Literatura e marginalidades: espaços de interrogação

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LITERATURA E MARGINALIDADES: ESPAÇOS DE INTERROGAÇÃO[1]

Por Jorge Vicente Valentim (UFSCar/CAPES/UP)[2]

Este texto é para Carolina Hardcandy, que, certa vez, no Porto, me chamou para participar das margens, onde encontrei um porto seguro para pensar.

Descobri, mais tarde, particularmente em trabalhos para que se exigiam disciplina e estrutura, que não podia vergar-me a regras que me fossem impostas de fora. Eu é que as tinha de criar.
[NATÁLIA CORREIA. Entrevista, 1969.]

Num evento destinado a refletir sobre as relações entre Negritude, africanidades, literaturas e marginalidade, nada mais justo do que iniciar as minhas reflexões em torno do tema que gere e direciona as discussões: a literatura marginal. E a primeira interrogação, sobretudo para os menos acostumados a lidar com este objeto de estudo, reside exatamente sobre a matéria epistemológica em questão: o que é (ou o que seria) “literatura marginal”?

Tomando de empréstimo as afirmações de Arnaldo Saraiva (1975, 1980), um dos pioneiros a trabalhar especificamente com este assunto, a literatura marginal (ou, no seu plural, literaturas marginais) é uma expressão que comporta duas definições possíveis. A primeira, de sentido topográfico, indica uma produção literária fora das fronteiras centrais de uma produção acadêmica consagrada, ou seja, à margem de um eixo centralizador. E a segunda, de sentido social, moral, jurídico, ético e até psicológico, referencia-se a todo um conjunto de obras e autores situados à margem de leis, normas e regras. Ainda, segundo o mesmo pesquisador português, além destas designações, seria possível pensar numa “literatura marginalizada”, ou seja, num conjunto de textos “em que há menos estruturação, menos elaboração estética, menos conceptualização, ou menos ambição cultural do que, por exemplo, na «literatura de vanguarda» ou na «antiliteratura»; e pode visar-se preferentemente não só um tipo de texto mas também o modo da sua produção, da sua distribuição ou circulação, e do seu consumo” (SARAIVA, 1980, p. 6).

Por esta proposta conceitual, percebe-se logo que se trata de um termo amplo e abrangente, e que indica outros tipos de textos, localizados fora dos eixos centralizadores que a academia impõe, tais como as histórias de quadrinho, os hinos nacionais, os provérbios populares, a literatura de cordel e as sentenças metafóricas da produção midiática. Ou seja, a expressão comporta uma gama dilatada de aplicação. Mas, não menos a sua antecessora – a literatura marginal. Basta lembrar, por exemplo, que, na década de 1960, no auge dos anos do movimento da contra-cultura (ou seja, da invasão hippie, da irreverência dos artistas da cultura popular, da ironia e do deboche à seriedade imposta pelo regime militar dos artistas do Tropicalismo), a expressão aparece vinculada à toda uma geração que ousou desafiar os códigos controladores da época, produzindo uma literatura à margem de uma instituição, a que hoje conhecemos como “cânone”.

Ou seja, a literatura marginal poderia ser entendida como toda uma produção feita e cindida num espaço off-cânone, com a abordagem de temas que ferem o chamado “bom gosto e comportamento exemplar”, e com autores que se valem de uma visão endógena ao assunto tratado. Deste modo, toda uma gama de textos com ênfase nas questões raciais, sociais e sexistas que não seguisse determinadas regras estaria fadada à margem e ao silenciamento. Se tomarmos a definição pontual (e não menos questionável) de Harold Bloom (2011), o cânone compõe-se de autores e obras que representam e expressam um determinado sistema literário nacional e abriga os seus aspectos caracterizadores mais visíveis e esteticamente bem elaborados, sancionados por uma tríade que se se faz presente nestes contextos. Em outros termos, não será escusado afirmar que o cânone é branco, burguês e heterossexista-patriarcal, confirmando a máxima que, afinal, “todos os cânones são elitistas” (BLOOM, 2011, p. 46).

Daí, compreende-se (mas não se justifica) o motivo de certos títulos não comparecerem neste elenco consagrado. Obras que tematizam os desejos e os anseios de um universo feminino, por exemplo, dentre as quais os livros de Florbela Espanca figuram, foram durante muito execrados dos meios acadêmicos, porque não ofereciam um modelo aceitável de conduta. Ou, ainda, obras que procuravam expor o clima underground dos homossexuais, bem como as incertezas e as angústias advindas da experiência do HIV, como os de um Jean Genet e de um Caio Fernando Abreu (no Brasil), nunca gozaram de uma atenção especial, salvo alguns estudos e teses que começaram a surgir a partir dos anos de 1990 e 2000. Além destes, outros casos como os de relatos de ex-presidiários, prostitutas e garotas de programa, de negros e outros agentes advindos das regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos sempre foram considerados uma espécie de “sub-literatura”, porque não possuíam um perfil estético satisfatório, sancionado pelo cânone.

A grande questão parece-me residir em outro campo: será o cânone o único capaz de dizer o que é uma literatura aceitável? O cânone sozinho conseguiria dar conta dos anseios e de toda uma gama de subjetividade de um determinado grupo nacional e social? É claro que não estou aqui propondo uma destruição do cânone, mas também não consigo pensar num radicalismo total ao dar-lhe todas as bênçãos para a indicação daquilo que é ou não é literatura. E, para isto, tomo o exemplo de um autor consagrado pelo cânone.

Manuel Maria du Bocage, conhecido poeta do século XVIII português, considerado um dos grandes sonetistas e líricos da língua portuguesa, escritor de um romantismo avant guarde que,  já no final do século XVIII, prenunciava as chamas da paixão como a única força capaz de fazer o homem viver e morrer. Sempre estudado como grande poeta da lírica amorosa, a crítica parece esquecer e apagar completamente toda a sua irreverência aos códigos do Antigo Regime presente na sua produção erótica e satírica. Interessante observar como, nos principais volumes dedicados ao século XVIII, só se presencia um Bocage terrível, apaixonado e arrebatado por uma avassaladora vontade de viver até às últimas consequências a experiência amorosa. E, não há como não se perguntar: onde está o Bocage satírico, irônico, debochado, irreverente e desrespeitoso, diante de códigos que ele rejeitava?

É pau, e rei dos paus, não marmeleiro.
Bem que duas gamboas lhe lombrigo;
Dá leite, sem ser arvore de figo,
Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;
Occo, qual sabugueiro tem o umbigo:
Brando ás vezes, qual vime, está comsigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

Á roda da raiz produz carqueja:
Todo o resto do tronco é calvo e nú;
Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!

Para carvalho ser falta-lhe um u;
Adivinhem agora que pau seja,
E quem adivinhar metta-o no cu (BOCAGE, 1999, p. 145).

Os mais ortodoxos poderão conjecturar: mas isto não é literatura! Não? Não se trata de um autêntico soneto clássico, com versos decassílabos, devidamente arranjados num conjunto de rimas interpoladas (ABBA, ABBA, CDC, DCD)? Não estão ali conjugadas comparações e metáforas vegetais ligadas ao objeto descrito, o caralho? Não está ali uma autêntica demonstração de eruditismo acadêmico, na sua refinada explicação de que o “v” minúsculo de carvalho, na concepção clássica da língua latina, designava a vogal “u”? Como, então, dizer que este soneto não se enquadra na autêntica tradição portuguesa, vinda desde Sá de Miranda e Camões, e, portanto, não poderia ser encarada como uma literatura séria?

É sim. Talvez, o que incomode mais é a maneira irreverente e debochada com que Bocage tratava de temas, considerados na sua época, um tabu intocável. Para os mais curiosos, basta ir a Michel Foucault (1988) e à sua História da Sexualidade, para perceber que, numa época onde o controle dos corpos constituía uma obsessão da Igreja e do Estado, falar de vagina, pênis, secreções e outras demandas corporais significava cair na aura dos proscritos e dos malditos.

Aqui, chegamos a outro ponto crucial da questão. Fala-se muito hoje de “literatura marginal”, por causa, sobretudo, de margens sociais, sexuais e rácicas construídas pela sociedade burguesa, branca e heterossexista, mas é preciso lembrar que, nos antípodas desta manifestação, encontramos a chamada literatura maldita, produzida por sujeitos inconformados com uma certa padronização exemplar. Na definição do escritor Luiz Pacheco, o escritor maldito se singulariza pelo seu gesto consciente e racional de deliberada repulsa a certos ditames sobre si impostos e arbitrados por um comportamento considerado inaceitável por ferir a sua “exigência de grau superior, estética e ética” (PACHECO, 2003, p. 136). A chamada “literatura maldita” não se trata, portanto, de um conjunto de manifestações de teimosia ou implicância gratuitas, mas de uma expressão autêntica de inadaptação a contextos impertinentes e impróprios para o gesto criador. Neste caso, o preço pago acaba se tornando alto demais, no sentido de provocar um afastamento gradual e um exílio progressivo.

Como, então, equacionar posicionamentos tão diferentes e díspares entre si? De um lado, um cânone elitista que privilegia sistematicamente certos títulos e autores, e de outro, a liberdade marginal e maldita, que consagra a autonomia de pensamento e criação até às últimas consequências. Pode parecer utopia demais, e confesso que não me importo que me lancem a pecha deixada por John Lennon, até porque eu responderia como ele (“You may say, I’m dreamer / But I’m not the only one”; BURLINGAME, 2011, p. 162). Mas, na verdade, acredito que a comparação entre os contemplados pelas instituições canônicas e pelos manuais acadêmicos com os que ainda destes permanecem fora pode firmar-se como um ato salutar, não apenas porque recupera e faz emergir títulos remanescentes de uma margem, mas porque também confirma a riqueza, a multiplicidade, a diferença e, em alguns casos, a qualidade estética de nomes e obras que, apesar da insistência da crítica em manter distantes dos seus quadros estes personagens e seus objetos artísticos, em nada deixam a dever a certas figuras que (e friso, certas, e não todas), por graça e obra de só-Deus-sabe-qual-entidade-metafísica, tomam parte deste pacto nem sempre muito produtivo. Um outro cânone? Um cânone alternativo? Um cânone marginal? Um cânone maldito? Talvez todas estas nomenclaturas, ou nenhuma delas, quem sabe, poderão um dia prover uma bênção provisória aos esconjurados desta elite.

E, como exemplo, trago dois exemplos do nosso convidado desta noite, o escritor Sacolinha. O primeiro deles, o poema “Maria ou A versão feminina do tempo que emana”:

E agora Maria?
Que acordou cedo,
Já fez o café,
Ouviu no rádio
Transporte não tem.
No trabalho atrasada,
Mandam voltar.
E agora Maria?
Cadê o metrô?
De greve entrou,
Carro não tem,
Nem dinheiro também,
Pra pagar o táxi Maria.
E agora?
Se você voltasse,
À cama ninasse,
Mas você não volta Maria,
Você é dura.
Mulher de labuta,
Não deixa por menos,
faz e acontece,
Mas sem transporte?
E caso não vá,
Amanhã há outra,
Em seu lugar.
E sua atitude,
Onde é que ela está?
Onde Maria?
Não chega o marido,
Madrugada se finda,
Dormem os filhos,
E o trabalho Maria?
Por causa da greve
Tudo acabou?
Você é forte mulher,
Dá-se um jeito
Corre atrás,
Mas puta que pariu…
Correr pra onde?[3]

Neste belíssimo poema, Sacolinha desfaz a imagem de que o escritor marginal, ou seja, aquele que escreve a partir de uma visão e de um espaço fora do centro, se esquece completamente da tradição e daqueles que escreveram antes dele. É nítido o diálogo intertextual que o seu poema estabelece com o conhecido poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade. Agora, neste texto com uma visão que parte de uma perspectiva periférica e marginal, a dimensão social da mulher trabalhadora, moradora de uma região afastada do centro urbano, que sobre com a falta de transporte, que não tem dinheiro para pagar taxi a fim de chegar ao trabalho, que se vê reduzida a condição de objeto e de peça dispensável numa grande maquinaria, que é o próprio mercado de trabalho, entra em cena e ocupa o espaço que, antes, era delegado a um José, agente que vivenciava um transe existencial, em virtude do contexto político-social repressor.

Não menos esta Maria experimenta um cenário cerceador e humilhante. Daí a sua reação, a sua força e a sua resistência em driblar todas as intempéries que se lhe apresentam: “Você é forte mulher / Dá-se um jeito, / Corre atrás”. Mas, no lugar de oferecer respostas fáceis e imediatas, o poeta esbarra na interrogação salutar: como uma única pessoa seria capaz de vencer um Golias intransponível? “Mas puta que pariu… / Correr para onde?”

Aqui, muitos poderiam imaginar uma atitude pessimista ou vitimista, beirando o sensacionalismo. No entanto, gosto de pensar que não há instrumento melhor do escritor incomodar os seus leitores a não ser instigando a interrogação, motivando a reflexão e oferecendo uma forma de se pensar a condição universal do homem. Será possível viver sempre assim, ou, a partir de insistentes perguntas, não será apropriado começar a pensar em respostas? Por isso, iniciei minhas reflexões com Natália Correia, escritora portuguesa dos anos de 1970 e 1980, que não aceitava regras a não ser aquelas que ela própria criava. Parece-me que estamos diante de um escritor que também nutre um pouco este sentimento, afinal, é ele próprio que nos ensina, num texto comovente e pontual, “Por que escrevo”.

____Os desenhos animados pra mim eram um grande desanimador, deixavam-me ruminando fatos e coisas com relação a heróis negros. Tinha um personagem que ficava forte de uma hora pra outra, crescia que até chegava a rasgar as roupas do corpo. Mas ele era verde.
Passava nessa época um seriado muito conhecido chamado “Os Trapalhões” onde os únicos negros que tinham era o Mussúm que só queria saber de samba e de beber cachaça, e o Tião Macalé, um ator que só aparecia quando o programa ia para o intervalo e dizia; “Ih, nojento, tchan” – e sorria sem os dentes da frente. Ele era banguela.
____E pra completar a falta ou a má imagem do negro na sociedade, muitas vezes assistia novelas e filmes com meus tios e minha avó. O negro dificilmente aparecia, e quando isso acontecia era sempre em último plano.
____Então, não escrevo apenas como uma válvula de escape, mas também como vingança. Quero criar meus próprios personagens e da minha forma de ver o mundo, como ele existe ou pode existir. Para preencher o vazio deixado por outros.
____É por isso que escrevo.[4]

Podem chamar de “literatura marginal”, ou de “literatura maldita”. Prefiro, antes, pensar não em nomenclaturas, mas em categoria: Literatura, acima de tudo, mas que não esquece as suas origens, não renega o seu passado e nem se aliena numa sociedade alternativa. Antes, faz dela a sua matéria de criação e diz quem é, sem vergonha, sem pudores ou meias palavras. Talvez, o caso de Sacolinha seja um caso exemplar em que literatura e sociedade andam sempre de mãos dadas e, assim, podem executar passos de uma dança bem sucedida. De um samba, por exemplo, por mais que não agrade os meios mais ortodoxos e tradicionais. Mas, afinal, existe coisa melhor do que incomodar pela interrogação e pela rasura? Acho que não, mas isso é apenas uma opinião pessoal.

jorge_valentim

Referências bibliográficas:

BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Trad.: Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

BOCAGE, Manuel Maria du. Poesias eróticas, burlescas e satíricas. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999.

BURLINGAME, Jeff. John Lennon “Imagine”. An unauthorized biography. Melrose Park: Lake Book, 2011.

CORREIA, Natália. Entrevistas a Natália Correia. Lisboa: A. M. Pereira, 2004.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1: a vontade de saber. Trad.: Maria Thereza da Costa Albuquerque e J.A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

PACHECO, Luiz. “O que é um escritor maldito?”. In: Raio de luar. Lisboa: Oficina do Livro, 2003.

SARAIVA, Arnaldo. Literatura marginalizada. Porto: [s.n.], 1975.

__________. Literatura marginal izada: novos ensaios. Porto: [s.n.], 1980.

[1] Texto produzido para a mesa-redonda “Africanidades, Negritude e Literatura Marginal”, realizada no evento “Mês da consciência negra – Brasil e Angola: diálogos e possibilidades”, em 11/11/2014, pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB/UFSCar), com a presença do escritor Sacolinha.

[2] Parte das reflexões contidas neste texto foi motivada pelos resultados da Pesquisa de Pós-Doutorado Sênior, com Bolsa CAPES, realizada na Universidade do Porto (Portugal), em 2013.

[3] Disponível em http://www.letras.ufmg.br/literafro/data1/autores/17/textosselecionados.pdf. Acesso em 10/11/2014.

[4] Disponível em http://www.letras.ufmg.br/literafro/data1/autores/17/textosselecionados.pdf. Acesso em 10/11/2014.

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