmãos (2000) e Cinzas do Norte (2005). Na semana passada, seu livro de crônicas, Um solitário à espreita (2013), ficou com o terceiro lugar da 56ª edição do Prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas. É, sem dúvidas, um dos mais importantes escritores brasileiros da contemporaneidade,  tendo sido elogiado por varios criticos literários, como Flora Süssekind, Leyla Perrone-Moisés, Davi Arrigucci Júnior, Luiz Costa Lima, Benedito Nunes, João Alexandre Barbosa, entre outros. A obra de Milton Hatoum foi publicada em mais de quinze paises. Órfãos do Eldorado ganhará uma adaptação para o cinema, dirigida por Guilherme Coelho, com previsão de estreia em março de 2015, além da minissérie Dois Irmãos programada para estrear também no ano que vem, na Rede Globo, com direção de Luiz Fernando Carvalho.

Hatoum concedeu uma entrevista ao Livre Opinião – Ideias em Debate, onde falou sobre sua literatura, o romance e também sobre o Brasil e seu posicionamento em relação à corrida eleitoral de 2014 – Hatoum retirou, ainda no primeiro turno, seu apoio à então candidata Marina Silva. Ele também falou sobre a adaptação de seu romance Dois irmãos para a TV, que tem previsão de estreia para 2015. Leia abaixo a entrevista, bastante completa e atenciosa, do escritor:

Livre Opinião – Ideias em Debate: Sobre o seu trabalho, quais são as diferentes posturas que assume em relação as produções tão diversas, como o romance e a crônica?

Milton Hatoum: O romance é uma narrativa de fôlego longo, que exige tempo, paciência e, claro, muito trabalho com a linguagem e com os elementos que fundamentam esse gênero literário, embora as fronteiras entre os gêneros sejam imprecisas. O próprio romance é uma narrativa em que pode caber tudo: confissões, memórias, reflexões, citações, páginas em branco, ou com desenhos, fotografias, etc… A questão é como dar forma a essa miscelânea, ou fazê-la coerente. Você pode escrever um romance em pouco tempo, como fez Stendhal com A cartuxa de Parma, mas isso é incomum. O romance pede um tempo de espera, de maturação dos conflitos, ideias e personagens, pois geralmente depende de um sentido histórico. A crônica é uma narrativa breve, que às vezes se confunde com o conto. Mas está ligada à imprensa, ao circunstancial. O desafio do cronista literário é extrair alguma poesia e surpresa dos fatos narrados, incorporar à crônica algo que transcende o tempo presente e suas circunstâncias. Num ensaio breve sobre o livro de crônicas Fala, amendoeira, de Drummond, o crítico Antonio Candido diz que “a crônica tem algo de um repolho que vira flor”.

LOID: Sobre a presença do cenário amazônico em seus romances, alguns críticos a aproximaram a uma espécie de “regionalismo”. Como o senhor se posiciona em relação a isso? Ou ainda, qual a importância desse espaço em suas obras?

Hatoum: Li um ensaio muito bom da professora Tania Pellegrini sobre esse tema: “O regionalismo revisitado”. Na verdade, o lugar onde é ambientado um romance não diz nada sobre a qualidade do mesmo. Situar uma narrativa na floresta, no deserto, no mar, na metrópole ou em um lugarejo pode ser uma escolha irrelevante. O que importa, o que é de fato determinante é a relação profunda entre o local e o universal. Aliás, alguns dos maiores romances latino-americanos não são ambientados nas metrópoles. Pedro PáramoGrande sertão: veredas, S. Bernardo e Los pasos perdidos são apenas quatro exemplos. Isto também vale para vários contos de Jorge Luis Borges e Felisberto Hernández. O que interessa é a verdade das relações e dos dramas humanos de uma ficção. A força dessa verdade, inventada pela linguagem. E isto tem a ver com a história de vida de cada escritor. Para mim, Manaus tem um valor afetivo, simbólico e histórico. A partir dessa experiência escrevi romances, contos e crônicas, mas assimilei experiências em outros lugares (São Paulo, Espanha, França, Estados Unidos) e as usei em contos e crônicas. Literatura não é retrato da realidade, e sim transcendência de uma experiência de vida e leitura. Um ficcionista pode escrever sobre qualquer lugar, desde que o narrador transmita ao leitor um conteúdo de verdade humana, elaborado pela linguagem.

LOID: O senhor tem acompanhado a produção da minissérie baseada em seu romance Dois Irmãos? Você também contribuiu no roteiro ou prefere não se intrometer com as adaptações de sua obra?

Hatoum: Li a primeira versão do roteiro de Maria Camargo e gostei muito do texto. Maria pensa nessa adaptação desde 2001, quando leu o romance. Ela teve que reescrever o roteiro, porque serão dez capítulos, e não oito, como estava previsto. Dei poucas sugestões, mas tenho conversado muito com ela e com Luis Fernando. Sem dúvida vai ser uma ótima adaptação, em que a essência do romance será mantida.

LOID: Passaram-se 25 anos de Relato de um Certo Oriente, seu romance de estreia, o que o Milton Hatoum de hoje diria para o Milton Hatoum da época de produção da obra?

Hatoum: O escritor de hoje deveria ser corajoso e obstinado como o jovem de 1989. Ou de 1980, quando comecei a esboçar o Relato de um certo Oriente, depois de ter escritor alguns contos. Nenhum foi publicado. Ainda hoje, acho que não devo publicar qualquer coisa, porque o tempo é cruel com os livros. Nesse caso, tempo significa: tempo de leitura crítica. Mas o leitor de hoje é diferente, talvez mais exigente, mas não menos apaixonado que o leitor de 1989. Ainda considero a literatura como uma aventura da imaginação e do conhecimento.

LOID: O livro Um solitário à espreita foi publicado especialmente em formato de bolso, de modo a baratear a venda. Como você vê o mercado editorial atualmente, os preços abusivos dos livros e a baixa procura de escritores brasileiros, muitas vezes bombardeados pelos best-sellers?

Hatoum: Pedi ao meu editor para que publicasse o livro de crônicas em edição de bolso. Os romances alcançaram um público considerável quando foram lançados pela “Companhia de Bolso”.  Os escritores brasileiros enfrentam uma concorrência desleal: os best-sellers da indústria cultural. Ao contrário do que dizem por aí, o leitor de best-sellers dificilmente vai ler Osman Lins, Guimarães Rosa, Kafka ou Tolstoi. Mas há exceções: a obra de Pedro Nava é um exemplo de excelente literatura que se tornou best-seller. Tudo isso está relacionado com a qualidade do ensino público, mas a maioria dos 5.570 prefeitos não está preocupada com a formação educacional dos jovens brasileiros.

LOID: Para a maioria dos escritores o livro é como um filho, e você tem um filho preferido de toda a obra já publicada? Se tiver, por quê?

Hatoum:  Isso aconteceu com a Zana (a mãe do Dois irmãos), que preferiu um filho a outro. Todos os livros me deram muito trabalho. Foram escritos com muita paixão e reflexão… Eu me entrego à escrita como alguém que se entrega a uma história passional.

LOID: Recentemente, o senhor se posicionou publicamente sobre Marina Silva, retirando seu apoio a sua candidatura. Como o senhor vê o cenário atual, com os debates até então polarizados entre a candidatura da ex-senadora (agora aliada ao PSDB) e de Dilma Rousseff? Mantém aquela distância de que fala em uma de suas crônicas, de escorpiões e de políticos?

Hatoum: Não são propriamente debates, e sim acusações mútuas. É preciso manter uma distância crítica em relação aos dois partidos. Uma profunda reforma política é necessária, mas com esses legisladores será difícil… Aliás, os três poderes não abrem mão de seus privilégios.  O próprio Judiciário é frágil. Admiro muito a trajetória de Marina, que jamais deve ser comparada a Collor ou Jânio. Mas nessa eleição presidencial ela cometeu um erro ao apoiar o candidato do PSDB, que atraiu setores ultraconservadores da sociedade brasileira. Basta ler as manifestações racistas dirigidas a nordestinos e pobres. Isso é assustador. Os nós da Rede de Sustentabilidade ficaram frouxos e muita gente que estava tecendo essa rede caiu fora. O PSB, partido de Miguel Arraes, também pode sair enfraquecido. Vitorioso ou derrotado, o PT deveria fazer uma autocrítica para ser repensado e reconstruído. Na verdade há corrupção em todos os partidos que participaram ou participam do poder. Enfim, o retrocesso é quase geral. Mesmo assim, votarei na Dilma, pois nos últimos doze anos as conquistas sociais não foram poucas, um dos tantos exemplos é a inclusão social em universidades públicas e privadas.

¹HATOUM, M. Relato de um certo Oriente . São Paulo, Companhia das Letras, 1989. P. 71.

Entrevista: Jorge Filholini, Julio Bastoni e Vinicius de Andrade

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