Penetra

Você foi convidado pra festa de ontem? Eu imaginei, não te vi lá, tinha maior esperança de te encontrar perdido na pista sem camisa e bêbado ou na fila do banheiro atarantando a mulherada de bexiga cheia. Eu também não estava na lista de convidados e nem por isso deixei de ir, trata de se agilizar malandro, agora virei sua babá? Acho uma puta sacanagem gente que conhece a gente convidar meia São Paulo e deixar quem é arroz de festa de fora, tá aí uma coisa que me deixa endiabrado. E isso tá virando rotina, percebeu, essa coisa da gente ficar de fora de ser excluído de ser mal quisto? Pois é, desde o começo do ano. Nada de convite de email de bosta nenhuma pra evento nenhum. Lógico que fui, tá brincando, faz meses venho me aprimorando na fina arte de penetrar em festa onde sou persona non grata. Entrar camuflado entrar de bico pular o muro tapear segurança, você sabe. Não, aquela que o povo foi fantasiado de gala não foi a última que eu entrei. Por sinal, a gente arrebentou com as probabilidades daquela vez, vai dizer, leão-de-chácara uma pinoia, fomos de garçons e ainda comemos de graça. Como nem ficou sabendo, divulgaram na pagina social de meio mundo, todo povo curtindo compartilhando comentando, em que planeta você vive? Não te liguei porque aconteceu tudo em cima da hora, me deu ataque e eu fui. Inclusive foi sensacional, no fim da festa chuta quem estava com a língua dentro da boca fresca e cheia de dente da dona da festa, quem quem? Eu. Eu mesmo seu cretino, está pensando que sou pouca porcaria? Vou te contar.
Eu estava lá em casa de bobs coçando o saco só de cueca e meia, um típico sábado sem graça sem sal sem novidade sem namorada sem nada. Vendo fantástico com uma mão no controle remoto e outra no teclado. Não, o controle da tv foi consertado, aquele mastigado foi pro lixo, cachorro desgraçado, já falei pra minha mãe que qualquer hora vou abrir o portão pra esse pulguento ir roer a casa de outra pessoa. Sem condições ter que levantar a bunda pra mudar de canal toda hora, eu gosto de ficar frenético mudando de programa, no fim não assisto nenhum, que que tem?, neurótico uma porra. É toque, seu imundo, toque é doença, não sabia não? Transtorno psicose sequela, pode chamar do que quiser, veado, no meu sofá as leis são minhas e nem tenta vir cagar regra. Se não está satisfeito fica lá na sua casa assistindo barbie com sua irmã dançando com roupa de bailarina na frente da tv, você que sabe. Porque agora eu tenho o controle e você nem tem mais sua tática barata de dominar a televisão porque sabe que eu não me mexo mesmo pra mudar o canal, se você tinha disposição era problema seu. Quer lavar roupa suja agora?, tá atrapalhando o fluxo da minha história, vai conversar com seu terapeuta sobre suas frustrações seu problemático.
Então.
Foi daí que eu vi o post neon brilhando pra mim, deu até uma piscadinha. Já mudei minha posição prostrada de lesma catatônica pra postura de ataque. Até sentei, vai vendo, milagre mesmo, porque já tinha desistido da vida social. Pra mim, passou das onze, acabaram as esperanças.
Não dessa vez.
Fiquei encasquetado com o povo comentando empolgado da festa do ano, a festa que ninguém ia deixar de ir, o melhor DJ do momento e um monte de blá-blá-blá que você sabe bem. Estava lá: traje esporte chique, que merda é essa, eu não sou ignorante, dobra essa língua de chorume, é que é ridículo traje esporte chique, é só um jeito descolado de dizer: vai como quiser mas pelo amor de Deus toma um banho e passa perfume. Tô errado? Me enfiei dentro de um jeans, calcei um tênis sem furo a camiseta hering de sempre e dei duas borrifadas do odorizador de ambiente que estava dando sopa em cima da mesa da sala. Daquele jeito. Bonito até o ridículo, eu podia ter ido enrolado num lençol que eu entrava de todo jeito.
Quando eu cheguei na porta da festa era horário de pico. Tinha gente saindo pelo ladrão. A fila quilométrica típica de evento bombástico que segura a multidão na porta pra fazer tumulto e chamar atenção. E aquela fuleiragem toda de sempre: a sessão dos engomados com gel no cabelo, dos bolados de blusa pp marcando as tetas infladas, das patricinhas de Beverly Hills se equilibrando no salto mais-que-alto, das hippies de butique, estava todo mundo lá, com convite na mão. Exatamente isso: eu com aquela cara de bosta que você conhece bem, analisando as possibilidades de me infiltrar e caçando assunto com os manobristas. É meu jeito de disfarçar mesmo, vou mudar minha tática por quê, porque você acha ultrapassada?
Me poupa.
Funciona, funcionou e continuará funcionado por gerações. Os filhos dos meus filhos vão ser penetras também. Tá no sangue.
Tinha.
Tinha segurança pra todo lado. Era na casa da menina, está brincado? Tinha até atirador de elite no telhado, viatura disfarçada de carro de hot-dog, eu sou esperto, me liguei no movimento. Eu achei mesmo que a desgraçada da festa era impenetrável, não vou mentir, por um segundo até me achei velho ultrapassado fodido e mal pago. Arranca esse sorrisinho besta da fuça, vou dar um tapa na sua cara.
Espera.
Pode esperar até o fim? Ansioso demais, julgador demais, você é um corno.
Foi o manobrista que me deu a letra. Quando eu já tinha perdido as esperanças. Não dava pra entrar por cima que a muralha do palácio era blindada. Não dava pra entrar por trás porque não tinha por trás. Muito menos me infiltrar na equipe de garçons porque eu cheguei tarde demais e a equipe já devia até estar servindo queijo camembert e torradinhas integrais sem glúten pro DJ megaespetacular. Pela frente? Como pela frente? Eu sem convite, cinco trogloditas na porta e dois leões de chácara pra lá de mal encarados dispensando sem dó gente com dente sujo, com ramela no olho, gente sem perfume gente com bota ortopédica e com escoliose.
O manobrista deu a letra sim, te falei que o manobrista era o canal? Os convites valiam pra duas pessoas. Casal. Namorados. Marido e mulher. Amigo e amiga.
Olha a falha no sistema.
Muita pretensão da anfitriã achar que todo mundo já tem um par de sapato velho. Minha missão era essa: localizar uma desavisada qualquer com ar de desamparada e olhar sorumbático e dar o bote. Como assim? Você acha que São Paulo inteira está arranjada? Que todo mundo é feliz? Tem sempre um filho da puta que chega na última hora e percebe que não tem amigos. Que esta abandonado. Infeliz. Perdido. Vazio. Cheio de amor pra dar. Foi nessa brecha que eu entrei. Me custou exatos dez minutos. Bastou usar meu sexto sentido.
Traz pra mim também, com gelo e limão, e não traz a zero que não estou de dieta e essa história está me dando fome. Pode ser, de muçarela. A outra metade não lembro do que era, não lembro mesmo, parece com quê, calabresa com cebola?, presunto com ovo?, sei lá, foi ontem. Não. Antes de anteontem. Porra, eu sei que é dessa semana, serve? Adivinha o sabor, coloca na boca e morde, é pizza velha e pizza velha é um tesão, não reclama molambento.
Vou continuar.
A parte final é top.
Dá pra ouvir aí da cozinha ou quer que eu te conte pelo whatsapp?, que eu não quero que você perca o Grand Finale, se liga, mania de moderninho uma porra, não sou eu que entra no banho com o celular, que trepa e fica de olho no vibracall, que caga mandando mensagem romântica. Você é podre. P-o-d-r-e.
Tá vendo?
Perdi o fluxo o fio a batida.
Perdendo tempo aqui com você seu olhudo, tá com dor de cotovelo que ontem eu me dei bem e você passou a noite abduzido pela tela do celular. E nada de ninguém te ligar te mandar mensagem nem sinal de fumaça. Tô errado? O silêncio te condena.
Então.
Daí eu comecei a caça. Vou agilizar a história pra acabar com seu sofrimento.
Isso, dá um gole gordo e arrota. Eu pedi coca-cola com gelo e limão e você me trouxe essa sopa com gás. Tá louco hein, seu déficit de atenção agravou, esqueceu de tomar as bolinhas da noite?
Fitei de primeira. Fui certeiro na vítima. Eu tenho olho pra essas coisas. A fulaninha me abriu um sorriso de um lado a outro da fuça, chega que os olhinhos até brilharam só porque ofereci um gole de cerveja morna. Logo virou minha melhor amiga. Papo vai papo vem, já viu. Entrei na festa tirando onda.
Resumindo: a desamparada era prima em primeiro grau da tal da dona da festa. Sorte do caralho não, camarada, Deus estava olhando por mim quando saí de casa. Dancei musica eletrônica de camarote, usei o banheiro particular da família, comi os petiscos servido pelo mordomo da minha futura sogra, tirei selfie com a irmã mais nova da patricinha e ainda bebi whisky trinta anos abraçado com o pai da anfitriã, meu possível futuro sogro.
Beijei, na frente deles mesmo, fui aceito pela família, eu sou boa pinta demais.
Ô pizza quente da porra, queimei o beiço.
Castiga nada, Deus é meu comparsa. Devia ser penetra também. Entrou de bico da santa ceia.
Voltei pra casa com o motorista particular da tal da prima, num carro blindado e escutando Nat King Cole. Minha sogra me providenciou analgésico pra dor de cabeça e tomei os comprimidos com água mineral São Lourenço gelada que estava à minha disposição na minigeladeira do conversível. Até dormi com a cabeça apoiada no apoia-braços de couro confortável e com a outra mão segurando o putaqueopariu.
Não sei, meu filho, essas coisas só acontecem comigo, nasci com a bunda virada pra lua. Fazer o quê? Fui abençoado com esse dom.
Hoje tem, mas não vou.
Pode pegar o convite, pega e enfia no rabo.
Cê acha?
Eu gosto de penetrar. Com convite é muito fácil.
Tá, pega aí o controle.
Pode mudar, não estava vendo mesmo.
Pode deixar no desenho da barbie, não tô nem aí.
Quer que eu ponha roupa de ballet e dance pra você?

marina

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