“Quando o samba acabou (remix)”, de Paulo do Canto

O vencedor do I Concurso de Contos Livre Opinião – Ideias em Debate foi Paulo do Canto, com o texto “Quando o Samba Acabou (remix)”. O anúncio foi feito durante a 9ª edição da Balada Literária, em São Paulo. Na segunda fase, os dez contos selecionados passaram por uma comissão julgadora com três importantes contistas brasileiros: Cíntia Moscovich, Marcelino Freire e Sidney Rocha, que chegaram ao veredito do melhor conto. O texto de Paulo do Canto será publicado na quarta-feira (26), no site. Como parte da premiação, Paulo também ganhará doze livros autografados por doze escritores brasileiros contemporâneos.

Nós da equipe do Livre Opinião agradecemos imensamente todos que enviaram seus contos e fizeram do primeiro concurso algo simbólico para o portal e todos que acompanham os nossos serviços dedicados à cultura. Confira a seguir o conto vencedor:

Paulo do Canto, vencedor do Concurso de Contos Livre Opinião - Ideias em Debate

Paulo do Canto, vencedor do Concurso de Contos Livre Opinião – Ideias em Debate

Quando o samba acabou (remix)

Lá no morro da Mangueira. A noite a meio, o samba firme, cavaco pandeiro violão tamborim e o coro repetindo o refrão. As paredes enfeitadas e a cozinha cheirando, cada mesa uma duas três garrafas, homens e mulheres entrelaçando pernas e quadris.

Do lado de fora o malandro, sozinho. Já não escuta violão nem tamborim: vai descendo a ladeira e lá embaixo, em frente à ribanceira, só a marcação do surdo chega, quase tátil de tão grave. Ele puxa um cigarro, risca o fósforo, vai fumar na encruzilhada.

Pensa em Dodô. Quem diria: o amigo de tanto tempo, sempre quieto, calado. Esta noite estava confiante, falador. O malandro lembra do sorriso no rosto dele quando o refrão acabou, e a batucada pulsou no vazio esperando o verso dele, a resposta que nunca veio. Sorriso de triunfo, de quem não tem dó.

É assim, sempre, em toda façanha: um perde o outro ganha. E o malandro agora sabe como se sente quem perdeu. Como se tivesse um espinho cravado na garganta, um punhal no coração.

E quem fincou foi a Rosinha. Ah, mulata linda, cheia de não-sei-quê. Cabrocha de alta linha. Aquele olhar dela dias atrás, jogado para os dois, para malandro e Dodô, aquilo foi um crime – olhar a sorrir, pra dois malandros, daquele jeito, é convidar a morte pra sentar na mesa. Ela olhou e foi-se embora; deixou os dois pra trás, enfeitiçados – no mesmo lugar, horas e horas a conversar e discutir.

E antes daquele olhar, nunca uma briga sequer. Só quando moleque: mas aí não é discussão, é brincadeira, é besteira. Dodô era amigo como só se encontra um na vida. O malandro recorda: a cozinha da casa de seu Oscar, pai de Dodô; o malandro no cavaco, Dodô de caneta e papel na mão. Cantarolava e o malandro botava logo um verso em cima, dom de versador, bom na rima.

Outro cigarro. Lá em cima, no morro, uma luz somente acesa. É a luz do barracão. Todo mundo lá, ninguém em casa. Todo mundo, o morro inteiro, pra ver a derrota do malandro. Dançando, dando risada. E comentando: hoje teve duelo, dois versadores, disputando a namorada. Aquele ali, aquele é o Dodô, foi ele que ganhou. O outro? Ah, não sei não, está por aí.

Desde quando Dodô é bom de verso? O malandro sabia, quando sentaram os dois pra improvisar, que Dodô não tinha chance. Um bom sambista, compositor, mas que não conhecia as manhas, inexperiente. Então veio a primeira quadra. Dodô na lata. A segunda a terceira, e Dodô nem respirava. De onde veio aquilo? Foi milagre, só pode ser, uma coisa dessa é obra da cruz, a gente logo vê. Da cruz, ou da boca da serpente. Traição – Dodô quieto calado, escondendo o jogo a vida toda.

Estirado na ribanceira o malandro olha o céu. Uma madrugada linda, de morrer. A beleza tem isso: quando aumenta muito parece que no peito não sobra espaço pra mais nada. Tão bonito que todo o resto perde a graça. Tudo que é bonito é assim, a música – exatamente assim. No fim da batucada, quando o sol já raiou, não tem mais música, o que sobra é só tristeza. Como se acabasse a vida, como se pudesse acabar, ali, naquela hora: toda a alegria se esconde assim que o samba termina.

E pro malandro não tem mais samba. Com que cara vai chegar, com que respeito? Vão bater nas suas costas, sorrir de lado. Ele não vai abaixar a cabeça, não quer, não vai ser o derrotado. Dodô e Rosinha, de mãos dadas, ela de pernas de fora, rebolando,  pra mostrar pro malandro o que ele não pode mais ter.

Não vai ser assim, ah não vai. Dodô sacaneou, era um mentiroso, não sabia versejar e não podia ter ganhado. Todo mundo sabe. E agora a obrigação do malandro é puxar a faca, reverter no braço a derrota, apagar aquela noite no aço do punhal. Dodô é amigo, mas amigo também vacila: aquela vez, faz tempo, a Graça – Dodô ajeitado com a morena, mas quieto, escondido, pra ninguém saber. O malandro, então, foi pra cima dela uma noite. Dodô não falou nada. Dias depois se encontraram, e por uma bobagem qualquer, uma conta de bar, um jogo de futebol, Dodô logo ficou furioso. Nâo chegou a ter briga, é verdade: o malandro não seria capaz, nunca, de brigar com Dodô.

Essa é a verdade. Impossível brigar com Dodô, machucar Dodô. De olhos molhados, envergonhado, o malandro enxerga o borrão da lua: é um rosto redondo que assiste tudo. O único rosto que vê o malandro, ali, na ribanceira, chorando feito criança.

Perdeu muito. Uma mulher amada, mesmo que de amor futuro; o amigo mais próximo, mais doce, de muitos anos de passado. E o nome, o orgulho, conquistados na primeira batucada, mantidos na segunda e em todas as outras. Era aquele que nunca parava de versejar. Agora não tem mais verso, nem Dodô nem Rosinha, nem nome nem fama.

Não vai ser assim. Impossível machucar Dodô, esquecer Rosinha, apagar a derrota e a vergonha. Mas não, impossível não. O que vai ser quem diz é ele, a vida é dele, isso ninguém pode lhe tirar.  Não precisa meditar mais, pra quê procurar a ponta de um nó cego desses? Nó que só cortado se desfaz. Só cortado, só cortar.

Um corte firme, e pronto. No aço do punhal a derrota some, o morro, o samba, Dodô e Rosinha. No corte, no punhal, no aço: agora.

É quase de manhã, e o escuro do céu vai rebentando de azul. Lá embaixo a cidade aparece. No morro já não se ouve mais surdo, não se ouve mais nada: o samba que escorria ladeira abaixo acabou. Chegou até a encruzilhada e acumulou-se na terra, encharcando a terra, viscoso e morno como sangue derramado – e quando o sol raiou foi encontrado, numa poça rasa e quase seca, escuro como a noite sem lua, quieto e pacífico como uma noite sem pagode.

Por Paulo do Canto

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