CAVIAR COM COCAÍNA: “A Empata-Foda”

Hora do almoço. (embora ela não tivesse almoçado ainda).

Saiu de casa correndo. De novo. Trocou a roupa salpicada de papinha, arrumou a mochila do moleque: brinquedos fraldas hipoglós macacão meia mamadeira biscoitos e cobertor.

– vai saber se chove!

Arrancou a calcinha e o sutiã azedo de leite numa rebolada só e vestiu o biquíni corroído pelo cloro.

– sem elástico nenhum, sexy pra caramba. Era o que ela achava. Se olhou no espelho de perfil, de costas, de lado, de cócoras, olhou as rugas da testa bem de perto,

– puta merda, eu odeio sol!

e se achou mais gostosa do que dez anos atras.

– caramba, a maternidade me fez bem, vou ter mais dois…

Pensou num impulso e já despensou na seqüência:

– sai fora!! Nem sei como a mulherada que tem o segundo filho, será que esquece do perrengue todo?

Arrumou a mochila de natação sem pensar, como sempre fazia: toalha água hidratante pé de pato calcinha limpa absorvente,

– só falta eu ficar menstruada no treino!

sabonete, sutiã zero-bala e protetor de seios.

– porque quando vaza leite molha até as calças.

Sentou o moleque no cadeirão, enfiou a papinha de legumes na goela dele, cantou galinha pintadinha três vezes. Sabia de cor. Já tinha um zumbido permanente da tal da Galinha dentro da cabeça.

– Será que estou esquizofrênica?

E pensava isso quase sempre na hora do banho, enquanto escutava um choro que não existia. Esvaziou um danoninho em duas colheradas na boca com dois dentes do glutão. Enfiou o guri de cadeirão e tudo no carro, ligou o ar condicionado.

– que calor escroto Senhor!, o mundo tá derretendo.

Parecia mesmo que o mundo estava derretendo. Jogou as mochilas e a paciência no porta-malas. Deu partida no carro concentrada, o horário comendo solto, não dá pra chegar atrasada sempre. Tempo recorde: desovou o guri cadeirão mochila cobertor e um pouco da ansiedade na casa da Dinda.

– como é bom andar de carro sozinha, pensar sozinha, falar sozinha.

Falava sozinha o tempo todo. Já tinha esquecido como era bom. Tinha esquecido disso e de muitas outras coisas. Esqueceu também que um dia, um dia que não havia filho ainda, ela ia e voltava sem dar satisfações. Achou que ia dar tempo. Achou mesmo.

– Hoje vai, porra!

Ligou Jazz e sorriu. Achou mesmo que ia dar tempo, coitada. No clube não achava vaga, como sempre.

– esse horário da saída da escolinha dá vontade de morrer, ô clube escroto!

Reclamava, mas vivia no clube. Não tinha um que não a conhecesse.

– preciso de uma vaga na escolinha, putaqueopariu, preciso de uma vaga na escolinha, dizem que demora pra conseguir vaga, bosta, preciso de uma vaga na escolinha.

Era sua prece diária, desde que teve filho. No meio da prece deu ré num conversível transparente que apareceu do nada e quase acachapou a bunda do seu carro zero no filha da Puta, que meteu a mão na buzina sem dó.

-graças a deus esse bosta buzinou, de onde surgiu esse desgraçado, será que o seguro já foi pago?, ai merda.

Desceu trotando alucinada do carro, amaldiçoou o coitado do motorista da picape blindada que não saía da frente.

– sai da frente Corno, eu tenho horário!

Achou que falou baixo mas ele ouviu, pela cara de espanto ele ouviu..

– Corno!

E saiu correndo. Como sempre. Passou pela catraca desembestada. Atravessou o clube afobada. Chegou no vestiário suando. Fez xixi sem-respirar.

-Acho que vai dar tempo, não acredito que vai dar tempo, será que vai dar tempo?

Tirou a roupa de uma vez só.

-Puta merda, esqueci a Tôca de natação, meeeeeerdaaa.

Achava uma maldição esquecer a Tôca, aquele cabelo no olho, odiava. Trocou duas palavras com uma amiga do jeito que dava.

-E aí, tudo bem?,tudo, Seu bebê tá bem?, tá, Fiquei sabendo do livro, parabéns, escreve pra caralho!, mentirosa, nunca leu porra nenhuma.. Não teve certeza se falou ou só pensou essa ultima frase. Virou de costas pra encerrar assunto, não quis ver a reação.

Jogou a mochila no balcão de guardar-mochilas esbaforida. Pé de pato na mão, toalha se arrastando no chão.

-não tem ninguém pra guardar essa merda?, desgrama, essa Tia que some na hora de guardar a mochila, caramba, Cadê a Tia, alguém sabe da Tia? Tocou a campainha de chamar-Tia. A Tia-da-mochila chega atarantada, tem criança pra todo lado tem babá pra todo canto tem mochila espalhada, mãe pelada gritando com filho, é o caos esse banheiro.

-Bosta de clube! E esse pensamento saiu alto.

Ela olha no relógio da parede, embaçado, faltam dois minutos.

-pôxa tia!, guarda aê, tô atrasada, tô subindo tá?, brigada hein, Tia desgraçada, Falou baixo, -será que foi baixo?, -Bosta!, dessa vez baixo, tinha certeza.

Estava a alguns passos da piscina. Sentiu o bafo de cloro grudar nos pêlos do braço. Ouviu o apito do treinador adestrando a molecada. Foi na escada mesmo que ela ficou emperrada. Que o sonho acabou. Que ela percebeu: não ia dar tempo. A fulana, que não fedia nem cheirava, empatou ela no sexto degrau, quase na catraca, quase-lá.

-no sexto degrau, acredita?, que mulher féladaputa. Esse foi interno.

Não se conheciam. Só de vista. Quase todo mundo se conhecia de vista. Quase todo mundo achava que se conhecia. Mas ninguém se conhecia de verdade, isso deixava ela incomodada.

A empata-Foda: -Você não era aquela gravida, aquela que treinou até o ultimo dia de gestação, que todo mundo comentou, que não tá nem aí pra o que todo mundo comentou, que continuou treinando até a barriga explodir?, parecia que ia nascer na água, tinha até aposta feita!

Perguntou bem assim, -Sou.(sua tosca do inferno)

Resposta curta e grossa. Na verdade, quase não parou pra responder. Não queria parar. Mas a maluca insistiu, colocou o corpo na frente pra tapar a passagem, ela teve que puxar o freio.

– caramba, seu corpo voltou pro lugar mesmo, pôxa, tá definida, que genética abençoada hein..

Ficou com aquela cara de vai-se-fudê que poucas pessoas entendem, sabe qual? Cara de paisagem, sem expressão, sem nada, de pouco-caso. Então. Não satisfeita com a não-resposta, a maldita continuou.

-(maldita, maldita, maldita,) Estava ficando enfezada, queria meter a mão na cara de sonsa daquela bisbilhoteira. -(alcoviteira, empata-foda, jumenta, inconveniente) E mais um monte de coisa que passou pela cabeça-podre dela.

-então, mas conta pra gente qual o truque, (deu uma piscadinha nojenta, sabe?! De amiga confidente?, de otária?), qual o nome do milagre que você está tomando, dá pra manipular? Certeza que dá.

Contou até três. Achou que ia conseguir ser delicada, achou que ia dar uma resposta educada, fina, feminina. Não conseguiu. No quarto segundo foi um impulso só até a Empata-Foda sair de lá com a feição perplexa. Quem mandou insistir?

– tomo sim, todo dia, – O que hein? Essas coisas não vendem em qualquer lugar, vendem?

– suco de porra. Cheio de hormônio. E tem sim, em qualquer lugar. Dá pra tomar até deitada. É só chacoalhar.(toma essa sua estúpida!)

A tonta: – ….

Subiu as escadas. Pulou na piscina, mergulhou o fundo, encostou a bunda no azulejo, ficou uns segundos fingindo de morta, gritou:

– Puta que eu pariu, porque eu não fiquei quieta?

500 metros crawl sem pé de pato contando tempo. Ainda tinha que girar na raia com mais dois elementos. Isso que dava chegar atrasada.

O treino, obvio, já tinha começado.

marina

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