A genialidade de Bolaños

2843959262_ccf06a31ed_oQuer queira, quer não, uma chuva de discussões sobre os seriados Chaves e Chapolin surgiram, assim que foi anunciada a morte de seu criador, Roberto Bolaños. Muitas delas, exaltando o tempo em que ficávamos em casa, assistindo Chaves e Chapolin depois das aulas, aquele tempo em que muitos brasileiros se lembram, afinal, são mais de 24 anos na Tv brasileira.

Hoje, porém, pude ler alguns textos que fazem uma crítica ferrenha a Bolaños. Alguns, dizendo que os seriados são rasos, ruins e com conteúdos machistas e preconceituosos. Outros, levando a crítica ao próprio Bolaños, refletindo sobre sua relação com os partidos mexicanos mais conservadores. E outros, ainda, discutindo sobre a visibilidade de um seriado de Tv, enquanto não há tanta visibilidade na mídia sobre os 43 jovens mexicanos desaparecidos.

Não seria estranho haver tanta polêmica, afinal, Chaves e Chapolin fizeram e ainda fazem parte do dia a dia do brasileiro, daquela massa que tem (ou tinha) a televisão como meio de comunicação para não apenas se entreter, como para aprender. Mas será que um seriado que há décadas é veiculado nas Tvs pode ser mesmo tão raso e ruim?

Temos que fazer aqui um parêntese sobre a nossa realidade brasileira. É preciso lembrar sobre o papel da televisão no Brasil e a dificuldade de acesso aos mais variados tipos de bens culturais.

Se hoje temos o vale-cultura, estudantes de escolas públicas (ainda que com grandes problemas) que recebem livros diversos, e alguns pequenos projetos de incentivo das massas à cultura, pensemos no Brasil da década de 80 (período em que foram veiculados os seriados).

E sem aqui reproduzir um discurso velho e muito comum de que tudo o que é para a massa é ruim, prefiro aqui ficar com Umberto Eco, em seu “Apocalípticos e integrados”, Chaves e Chapolin eram seriados veiculados para a massa, mas que nos trouxeram grandes ensinamentos.

A genialidade de Bolaños foi justamente o formato dos programas. Em Chapolin, por exemplo, Bolaños recriava grandes histórias da literatura universal nas mais diversas situações cômicas. E, para nós que não tínhamos grandes acessos à alta cultura, que jamais saberíamos quem era Cantinflas, o exemplo era aquele mesmo ali e pronto. E é justo dizer que não era ruim, pelo contrário.

Lembro-me de uma aula, já na graduação, em uma universidade pública, em que a Professora comentava sobre Fausto, de Goethe, e eu pensava: Mas eu já conheço essa história… Onde foi que eu ouvi? E então, pude me lembrar de que eu conhecia a história de Goethe, mas não pelo Goethe, e sim pelo Chapolin, no episódio “De acordo com o diabo”, em que Bolaños cria uma paródia sobre a história de Fausto.

Assim como Fausto, muitos episódios do seriado Chapolin recriaram grandes histórias da nossa humanidade, como Romeu e Julieta (Juleu e Romieta), Guilherme Tell (Um herói meio biruta), assim como histórias bíblicas, como a do Rei Salomão (Salomão e a Rainha de Sabá), e os mais diversos mitos, como de Ieti do Himalaia (O abominável homem das neves).

E para os apocalípticos que ainda não acreditam na genialidade de Bolaños e continuam a acreditar que eram simples seriados para entreter a massa, enganam-se que os episódios não tinham um cunho político.

Para os integrados que se lembram do episódio de Chapolin “Hospedaria sem estrelas”, em que o anti-herói Chapolin recebe um chamado para encontrar um bandido especialista em assaltos às hospedarias, podem se recordar de um personagem chamado “Super Sam”, uma paródia do cidadão estado-unidense. Super Sam, um anti-herói americano com sua roupa a lá super-man e sempre com uma bolsa de dólares nas mãos. Ou mesmo o episódio de 1979 “A casa do Doutor Zurita”, em que Bolaños propõe a discussão de gênero no ambiente doméstico, e sua inversão dos papeis (ainda que no final do episódio Chapolin faça com que o homem e a mulher voltem aos seus lugares cristalizados).

Muito do acesso das mais diversas culturas foram integradas nos episódios de Chapolin e, mesmo que de forma cômica, tudo isso pôde chegar às casas dos brasileiros. E reitero, a genialidade é justamente essa, um formato de programa que traz as mais diversas culturas, as mais belas histórias, recontadas em um programa de humor para as massas.

E o que dizer de Chaves? Para os apocalípticos que consideram o seriado como “um retrato romântico da pobreza latino-americana”, para os integrados Chaves é apenas um retrato do que muitos vivem, nas mais diversas famílias brasileiras.

Se Chaves faz tanto sentido no Brasil e por décadas é veiculado, talvez não seria porque ele reflete justamente o nosso problema de classes? Dizer que Chaves é “um moleque de rua, mas é feliz” é sim uma interpretação rasa do que propõe Bolaños. No episódio “O ladrão da vila”, por exemplo, Bolaños discute o problema do marginal, e o que representa ser marginal em uma sociedade de classes. Chaves, ainda que um menino bom e meigo, é um menino de rua.

No episódio citado, um ladrão aparece na vila e rouba o ferro de passar de Dona Clotilde. Como os moradores da vila não sabiam do aparecimento de um ladrão, não pensam duas vezes, acusam Chaves de ladrão. Bolaños aqui foi genial, pois trouxe a contradição existente na ideia de bom e mal, demonstrando que o mal será sempre aquele que estiver mais próximo da marginalidade. E quantos Chaves, Querôs ou Pixotes encontramos no Brasil?

Assim como Chaves, quantas Donas Florindas ainda não encontramos por aí? Dona Florinda jamais poderia não ser uma mulher mandona e com o cabelo sempre por fazer, afinal ela é mãe solteira, e muitas brasileiras sabem a dificuldade de criar um filho sozinha. Há espaço para cabelos? Há espaços para concretizar seu amor pelo Professor Girafales?

Aliás, a figura do Professor Girafales também é genial. Sua pose de “homem das letras”, o detentor do conhecimento, o Professor, não deixa de ser usado pela sátira condizente de Bolaños. Qual a figura de um Professor em uma vila periférica? Seus conhecimentos, suas sabedorias fazem algum sentido? É por isso que as aulas realmente não acontecem, é por isso que as nossas aulas, nas escolas públicas pelo Brasil afora, também não acontecem.

E o que dizer de Seu madruga? Para os apocalípticos, um homem “folgado, desbocado, autoritário e homofóbico”. Isso mais parece o discurso padrão-globo, de que o pobre só é pobre, só é miserável, porque quer, mas se ele trabalhasse… se estudasse, como se o trabalho que Seu madruga conseguisse pudesse dignificar a sua situação de miséria.

Realmente, tendo a achar que somente os integrados possam compreender o real significado de seriados como esses, afinal são eles que se veem retratados nos episódios de Chaves e são eles que conseguem ir além de um discurso apocalíptico raso e elitista.

Salve Bolaños!

Por Larissa Lisboa

Escritora do blog Diabólicas 

2 comentários sobre “A genialidade de Bolaños

  1. Que análise idiota!! Você começou bem citando a alta cultura presente no seriado!! Mas porra, achei que você realmente iria explorar as situações de narrativa que Chespirito cria, que são geniais, talvez o principal destaque do seu trabalho, e fazer um aprofundamento de quanto isso faz com que o seriado continue vivo a longo das décadas!! Achei que finalmente encontriauma análise que mostrasse o porquê de Bolanos ser chamado de “o novo Sheakspeare”!! Mas tudo que encontrei foi uma desconstrução grotesca para fins políticos, que reduzem a genialidade de Bolanos a uma ideologia pueril e degradante!! Tudo que encontrei foi um marxista tentando transformar um conservador católico em um ideólogo barato do esquerdismo, deixando totalmente de lado suas habilidades como escritor e comediante no geral!! Realmente sua análise ficou uma merda!! Falo isso para te ajudar a melhorar, buscar a verdade de fato, e o que é belo de verdade!!

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