Dama do Lodo

Dez da noite.
O povo foi dormir.
A área está limpa aqui em casa.
E pra variar, a farinha acabou.
É hora do show.

No silêncio absoluto, levanto da cama na ponta-do-pé. Tensionada. Engessada. Robótica. Calça jeans por cima do pijama, casaco com capuz caso tudo dê errado, elástico no cabelo pra não grudar na testa molhada e galocha de borracha pra evitar mergulhar o pé no lodo duvidoso espalhado em poças arquitetadas meticulosamente por Deus na Cohab, com o objetivo único de ensopar-pé-de-paranoico que sai de casa na correria calçando chinelo com meia. Dessa vez fui certeira.

Xixi saidêro sem direito a descarga pra eliminar a cevada do fim-de-tarde e uma chacoalhada de bunda estilo cadela-na-pracinha pra espanar as gotas de mijo sem papel já que a pressa é muita pra passar folhas duplas no traseiro ouriçado.
Alguém tinha me falado que a pressa é inimiga da perfeição. E é verdade.

Uma escovada simbólica na dentição danificada pra aliviar a língua emplastrada os lábios grudados e os dentes texturizados, um gole gordo de água-de-pia pra re-hidratar o organismo sequelado e desobstruir a garganta ressecada. Um gargarejo de desinfetante bucal foi a última esperança de melhorar o hálito corrosivo mas eu já tinha me dado conta que o sabor de derrota no céu da boca vinha diretamente do estômago. Sacudi o Plax contra as bochechas cheias de afta e me deparei com um leve gosto de álcool nas papilas mais-que-acostumadas da minha língua ácida. Não deviam vender essa porra com álcool. Gostei, tomei um gole gordo sabor menta e saí do quarto na ponta do pé. De luz apagada, claro, vai que alguém está olhando pela fresta da janela e repara na faísca de luz entre os vãos da persiana. Prestei atenção na fechadura da porta esperando algum movimento suspeito. Passei a tarde mirabolando o rolê da noite.

Eu lido com todas as hipóteses.
Sou uma mulher preparada.

No breu completo do meu quarto-cortiço, pisei na sapateira me enrolei no fio da televisão dei um tapa na garrafa de água, tropiquei na mesa de mosaico prendi a alça da bolsa na fechadura do banheiro enganchei meu pé no pé da cama e dei com a testa na porta do armário, o que resultou num som seco de joelho quicando no chão. Me recompus, engoli a risada, e o coração acelerado quase saindo pela boca que parecia que eu estava tendo um principio de ataque-cardíaco. Achei a saída do quarto e segurei na maçaneta com uma leve tremedeira nos dedos. Eu estava quase lá. A alguns passos da porta da garagem.

Na sala passei engatinhando pra evitar que o som da sola de borracha vagabunda da galocha contra o piso de pedra fizesse um grunhido esquisito e acordasse a cachorrada. Esquivando com muita desenvoltura das malditas câmeras de segurança que ninguém nunca usa, embora fosse muito provável alguém ir pesquisar as imagens no dia seguinte caso minha escapada cinematográfica desse em merda.
Girei o trinco da porta da sala sem-respirar sem-fraquejar sem-olhar-pra-trás. Avistei meu carro todo-lindo todo-atento todo-batido me esperando em posição de ataque. Precavida que sou, o alarme já estava desativado, as portas destrancadas e a chave no contato. O tanque de gasolina sempre na reserva, pra aumentar a emoção. Destravei o freio de mão e empurrei o carro rampa abaixo. Somente dei partida no calhambeque quando tive certeza absoluta da vitória. Toda-garbosa e com pose de mafiosa italiana, parti em direção ao pó.

Racionais no último volume, velocímetro estourando o ponteiro, janelas de insulfilme escancaradas, cigarro filtro-vermelho no canto da boca, braço pra fora do carro e aquele cheiro de liberdade-temporária invadindo meus pensamentos pra lá de levianos. Passei em todos os sinais vermelhos com a mão na buzina.
Desci farol alto na bunda do camburão da polícia.

Xinguei sem dó povo que se arrastava de corpo-mole pela faixa-de-pedestres como se eu não tivesse mais o que fazer, além de esperar aquelas lesmas-catatônicas-padronizadas desfilarem seus esqueletos sem personalidade e sem sustância na minha frente.

Cheguei na Cohab com a respiração-acelerada. Com os olhos brilhando-maldade. E uma gota de suor frio escorrendo do bigode em direção ao queixo. Estacionei a jabiraca no primeiro beco livre e a carroceria ficou em cima da calçada porque na-pressa na-correria no-escuro na-ansiedade, não deu pra ver absolutamente nada. De longe ouvi a batida do pancadão comendo solto na viela e meu sangue-azul-veneno-de-rato a essa altura já fervia junto com o bate-estaca que ecoava nos bueiros. O ambiente cheio de mau-elemento de traficante-adolescente com boné de lado, de bicicleta mandando recado pra cima e pra baixo. Maior delivery de tóxicos. Era horário de pico na boca, a macacada estava toda atenta e de antena ligada que hora ou outra baixava a Rota sondando o quarteirão, e é noia correndo pra todo lado porque os coxinhas cheios de autoridade descem da viatura com o cassetete na mão vestindo colete à prova de balas, no apetite homérico de dar tapa na cara de neguinho que já está pra-lá-de-fodido. É cena de filme.

O pivete-magricela cheio-de-tique que beirava pouco mais de uma dezena de anos com o pescoço abarrotado de colar de prata e dente de ouro veio me inspecionar e avisar todo-cabuloso que a quebrada estava normal. A essa altura a palma da minha mão estava ensopada e a nota de cinquenta reais quase se desfazendo. Pé pra fora do calhambeque e as botinas emborrachadas foram diretamente de encontro com a maior poça de lodo que eu tinha presenciando nas últimas semanas. Mesmo porque minhas lembranças não se estendiam mais que isso. Na poça, boiavam pacotes de salgadinho bitucas de cigarro cápsulas vazias e uma espuma alaranjada tão suspeita que não tive coragem de olhar pra baixo duas vezes. Desatolei a pata do lamaceiro e até minha canela estava contaminada. O moleque de dentes dourados viu a cena ridícula e saiu se contorcendo, escarrando nicotina, assoando o nariz de lado e pedalando a magrela endiabrada. Logo foi anunciando escandaloso e cheio de perversidade pro beco inteiro ouvir que a Dama do Lodo tinha chegado. No caso, eu.

Duas sacudidas elegantes na perna asquerosa e parti confiante em direção ao traficante do turno da noite. A alta rotatividade de viciados exigia dos aviõezinhos cada vez mais-malandragem mais-agilidade e mais-virilidade. Cara-a-cara com o molambento, tomei uma invertida das boas porque minha presença ali já não era tão festejada como antes. O desrespeitoso exigiu que eu me organizasse de uma vez por todas, e pegasse pela manhã uma cota suficiente para sustentar minha ansiedade-de-bosta o dia inteiro. Aquele vai-e-vem aquele entra-e-sai aquela-palhaçada estava deixando eles nervosos, não tinha cabimento um dama que nem eu dar rolê na Cohab tantas vezes por dia. Tomei a comida-de-rabo de cabeça baixa porque esse tipo de bronca eu tinha que engolir sem retorno, o desgraçado cheio de pereba no rosto estava na razão. Ali era área de conflito-certo caso eu quisesse debater cheia de argumentos humanistas minha liberdade de ir-e-vir sem ter que dar satisfação pra noiado nenhum.

Fiz um calculo rápido e cheguei à conclusão triste de que só poderia pegar dois pinos. Dez reais de gasolina dez reais dois maços de prego de caixão filtro vermelho e dez para duas latinhas de cerveja pra salvar o beiço colado depois da primeira paulada. Sobrou vintão. E era isso. Me passou desconfiado a droga que estava escondida dentro de um saco de cebolitos e me deu o troco com as sobrancelhas arqueadas estilo eu-sei-que-você-vai-voltar.

– Vaza Dama do Lodo.
Nem por Deus eu podia voltar.

Entrei eufórica no bat-móvel e nem deu tempo de colocar a chave no contato, eu já estendi uma carreira gorda em cima do livro de bolso do narcóticos-anônimos que eu carregava no porta-luvas do carro desde o fatídico dia em que eu passei a noite perambulando de um lado pro outro nas vielas daquela bocada e um morador ficou com dó de mim e me deu o livreto pra ver se eu tomava jeito na vida. Era sem dúvida nenhuma a melhor plataforma do carro. Empolgada fiz doze carreiras pra combinar com os doze passos.

Acelerei como se não houvesse amanhã. Cantando alto o refrão de mágico de Oz pra ver se Deus realmente ouvia minha voz. Peguei a breja o cigarro e dei uma baforada no tanque do carro, depois que o frentista evangélico completou de álcool, descrente do que presenciava. Colocou a mão no terço e rezou. Eu vi pelo retrovisor.

Cheguei à garagem de casa acelerando. Só faltou buzinar. Bati o pé na porta tropecei no cachorro derrubei cerveja no chão espalhei lodo no tapete e entrei no quarto crente que eu estava abafando.

Ouvi os passos no hall de entrada, era algum sonâmbulo fazendo a ronda da noite. Fiquei engessada debaixo do edredon. No escuro. Esperando que ninguém fizesse a safadeza de bater na minha porta.

Uma e meia da manhã.
A área estava limpa.
De novo.
O povo tinha ido dormir.
E a farinha, pra variar acabou.
É hora do show.

marina

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