“Uma didática da invenção”, despedida ao poeta Manoel de Barros

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Nesta semana, a literatura brasileira perdeu um dos maiores poetas, Manoel de Barros faleceu aos 97 anos, na manhã da quinta-feira (13), deixando um legado primoroso. Aclamado na área literária, Manoel de Barros é reconhecido pela sua invenção da linguangem, dando forma à subjetividade. O poeta “despalavrou” os sentidos e siginificados. Deu sonoridade em palavras escondidas nos dicionários, trouxe para a poesia “a palavra incapaz de ocupar o lugar de uma imagem”.

Mato-grossense, Manoel de Barros escreveu 18 livros, vencendo dois Jabuti. Mas longe de premiações, o poeta levava a vida na tranquilidade de sua fazenda em Campo Grande (MS). Seus livros O Guardador de Águas e O Fazedor do Amanhecer se tornaram clássicos da literatura brasileira. “Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia”, esse verso de O Livro Sobre Nada demonstra a dedicação à poesia que o mestre Manoel de Barros demonstrou durante sua vida toda, assim como contribuindo para a cultura e vida dos leitores.

Um dos últimos grandes poetas, O Livre Opinião – Ideias em Debate presta uma homenagem a Manoel de Barros convidando os autores Maria Rezende, Mia Couto, Ivana Arruda Leite, Marcelino Freire, Celso Borges, Demétrios Galvão e Andrea Del Fuego, para se despedirem e contarem a importância do poeta na literatura brasileira.

10801998_10203869980364835_759498311252824497_nMaria Rezende

Poeta, publicou os livros Substantivo FemininoBendita Palavra e o recente Carne do Umbigo.

“Conheci o Manoel logo depois de conhecer a poesia dele. Não deu tempo de mitificar e mal deu tempo de entender a dimensão do privilégio. Eu tinha vinte anos, aprendia a dizer poemas em um curso com a poeta Elisa Lucinda, e ela escolheu Manoel de Barros para um dos recitais que faríamos. Comprei o “Gramática expositiva do chão” e um mundo se abriu diante dos meus olhos e dentro do meu peito. Os poemas de formação, mais tradicionais, os poemas inovadores, a natureza, a sofisticação da simplicidade, o olhar afiado para a condição humana.

Meses depois jantávamos com Manoel e sua mulher Estela no apartamento da Elisa no Leblon. No dia seguinte, subi ao palco, de vestido azul e cabelos longos, pra recitar “Pedido quase uma prece”. Manoel, na primeira fila, fechou os olhos, cabeça baixa. “Entediei o poeta”, pensei. No fim da noite ele me disse, mão na minha: “Você me emocionou, baixei a cabeça porque chorei um pouquinho”.

Ao longo dos anos nos encontramos nos lançamentos dele no Rio, bebi a poesia de suas palavras e mergulhei na doçura do seu sorriso de menino. Quando lancei meu primeiro livro, aos 24 anos, mandei pra ele. Recebi de volta uma cartinha manuscrita, recheada da delicadeza e generosidade que marcaram a vida do Manoel.

Maria Maria querida poeta Maria!
Desde o título Substantivo feminino já fiquei seduzido.
Muito obrigado pelo presente.
Acho que você tem ferramentas para continuar.
É poesia substantiva mesmo.
A mulher inteira dentro das palavras.
Poesia é fenômeno de linguagem do que de idéias.
Isso você sabe.
Assim você é poeta.
Carinhoso abraço do
Manoel de Barros

Acabo de lançar meu terceiro livro, mas não deu tempo de mandar esse pro Manoel. A poesia brasileira é outra depois dele. A minha, sem ele, talvez nem existisse”.

DSC_0183Mia Couto

Escritor, publicou os livros Terra Sonâmbula (Cia das Letras), A Varanda do Frangipani (Cia das Letras), O Outro Pé da Sereia (Cia das Letras), entre outros.

“Não era apenas um poeta, um recriador de um idioma que, depois dele, se tornou mais nosso. Manoel de Barros era um filósofo que pensava o mundo por via da poesia. Havia uma outra lógica que corremos o risco de perder se não forem vozes como as dele a recuperar. Essa lógica é a da oralidade, da infência e da irreverência. Manoel impôs o valor das pequenas coisas e dos inutensílios num tempo em que tudo se mede pela utilidade e pela rentabilidade. Mais que um poeta, ele foi poesia. E, por isso, não foi”. (Depoimento autorizado pelo próprio escritor para publicar no site do Livre Opinião).

1016478_712231105525303_7186171010500614051_nIvana Arruda Leite

Escritora, publicou os livros Histórias da mulher do fim do século (Editora Hacker); Falo de Mulher (Ateliê Editorial); Cachorros (Selo Demônio Negro), entre outros.

“Sempre me aproximei com muito cuidado de Manoel de Barros. A pureza de seus versos cristalinos era quase um impedimento para o gozo. Quando se chega a um poeta como ele já adulta, como cheguei, há que se lavar inteira para entrar no poema”.

MarcelinoMarcelino Freire

Escritor e agitador cultural, publicou os livros Angu de Sangue, Contos Negreiros (Prêmio Jabuti) e Nossos Ossos (Prêmio Machado de Assis). Criador e curador do evento cultural Balada Literária.

“Eu estou um bicho triste. Desde ontem [quinta-feira 13]. E sempre ficarei. Por causa do desaparecimento do Manoel. Meu mestre e querido amigo antigo. Meu amor e devoção para ele e gratidão, eternamente. Manoel de Barros teve a importância de inaugurar um olhar para as coisas ínfimas. E aquela sua voz peculiar, ancestral, “carvenal”. Pôs voz nas ostras, deu um céu para as formigas. Escritor único”.

1959987_10152295721329630_1324483092_nCelso Borges

Poeta e agitador cultural, publicou os livros O futuro tem o coração antigo (Editora Pitomba) e Rimbaudemonio: traições, colagens e iluminações (Editora Pitomba)

“Esplêndido. Manoel de Barros inventou uma forma muito particular de ver o mundo. Deu importância ao que quase ninguém dá importância, valorizou os inutensílios, o pó que cai da madeira, o bichinho com asa esquisita que caminha pelo chão, a remela que escorrega pertinho do olho. Desenhou uma paisagem e deu voz e cor a ela, observando o silêncio e o cotidiano das coisas “menores”. Deu uma banana para o mundo urbano. Foi lá e viu que sua alma nunca caberia ali. Voltou para os seus bichos e humanos mais humanos. Demasiado humano. Em Manoel de Barros não há mentira nem verdade, mas humanidade. Tentaram diluir sua poesia em agendas pantanescas, mas não conseguiram. A cada novo livro a surpresa de um mundo reinventado tantas vezes. A arte sobrevivendo. Tive oportunidade de abraçá-lo uma vez, em São Paulo, começo dos anos 90. Ainda carrego comigo na alma seu sorriso tímido, esplêndido”.

383362_257207707669554_507615742_nDemétrios Galvão

Poeta, editor e professor, publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011) e Bifurcações (2014). É um dos editores da revista Acrobata.

“O querido Manoel é figura de um mundo desconhecido, ainda não colonizado pela barbárie cartesiana. Sua poesia fez e faz todos levitarem, criar asas e inventar caminhos para fora da cidade e se aconchegar na casa de um caracol, no olho de uma garça, nos retos de um besouro, nas águas de sua imaginação-pantanal. Seu ateliê é laboratório de ciência arcaica, usa instrumentos mágicos para esticar o mundo, desenvolve porções fantasiosas de coisas inúteis que sorvemos como alimento indispensável, pra encher o peito e seguir a cada apagar e acender de luz solar. O Manoel, feito de barro, nos deixou uma feliz herança, um baú cheio de maravilhas, um álbum de fotografias do infinito. Salve Manoel de Barros! salve sua vida eterna no reino da poesia!”

DSC_0113Andrea Del Fuego

Escritora, publicou os livros Os Malaquias (vencedor do prêmio José Saramago, Nego fogo (2009), Engano seu (2007), Nego tudo (2005), Minto enquanto posso (2004) e As Miniaturas (2013).

“Manoel de Barros é aquele poeta que faz você voltar para casa, para o colchão velho com a forma do seu corpo, para a comida da mãe, para a chuva. Ele fez aquela poesia com elementos essenciais, com terra. É um oráculo que prevê o passado, todo mundo se vê como foi. Não consigo falar dele com objetividade, já fico afetada”.

 

Poemas selecionados

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O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Vídeos sobre Manoel de Barros

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Poema “Difícil fotografar o silêncio”, por Antonio Abujamra

Documentário Só Dez Por Cento é Mentira

Programa: Língua de Brincar, com Manoel de Barros

Entrevista: Jorge Filholini e Vinicius de Andrade

2 comentários sobre ““Uma didática da invenção”, despedida ao poeta Manoel de Barros

  1. Pingback: “- Você é louco? / – Não, sou poeta”: 20 de Outubro, dia do Poeta | Livre Opinião - Ideias em Debate

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