“Interestelar” e os espectadores que esqueceram de apreciar filmes

Jessica Chastain i Interstellar

“Acho que essa coisa de fidelidade cientifica não tem nada a ver. É ficção!” Em conversa com uma amiga, essa frase resumiu o que muitos ainda não compreenderam. Uns crucificam Nolan, outros banalizam as sequências do filme. Foram incomodar cientistas do mundo todo para apontarem falhas. Epa! Calma, galera! Não será um roteiro, diretor ou uma cena que concretizará uma teoria… Ou a salvação da humanidade.

Para começo de conversa, a intenção não é comparar Nolan com Kubrick, 2001 – Uma odisseia no espaço e Interestelar. Longe disso. Cada um na sua época, cada um com o seu olhar sobre o desconhecido espaço em que nos cobre. As teorias se aprimoraram de 1968 pra cá, e nós, meros espectadores, somos apenas um ponto na galáxia cinematográfica. E lógico que não compete a mim, também um mero estudante de Letras, traçar algo científico sobre o filme. – Deixa lá em paz o buraco de minhoca.

Nolan e seu irmão, Jonathan, nos apresentam uma ficção-científica moderna, em que se mexe não apenas o impalpável, mas as relações humanas diante de uma catástrofe. A estagnação e o descontentamento de não sobrepor às leis da natureza. A desolação do Homem em não ser mais o centro do mundo, ou o que ele achava ser desde que, comparando a cena de 2001 – uma odisseia no espaço, o macaco jogou o osso para o alto.

Esse enfraquecimento da capacidade humana em não encontrar solução para frear essa catástrofe é o centro da primeira fase do filme. Encontramos um ex-piloto da NASA – mais uma vez com forte interpretação de Matthew McConaughey – agora sendo fazendeiro de uma das últimas plantações de milho no mundo. A excitação de Cooper de ir na caçada de um futurístico drone indiano aponta o desejo guardado dele em voltar a ser um explorador, desafiar e mostrar o seu valor naquilo que treinou a vida toda. Não apenas o cotidiano que lhe foi obrigado a exercer.

Quando a última chance lhe é oferecida: explorar o desconhecido espaço à procura de um novo lar para a humanidade, Cooper não hesita em abandonar tudo e todos da Terra e ser o capitão do leme a navegar o mar obscuro da galáxia. As grandes navegações do século XIV passou pela mente. O amor é também energia para Cooper aceitar a tarefa. Quando o personagem de Michael Caine diz que os atuais filhos serão os últimos da raça humana, Cooper demonstra dever em salvar o macro (a humanidade) e o micro (a permanência de seus filhos salvos de qualquer calamidade natural).

Acredito que essa demonstração venha quando, genialmente, a direção de Nolan fecha a primeira fase para sermos deslocados ao espaço da fase seguinte. O adeus da família e em off a contagem regressiva é marcante, somos puxados pela decolagem para o espaço, que tanto assusta e ao mesmo tempo instiga o humano.

AS RELAÇÕES HUMANAS – Numa galáxia muito distante, as relações humanas não são deixadas na Terra. No filme encontramos a ambição e o individualismo, que sempre fez com que a “sobrevivência” de um seja o fracasso do outro. A surpresa do personagem de Matt Damon aborda o desajustado plano de repovoamento – plano este fornecido pelo personagem de Michael Caine. Não há possibilidade de repovoar a humanidade deixando quilômetros luz o caráter que a constitui. E esse fato coloca tudo a perder nas relações  humanas.

A Presença Forte das Personagens Femininas

ATENÇÃO TEXTO ABAIXO CONTÉM SPOILERS

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Destaque importante do filme são as personagens femininas. Anne Hathaway e Jessica Chastain são peças fundamentais da obra. A primeira sendo o fator de ser a única mulher a bordo da nave na jornada ao desconhecido. Em uma minuciosa crítica à presença marcante do machismo em nossa História, a personagem de Anne, na cena final, é marco de uma nova Era Humana, fundamental na persona feminina. Já a personagem de Chastain, seguindo a mesma linha da de Anne, é relevante para fornecer a saída para a humanidade. Esses dois elementos foram bem elaborados no roteiro, sendo a forte determinação feminina que desencadeará a solução dos problemas, na Terra, e da nova alternativa de vida, em um planeta que seja habitável.

É também em Murph (Chastain) a curiosidade ainda guardada no instinto humano, banalizada em um futuro desencantado, em que todas as alternativas não foram satisfatórias para sanar os efeitos catastróficos da Terra. Murph faz consolidar a perseverança e a personagem de Anne a esperança, com forte sentimento de amor, em fincar um novo lar para a humanidade.

Não pretendia me estender neste texto. Talvez você tenha gastado tempo e olhos para ler e se sentir frustrado por não encontrar respostas sobre o filme. Aliás, já que o filme estreou recentemente, diversos debates serão expostos, dialogadas e debatidas – para o bem e para o mal. O deslumbre do filme – por favor, assista no cinema – é marcante para a nossa atual geração cinematográfica.

Entre tantos debates sobre a fronteira do real ou imaginária do cinema, prefiro as palavras de um querido amigo que me acompanhou na sessão: “Não importa o que foi mostrado ou deixado para trás, o que interessa é que estamos há uma hora discutindo sobre o filme”. Enquanto o cinema proporcionar esse tipo de assunto após a sessão, ficaremos bem na Terra.

Jorge Filholini

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