CAVIAR COM COCAÍNA – “Bicuda: a saga”

Tudo começou numa quinta qualquer. Me lembro bem que nessa mesma quinta-feira da qual falo, eu ainda era uma pessoa apresentável, comunicativa, sociável. E porque não dizer, Cheirosa.

Mas não foi bem assim que a historia acabou. Não foi mesmo.

Quinta-feira, fim do expediente, meus colegas se reúnem para o happy-hour de sempre. Todo mundo cansado-estressado-eufórico, em busca de uma birita saidêra que amenizasse o peso da-semana das-cobranças da-rotina, que deletasse temporariamente a lembrança permanente das faturas altas de contas que ainda nem tinham sido pagas, mas que inevitavelmente seriam debitadas. Pelo menos as dos meus colegas, seriam. Já as minhas, eu vou ter que explicar.

Tudo começou nessa podre e fatídica quinta, lá pelas oito horas da noite e as seis da manhã foi quando eu fiquei bruxa.

Obviamente, meus companheiros que eram pessoas saudáveis e possuíam o mínimo de filtro e bom-senso, numa certa altura da competição já tinham comido um misto-quente com cafezinho descafeinado (vê se pode), e foram pra casa tomar um banho fumegante, trocar a cueca encardida, escovar a dentição emplastrada seguido de um reconfortante copo de leite quente com nescau, para dormir bem e acordar inteiro para o dia seguinte. É o que as pessoas com botão-moderado fazem: elas vão pra casa. Nem preciso dizer: não é o meu caso.

Eu vi todo mundo ir embora e pra variar, sobraram eu e os chopes numa mesa longa lisa e vazia. Continuei tomando meus drinks toda-maligna até o momento que me lembrei de que mil daqueles copos suados ainda não seriam suficientes para apaziguar o holocausto da minha insaciável mente leviana e meu dom imensurável de fazer-cagadas. Eu precisava calçar a pantufa de jaca, não bastava só enfiar os pés nelas. Neste ponto percebi que os garçons estavam de saco-cheio, as portas já estavam fechada e o faxineiro, coitado, já estava esguichando o chão do bar que parecia uma pocilga. Ta aí um trabalho chato. Pedi a conta. Mesmo porque, eu não via outra saída. Infelizmente a maioria das pessoas dormiam. Paguei meus chopes e mais um monte de porção de calabresa-acebolada batatas-fritas com cheddar e carne-de-sol que eu não sei de onde surgiu, porque claro, não fui eu que comi. Meus colegas sadios e bem-sucedidos que pagam as faturas em dia tinham, pra variar, me dado o golpe da conta. Isso acontece sempre com o trouxa que martela a bunda na cadeira e não vai embora nem a pauladas. E essa pessoa era sempre eu.

Agora fica fácil entender como chegou o fim do mês e eu não tinha dinheiro pra pagar as faturas. E eles tinham. É só calcular: são quatro quintas-feiras no mês que eu prego a carcaça na cadeira, pago a conta de todo mundo, e no fim do mês não sobra moeda pro milho da pipoca do filme pós-ressaca ou pro papel higiênico da caganeira inevitável.

Não tive a manha de discutir com o simpático e tolerante garçom que estava me aturando bêbada com toda educação que lhe restava faziam algumas horas. Meti meu cartão na maquina e coloquei a senha que por milagre de deus, eu ainda não tinha esquecido. Ainda deixei um trocado de gorjeta. Naquele momento era melhor ter paz do que ter razão.

O problema é que a saga jamais termina no primeiro bar.

Segui bêbada e radiante em busca de qualquer bar fuleiro em que ainda residissem alguns zumbis walking-deads sonâmbulos e afins. Fiz amizade com dois-perdidos, falei sobre minha vida minha infância minha unha encravada e meus problemas gastrointestinais, brindamos á saúde que já tinha nos abandonado a anos atrás, nos abraçamos como se nossa amizade, feita a dez minutos, fosse a coisa mais significativa e o acontecimento mais preciso de nossas vidas. Essa coisa de beber deixa a gente emotivo demais. Toda-rica, fiz questão de pagar a conta sozinha, de novo, mas agora por um motivo: em comemoração á mais nova amizade que deus, aquele vagabundo cósmico, tinha tido a bondade de me presentear. Titubeei dois segundos na hora de colocar a senha, mas ainda haviam dois neurônios andarilhos se comunicando dentro da minha cabeça intoxicada. E lá se iam a conta de água de luz e de gás. Eu ia lembrar desses dois-perdidos por um bom tempo. Realmente seria uma amizade marcante.

Saí do boteco pronta pra comemorar. Dessa vez, com a barra da calça molhada e o tênis ensopado porque nem me dei conta que enquanto eu me despedia dos melhores amigos, o moço do esguicho ignorou nossa presença ilustre e mandou-bala no serviço dele sem nos pedir licença. Era mais uma dessas pessoas que dormem. Já eram cinco e caralhada da manhã e o que me restou foi o letreiro acolhedor de uma padaria 24hs piscando consumista pra mim. O chapeiro, que já tinha sacado um pão francês banhado na margarina, ficou desolado quando pedi uma long-neck estupidamente gelada. Só arredei os pés úmidos dali quando um sujeito mediano, de paletó cabelo engomado e um cheiro nauseante de banho Johnsons sentou todo-centrado do meu lado, eu, que a essa altura fedia fim de festa com cinzeiro do Love History e tinha um hálito acido que podia derreter os pelinhos do nariz de algum desavisado, e pediu num tom de voz azul-bebê uma média com adoçante (que filho da Puta sadio!) e o maldito pão com manteiga que o chapeiro cretino obviamente, tinha deixado de standby na certeza absoluta que não ia ter nenhum retardado depois de mim pedindo cerveja pra começar o dia com chave de ouro. A não ser que eu tivesse vindo com a carreata do arregaço. Mais não foi o caso.

Vamos seguir do ponto em que fiquei Bruxa. E não existe melhor definição que essa.

Era seis da manhã e me lembrei do trabalho. Da minha cadeira rotatória enferrujada e do meu computador cheio de vírus. Das minhas obrigações de cidadão produtivo e imprestável. Da minha fatia podre numa sociedade de merda que produz potenciais perdedores-suicidas camuflados de homens de negócios, que passam grande parte da vida soterrados na frente de uma tela muda da Apple.

Respirei o mais profundo que a elasticidade comprometida dos meus pulmões cheios de fuligem permitiram, e fui atrás da solução. Na esquina da rua, se encontrava minha solução. Com os bolsos abarrotados de papelotes, um metro e meio de altura, camiseta do corinthians escapulário de lata e óculos espelhado, lá estava ele: meu dealer-delivery. Esperando disfarçado de flanelinha nego fudido que nem eu, que passava a noite virado com o copo na mão, e precisava trabalhar no dia seguinte. Ou pelo menos, chegar até o trabalho.

Comprei um arsenal suficiente pra três quintas-feiras, nunca se sabe, e parti pro metrô. A mesma calça impregnada de fumaça, o mesmo tênis ensopado de água de esguicho, a mesma camisa com uma pizza horrível debaixo do braço e o sorriso, que antes era desembestado, agora estava congelado. O cheiro de ontem que eu nem preciso explicar. No caminho passei numa farmácia e comprei um desodorante com um odor botânico que, combinado com a química que meu corpo estava expurgando, virou um cheiro que eu poderia denominar de “Maldição”. Alguma coisa no meu corpo tinha azedado. Borrifei até no tênis, sabe como é. Ainda tive a pachorra de usar o banheiro da farmácia: fiz um xixi de dez minutos que respingou em toda bunda tamanha era a forca do jato, chupei a pasta de dente do farmacêutico que estava dando sopa em cima da pia, lavei o rosto as ramelas o pescoço grudento, puxei o cabelo pra trás e fiz um coque fino usando o sebo do cabelo de gel e finalizei a empreitada esticando a maior carreira da ultimas quinta-feiras em cima do acento da privada que tinha uma etiqueta enorme: ECONOMIZE. Achei muita ironia. Me olhei no espelho uma. Duas. Três vezes. Não havia maneira de me convencer de que eu estava bem. Depois de uma certa idade, a pele desbotada delata uma noite mal-dormida. Não é igual na adolescência, que eu podia virar duas noites seguidas e minha cútis continuava reluzente. Agora não. Parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim e dado ré três vezes.

Saí do banheiro mais bicuda do que bruxa: olhar vidrado, sorriso sem curva, passos de soldado, tronco engessado e cheiro de enxofre. Na minha cabeça, estava tudo ótimo. Eu poderia trabalhar por dois dias seguidos enquanto meus bolsos estivesses cheios e meus dedos articulando.

Cheguei ao escritório mega-bicuda, completamente silenciosa. Convicta da minha sanidade. Naquela correria de sexta-feira ninguém nem notou minha meia-muda-presença. Era muita pretensão minha achar que alguém se importava comigo. As pessoas tinham mais o que fazer do que se preocupar com a minha vida. Se é que aquilo era vida.

Tentei entender aquele povo de cara-limpa, que estava numa sexta-feira produtiva e eu ainda estava na quinta. Meus pensamentos eram de quinta Meu cheiro era de quinta Minha cabeça estava tomada por quinta. Trabalhei que nem uma maquina eficiente sem botão de stop. Sabe lá deus o que podia acontecer se eu parasse pra suspirar. Fui no banheiro umas 35 vezes pra manter o ritmo boliviano, suei frio mais do que gostaria, meus dedos das mãos tremiam por causa do efeito duplicado da farinha trangênica feita com massa de pão de queijo e vidro moído que quase trava meu mecanismo. Estava meio difícil datilografar, confesso. Fiquei mais fedida, se é que era possível, e no fim do dia eu devia estar numa coloração verde-musgo parecendo um maracujá velho.

Acabou o expediente e eu estava mais louca que o Batman. De novo, todo mundo foi pro happy-hour pra festejar o fim da semana e eu junto, pra comemorar a continuação da quinta. Depois da balbúrdia, todos foram pra casa pra ter um sábado merecido de preguiça na cama, e eu continuei. Paguei meus chopes as fritas a mortadela e um caldo de feijão maldito que me deu ânsia só de ler. Peregrinei por um par de botecos, mas dessa vez não fiz amizades porque minha boca travada me impediu de articular a mandíbula para qualquer tipo de dialogo. Essa coisa de ficar bicuda por muito tempo deixa a gente anti-social. Foi um tété-a-tété entre o copo e eu. Depois parti robótica pra padaria 24hs, eu meus dois quilos a menos, o chapeiro já me olhou com cara de desconfiado por causa do dia anterior que pra mim ainda era o mesmo dia, pedi uma coxinha com catupiry pra forrar o estômago oco e rebati o frango desfiado de procedência duvidosa com um copo de conhaque pra deixar o queixo caído do sujeito, que já tinha aberto uma cerva estupidamente gelada pra mim. O que me fez lembrar automaticamente do meu amigo flanelinha, que estava no pontual na mesma esquina, com a mesma cara de filho da Puta e um salário mínimo feito em dois dias só nas minhas costas. Deixei com ele a compra do mês e a conta do celular, que sem sombra de duvidas seria desativado pela maldita operadora. Esta ai uma das coisas mais desagradáveis que torrar minha grana em merda deixava de herança: ligações a cobrar. Comprei o necessário pra derrubar um elefante, e lembrei a tempo que não era mais quinta que não era nem sexta que não tinha a porra do trabalho pra ir.

Eu já estava no sábado e minha noção de tempo completamente distorcida. Isso acontecia sempre de quinta a domingo: o tempo ficava bastante relativo. Eu dosava os dias da semana pelo numero de papelotes aspirados. Ou pela falência do nariz. Dava no mesmo.

Então fui pra casa colocar a vida em ordem. Era esse meu objetivo. Dizem que quando a gente organiza a casa a vida entra no eixo. E eu estava precisando me localizar no tempo. Mas não sem antes comprar um engradado de cerveja. Pago em dinheiro, porque a senha desapareceu dos meus dados de memória.

Arrumei a cozinha arreei as panelas encerei os tacos aspirei a sala o quarto o teto e todo resto de solução que vinha empacotada em peso, dentro do meu bolso envenenado. Dobrei os lençóis organizei os cds e lavei duas maquinas de roupa química que, nem ficando de molho no sapólio se libertariam do cheiro de antes de anteontem.

Já era fim de tarde quando desempoeirei a casa toda e eu me dei conta de que não passava mais ar pelas minhas ventas obstruídas: nada entrava e nada saía. Gastei o ultimo rolo de papel higiênico assoando a podridão que tinha impregnado meu cérebro na esperança de cheirar o ultimo sobrevivente, mas é claro que o bule não ia desentupir nem se eu chamasse a Higitec. Dava pra fazer uma festa com o que tinha saído de mim. Então resolvi enfim tomar um banho pra acalmar o espirito, mas infelizmente o mal estar que eu sentia vinha das víceras e não teve maneira de me sentir melhor. Tomei o segundo banho pra aliviar a paranóia que chegava monstra, junto com o fim do pó: um barulho de sirene amaldiçoado que ficava que nem um zumbido me assombrando e me fez ir até a janela do quarto mais de quinze vezes pra ter certeza que não tinha policia na portaria do prédio. Olha que bosta. Daí veio a inevitável caganeira predominantemente liquida que deixou minha bunda branca mais vermelha que batom de puta. Nem me preocupei que o papel higiênico tinha acabado e que eu não tinha dinheiro nem condições de sair de casa porque a desinteria, era caso de ducha. Papel não ia ajudar. Me olhei no espelho 35 vezes, passei hidratante base massa corrida mas não teve jeito de ficar apresentável. Botei um modess noturno pra evitar surpresas na madrugada e deitei a cabeça inchada na cama com a esperança de dormir, mas fritei que nem um kibe de um lado pro outro porque a quantidade de toxico ingerida não ia me deixar em paz tão fácil.

Domingo amanhaceu cinza pra mim. O sol despontando na janela, meu olho esbugalhado, os passarinhos malditos cantando desde não sei que horas e foi por pouco que eu não saquei uma arma de chumbinho e fiz uma chacina nos desgraçados sonâmbulos.

Passei o dia no maior revestrés. Do banheiro pra cama, da cama pra cozinha, e nessa brincadeira comi todo o arsenal de comida do mês na esperança de recuperar meus quatro quilos perdidos na saga. Assisti canal aberto o dia inteiro porque a net já tinha sido cortada. Assoei o nariz no lençol porque não tinha papel. Sei lá que horas minha cabeça inchada parou de me assombrar e capotei um sono profundo. Acordei no dia seguinte zoada, com o toque estridente do despertador. Ia ser uma epopéia ir pro trabalho naquele estado. Então lembrei que tinha sobrado o ultimo estoque de farinha genérica que não tinha passado nem a paulada pelas minhas vias nasais, e antes mesmo de fazer xixi meti a porcaria naripa a dentro sem dó. Animei na hora. Retomei o fôlego, vesti roupas limpas, passei perfume, mas antes de chegar a trabalho fui atras de uma solução rápida pra quando o cansaço inevitável se abatesse sobre mim.

Na esquina da rua, se encontrava minha solução: Com os bolsos abarrotados de papelotes, um metro e meio de altura, camiseta do corinthians escapulário de lata e óculos espelhado, lá estava ele: meu dealer-delivery de plantão.

marina

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