CAVIAR COM COCAÍNA: Os Fedelhos

É logo oito da manhã e os tranqueiras se estapeando em cima da cama elástica que dá até raiva de ver.
Um pulando em cima do outro os pequenos se esmagando embaixo dos maiorzinhos e é pé dando chute na cabeça cabeça no meio das pernas que já viu no que vai dar. Na escada do brinquedo a fila que não acaba nunca e é um que cutuca o outro e é outro que já vai reclamando xingando choramingando empurrando e o cachorro tonto-zarolho-besta nem sabe o perigo que está correndo porque quase perdeu as costelas no segundo salto mortal-matador dos esportistas de meia-pataca porque ia passando todo desavisado por debaixo da cama.
Da janela do meu quarto eu ouvi as ameaças do Cabeleira cheio de autoridade cheio de pré-maturidade em cima do irmão indefeso e já até podia imaginar os olhos do baixinho transbordando em lágrimas e aquele choro engolido de moleque que ainda não é crescido mas que segura a choradeira na garganta pra dar pinta de homem-barbado, de homem-macho.
Meu recado foi curto e grosso.
Com a rosto inchado e o bafo cheirando a lençol-mal-dormido de quem queria mais dez minutos de sono.
Diretamente da janela sem persiana do quarto.
– É o seguinte seus fedelhos seus imundos seus carne-de-pescoço, mais um grito mais um cutuco mais um tititi e vocês vão me ver enfezada de verdade. Eu confisco a coleção de canivete o estilingue a zarabatana e o machadinho viu? As duas espingardas de chumbinho eu vou dar sumiço que eu sei que hora ou outra vai sobrar tiro em bunda de cachorro vai voar chumbinho na direção errada e sou eu quem vai ter que correr pro veterinário pro hospital pra curandeira, já vi tudo. Que eu não estou de brincadeira, eu faço mesmo, vocês me conhecem, não vem testar minha fé. As galinhas mal acordaram e vocês nessa correria nessa gritaria sem cabimento, ninguém merece.
A mesa do café da manhã tem alta-rotatividade e não podia ser de outro jeito. São seis crianças e meia completamente esfomeadas. E mais meia dúzia de adultos tentando sem esperança nenhuma alcançar um pedaço de pão uma faca limpa uma xícara sem migalhas. Nem com reza cabem todos numa sentada só.
Ovo-mexido abacate-batido leito-morno e café fresquinho. Queijo branco queijo amarelo coalhada-com-mel e salada de fruta. Pão italiano pão francês pão de forma pão-velho e bisnaguinha seven-boys com nutella. Manteiga requeijão geleia e açúcar-mascavo com canela. Maior confusão matinal.
A fome é grande.
A mesa, pequena.
Os fedelhos não se controlam. Os adultos não têm cadeira. Todo mundo falando junto querendo se servir ao mesmo tempo. Bisnaguinha disputada no tapa abacate espalhado pela toalha migalha de pão pra todo lado e a coitada da nutella que todo mundo quer e ninguém passa.
– Alguém escondeu a faca,
ai saco,
quem foi que escondeu a faca?
E os nanicos com cara de culpados se acotovelando-piscando-chutando por debaixo da mesa, se entregando de graça, dando risadinha engolida camuflada no guardanapo, que vontade de torcer um pelo braço que eu nem sei como me controlo.
Sai um, senta dois.
Sai dois, volta os que saíram primeiro.
Com fome de novo.
Como se nem tivessem comido, atochando o braço inteiro no pacote de sucrilhos, enfiando a colher de sopa cheia de manteiga na panela do ovo-mexido. Mergulhando a torrada com requeijão e geleia no copo de toddy. Roubando os morangos e as mangas com garfo sujo de iogurte da vasilha da salada de fruta. Precisa ver.
No escorregador é a mesma fila a mesma gritaria o mesmo empurra-empurra. Não podia ser diferente, brinquedo que dá pra se estrumbicar é com eles mesmo. Moleque desce de cabeça de costas de bunda e se equilibrando num pé só. De dupla. De trio. De skate. E de patins, por que não? É traseiro-lascado dedo-com-fiapo terra-no-sapato unha-levantada e o diabo-a-quatro. E ninguém usa botina nem sandália nem nada, sapato e tênis só em dia de ir pra escola. Passam a noite relembrando peripécias no bafo quente da lareira, arrancando ponta de espinho com pinça da sola grossa do pé cascudo. O menorzinho andando de meia furada pra lá e pra cá o dia inteiro, até a vó concordou que, no fim do dia, os pares de meia iam todos pra lata de lixo que não tem cloro que branqueie aquela porqueira.
Cachorro espalhado pela casa inteira. Nadando na piscina deitados no sofá esparramados na cama e tomando sol na espreguiçadeira. Parece um pulgueiro. Um canil do governo. A cada cinco minutos passa um pangaré trotando com um turista a tiracolo. E a cachorrada que não quer saber de palhaçada no roçado, sai latindo esganiçada atrás do rabo do coitado do cavalo, que dispara desembestado pra desespero do turista besta que nem segurava a rédea porque estava clicando auto-retrato-tremido pra postar na página do feicebuque. Todos se trombando se mordendo se atropelando balançando o rabo e mostrando os dentes, impressionante como são encrenqueiros, bando de pulguentos.
As maritacas, impressionadas com a zona dos vira-latas, gritam alto e voam baixo, fazendo um estardalhaço que dá pra escutar até de porta trancada e chuveiro ligado.
Os gansos gangueiros fazendo arruaça pra molecada, que sabe de-cor-e-salteado que ameaça de ganso-pescoçudo com bico-de-serrote é coisa séria. E de novo começa a correria porque os penosos não são bobos e vêm fazendo arrastão em equipe que assim fica mais fácil cercar a criançada. Junta galinha peru pavão siriema pônei bode e até a mini-égua-manca vem distribuindo dentada a-torto-e-a-direito. E é pivete se lançando de cabeça no balanço, se pendurando que nem macaco no galho da araucária, escalando a parede que nem homem-aranha, pulando de roupa dentro do lago gelado. Porque arruaça de bicho não dá pra levar na brincadeira e quem bobeia no meio do caminho leva bicada-esporada e chifrada de bode mal-humorado.
Os coelhos não conseguem entender de onde vem a gritaria e se lançam dentro do rio pra se salvar. Enquanto as trutas, que nadavam sossegadas, pulam rio afora quando se deparam com os coelhos brincando de hidroginástica dentro da água. A molecada mergulha de peito pra salvar os coelhos e se arrasta de joelhos pra pegar os peixes. Tomando bicada de tudo quanto é lado. É o fim.
O pior é a lhama, que chegou ao sítio de última hora pra fazer história. Os cavalos não se conformam que o bicho não usa cela não faz passeio e além de tudo é cheio de graça. As vacas arrebentaram a cerca num protesto violento contra a divisão do pasto.
Como assim dividir a grama-de-todo-dia com bicho que cospe?
Bicho que ninguém nunca viu nem no pacote da ração?
A galinhada, sempre desconfiada, nem chega perto porque sabe que tipo esquisito assim costuma ser carnívoro. Vai que o danado corre dá um bote e come as fofoqueiras numa bocada só?
Despeitada, a lhama desaforada mete o beiço o bigode a fuça no suco de couve com gengibre limão e cenoura que não tem nem como esconder a palhaçada, porque a pescoçuda com cara de inocente fica com o bigode forrado de espuma verde. Pra alegria dos meninos, que não tomam a gororoba nem debaixo de paulada.
Chega a noite e os fedelhos exaustos-catinguentos-felizes. A cachorrada desmaiada no sofá. De novo, não tem lugar pra sentar. Só tem rabo pata e pelo pra todo lado, os quadrúpedes forrados no cobertor só de orelha pra fora. A lareira tecendo o sono que vem hipnotizado pela brasa.
Não deu tempo de banho.
De novo.
É a mesma cueca faz uma semana.
Depois da sopa,
pinça-farpas e cama.
Moleque chega que dorme rindo.
E enquanto o sol nasce,
a geada-derrete
a grama-se-seca
o sino-toca. Antes ainda do galo cantar,
o cachorro late.
O moleque grita.
A leiteira chia.
Começa a fila na cama-elástica.

marina

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