Direitos LGBT. “T” quem?

Ao me assumir publicamente como transgênero no começo deste ano, ao lado de muitos parabéns recebi algumas críticas que logravam atacar a minha “nova” identidade. E para minha surpresa, além dos ataques da minha família tradicional & conservadora –  afinal, muito mais que esperado –, houve ataques também de pessoas do próprio meio LGBT, por não me considerarem travesti nem transexual (como se elas é que fossem os juízes da minha própria identidade).

Ora, quem me conhece há algum tempo deveria supor que quando me assumi como transgênero não estava me identificando como transexual (na acepção comum do termo) e nem travesti – o que os juízes da identidade alheia intuíram com certo louvor, embora por motivos equivocados e objetivos duvidosos –; e como também sabem que não me encaixo definitivamente na categoria de homem nem especificamente na de mulher, haveriam de concluir, portanto, que eu estivesse me identificando com uma identidade de gênero não-binária ou um outro gênero queer qualquer. “Haveriam de concluir”… Porém, cheios de dúvidas, em vez de tratarem comigo ou se informarem, optaram por maldizer pelas costas.

Eis o fato: ser transgênero não significa ser ou transexual ou travesti. A diversidade de identidades trans* vai muito além disso. A fins didáticos, transgêneros podem ser divididos – em relação à identidade e não à expressão/performance de gênero – em dois grupos: os binários, isto é, as identidades enquadradas no sistema binário de gênero (como @s transexuais e as travestis) e os não-binários, as identidades que não se enquadram no masculino ou feminino. Dentro deste último grupo encontramos outra variedade de identidades, tais como as pessoas agêneros, bigêneros, pangêneros, de gênero fluído, terceiro-gênero, etc..

A opressão de gênero que sofri me fez observar com mais atenção o movimento LGBT, a ponto de ver que ela se justificava dado o próprio discurso do movimento, que parece “esquecer” as identidades não-binárias da categoria de transgêneros. Tornou-se claro o quão problemática é a militância LGBT quando percebi a raridade de discursos que abarcavam, de fato, a diversidade de transgêneros, não os reduzindo às mulheres e homens transexuais e travestis. As paradas LGBT, por exemplo, deixam clara essa posição ao intitularem-se “parada do Orgulho de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LBGT)”. A letra T, que teoricamente representa os transgêneros em geral, agora representa apenas duas categorias deles.

Até poderiam objetar a favor do movimento: “ora, Butler mostrou que sexo e gênero são equivalentes, que esse papo de que gênero está para cultura assim como sexo está para natureza é pura balela, tanto sexo quanto gênero são construtos culturais; logo transgêneros são do mesmo modo transexuais. Esse é o sentido em que o movimento LGBT substituiu o T de transgêneros por transexuais. A luta é por todos”. De fato, a equivalência entre transgêneros e transexuais tendo como pano de fundo o pensamento de Butler é totalmente legítima, porém não condiz com a realidade do movimento na medida em que este cinde as identidades travestis d@s transexuais. Ou seja, se o movimento utilizasse Butler como fundamento não haveria necessidade alguma de separar travesti de transexual, já que travesti também seria transexual dado que também é transgênero – assim como as identidades não-binárias.

Outro ponto que comprova o afastamento das identidades não-binárias da luta pelos “direitos trans”: os direitos conquistados são direitos às identidades transexuais e travestis; a alteração do nome nos documentos, a utilização do nome social, o direito à terapia de reposição hormonal e cirurgias pelo SUS… Por que esses direitos estão reservados apenas às identidades que reproduzem o “cistema” binário? Ora, as pessoas trans* não-binárias também podem ter a necessidade de alterar seus nomes, como também ter a necessidade de (re)construir seus corpos em vista da imagem que fazem de si mesmas, de acordo com suas identidades e o modo como querem expressar/performatizar essas identidades.

Outra coisa: é assustador ouvir de líderes LGBT que “transexual é uma pessoa que nasceu num corpo de homem mas tem alma feminina” ou que “nasceu num corpo de mulher mas tem a alma masculina”. A naturalização/biologização da binaridade de gênero é a base do ideal cis-normativo que, inclusive, é o regime de poder/discurso que fundamenta a anormalidade das pessoas trans* (e, na faceta hétero-normativa, das homossexuais) – tanto que para conseguir os tratamentos pelo SUS é necessário um laudo psicológico atestando um transtorno relacionado a sexo/gênero. Dizer que fulano nasceu mulher ou ciclano nasceu homem é apoiar-se na ideia de que as pessoas possuem naturalmente um sexo/gênero e que este se configura de acordo com suas genitálias, e quem não se encaixa nisso é doente/anormal. É o pensamento [cis-normativo] do senso comum: “nasceu com pênis é homem, nasceu com vagina é mulher”. Nada mais eficaz para se assegurar a estrutura binária do sexo/gênero do que colocar a dualidade do sexo/gênero num domínio pré-discursivo (naturalizado/biológico/jurídico). Ninguém nasce homem e ninguém nasce mulher. Utilizar o ideário cis-normativo para explicar as identidades trans* é tentar defender-se de ser anormal declarando-se anormal. “Tenho alma feminina num corpo masculino”, “tenho a alma masculina num corpo feminino”: binariza-se o corpo e binariza-se a alma.

Sabemos que muito pouco das pessoas trans* possuem condições de fazer uma análise complexa do gênero enquanto sistema de imposição. A maioria não tem acesso às informações e por isso espelham seus discursos nos dos líderes do movimento. Logo, se os líderes reproduzem um discurso infértil e obsoleto… É uma necessidade que esses líderes estejam a par do progresso das discussões sobre sexo/gênero, caso o movimento LGBT ainda quiser continuar com essa luta nas mãos. Além disso, a exclusão das identidades trans* não-binárias do movimento não me parece um bom método para se trilhar o caminho de luta pela diversidade. Há que mudar o discurso e a pauta da militância. Se quiser, de fato, representar a luta pela diversidade, vai ter que, antes de mais nada, tomar consciência dessa diversidade.

Por Giovanna Braz

 

6 comentários sobre “Direitos LGBT. “T” quem?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s