MA (R) TE

20141121_004109

Por Aline Bei

Estou na minha mesa, computador ligado, word em branco e assim será pelo resto da tarde, máquina fotográfica, farelo no chão, uns talheres em cima do prato com cheiro de
janta,
rastro de vinho
no copo
eu
Sinceramente, não me
Suporto
mais.
Espero, inclusive bastante tranquila,
o dia em que escrever seja tão fácil
quanto
Ouvir um disco
Na vitrola, uma vitrola sem mesa, sem suporte, longe da tomada, em que você tenha que montar uma poção de coisas pra que ela funcione,
é prazeroso ouvir o disco e compensa esses pequenos conflitos,
como a falta de espaço em um apartamento no centro
De São Paulo.
Não me aborreço mas me preocupo, tem muito artista no mundo pra
Pouca arte, quantas pessoas são minhas vizinhas e quantas delas tem qualquer ambição artística? Acho que quase a metade, e
Quantas
Apesar do talento, estudo e o esforço absurdo que a arte demanda, quantas são
os verdadeiros poetas, pintores, atores,
quantas realmente mudarão a vida de alguém? E se não mudarem, a culpa seria delas?
Ou foi o editor
Que enxergou neblinado ou
é culpa do Brasil que não vai ao teatro, que
Não lê, prefere a cerveja mas vida não é eliminatória. Busco um herói da geração 2000,
que dance valsa e use óculos
escuros, gostaria que esse herói fosse
eu, mas
isso
Não existe, os líderes estão mortos ou nunca souberam caber nas gavetas das coisas nossas.
Melhor que nos sejamos Suficientes,
Geralmente eu me basto, menos quando não me suporto como tem acontecido nos últimos dias.
Eu queria escrever um livro
roxo, estou reunindo minha obra e desprezo todos os
Poemas que falam sobre eles mesmos, me lembra muito o ser
humano,
Que
doença, quanta saudade, quanta gente que eu não vejo há anos, marco almoços que não vou, tenho pressa. Eu disse pruma amiga:

o mundo só fica menor quando encontramos alguém pra amar.

Eu a amo, no caso. E amo também A mim. E amo também a Ana Cristina Cesar, que era moça bonita e gostosa por isso
Se matou. A Hilda também, com whisky e aos poucos. A Clarice
Quase morreu de cigarro. Eu
Morrerei de tédio
E de falta de assunto no hall do elevador. Morar em prédio é a maior tragédia urbana que nos pode acontecer, mil famílias empilhadas, comendo, fodendo, brigando uma em cima da outra e depois se cumprimentam
Parcialmente
no elevador. Vejo da janela as crianças no playground. Lembro da minha infância, do meu casaco de veludo que eu usava até pra ir ao mercado, minha mãe dizia:
-pelo amor de deus, menina.

eu lembro de tudo, escrevo
e luto
pra me encontrar de novo em mim. Consigo de pouco e da janela noto um mini-fio
de sol. Ele resiste,
em meio a uma possível tempestade
que acontecerá em poucos segundos,
segundo aquela nuvem
gorda
Da direita.

Aline Bei

A busca ou o processo.
(nunca o pronto)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s