Pires Laranjeira: “precisamos lutar, sempre, todos, em todo o lado, cada um segundo as suas possibilidades e aptidões, por uma humanidade melhor”

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José Luís Pires Laranjeira

O principal intuito desta entrevista é conhecermos mais a trajetória do renomado professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), José Luís Pires Laranjeira. Professor e investigador da FLUC/Centro de Literatura Portuguesa (CLP-FCT). Licenciatura pela FLUP (Porto); mestrado pela FLUL (Lisboa); doutoramento pela FLUC (Coimbra). Responsável pelas cadeiras de Literaturas Africanas, desde o ano letivo de 1980-81, e de Culturas Africanas. Dirigiu uma pós-graduação em Literaturas Africanas e da Diáspora. Leciona também literatura brasileira, cultura brasileira e estudos culturais (Universidade de Salamanca, FLUC, etc.).

Docente de cursos de mestrado e doutoramento em Interculturalidade (Universidade Aberta) e também Literaturas de Língua Portuguesa – Investigação e Ensino (FLUC). Tem exercido a crítica literária, com regularidade, desde 1972. Foi crítico do Jornal de Letras (Lisboa). Colaboração variada, desde 1965, em mais de uma centena de títulos de jornais e revistas locais, regionais, nacionais e internacionais de 20 países. Conferências e cursos em quatro continentes, com especial incidência em vários Estados do Brasil e orientação de dezenas de trabalhos e teses de estudantes do Brasil, Portugal, Angola, França, Itália, China, etc. Co-organizou algumas obras e coordenou coleções de livros e números de revistas. Diversificada atividade cultural (jornais, rádio, vídeo, desenho, poesia). Mais de uma dezena de livros publicados, entre os quais Antologia da poesia pré-angolana (1976), Literaturas Africanas de expressão portuguesa (1995), A negritude africana de língua portuguesa (1995) e Ensaios afro-literários (2001).

Inteligência, humildade e simpatia o definem. Tive o prazer de ter aulas de Africanidades com ele na FLUC e; confesso: ele é um dos seres humanos mais excepcionais que já conheci. Ao longo da entrevista, desmistificaremos algumas coisas acerca deste ser humano tão peculiar. Confira aqui no Livre Opinião – Ideias em Debate a entrevista inédita que ele nos concedeu.

LOID: Você trabalha há quanto tempo na área de Africanidades? O que o levou a estudar e trabalhar com isso?

Pires Laranjeira: Comecei, como crítico literário, no Diário de Luanda e A Província de Angola, em 1972, em Luanda, tinha eu 22 anos de idade. Mas já publicava em jornais desde 1965. Publiquei o primeiro livro, sobre poesia angolana (uma antologia, com ensaio), em 1976. Como professor de Literaturas Africanas, comecei no ano lectivo de 1980-81, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Justamente por ter estado em Luanda, de Outubro de 1972 a Outubro de 1974, como militar do exército português, é que a questão colonial (e, portanto, a anticolonial) me tocou fortemente, com o seu cortejo de racismo, de separação entre a cidade do asfalto e o musseque (bairro popular), de poderes coloniais, da guerra de libertação nacional (seus ecos na capital, porque o terreno da guerrilha era longe, nas matas distantes), e porque foi em Luanda que me relacionei com escritores e outros intelectuais, como os angolanos e portugueses Jorge Macedo, Arnaldo Santos, João Abel, Aristides Van-Dúnem, Domingos Van-Dúnem, David Mestre, Carlos Ervedosa, António Cardoso (depois de sair do Tarrafal, a seguir ao 25 de Abril de 1974), Rodrigues Vaz, João Carneiro, Aníbal Fernandes, Júlio Guerra, João Serra, Aristófanes Couto Cabral, Jorge Meneses, António Andrade, Artur Queiroz, António Bellini Jara, Cândido da Velha, Fernando Alvarenga, Vergílio Alberto Vieira, João Melo (o escritor português, que fez o serviço militar em Angola), José Manuel da Nóbrega, entre outros. Conheci também, muito de passagem, nessa fase de Luanda, Ruy Duarte de Carvalho, Ernesto Lara Filho ou Jofre Rocha, só para dar esses exemplos. Jovem, ouvindo muito e aprendendo, enquanto crítico literário e estudante (fiz exames), essa convivência foi marcante, tanto que pedi ao exército para passar à disponibilidade (à civil) em Luanda, porque me convidaram para ficar, após a Revolução dos Cravos, e cooperar, como companheiro de luta, com o MPLA e uma Angola independente. O convite partiu de Aristófanes Couto Cabral. Passei à civil ali, mas, a 20 de Outubro de 1974, não consegui dar esse passo e ficar em Angola. Regressei a Portugal, após dois anos de uma  vida em Luanda mais à civil do que militar, pois vivia numa pensão e não num quartel (eu era das Comunicações, não combatente). Tive um processo militar, por mau comportamento (a minha situação era óptima, mas também eu era muito rebelde), que me obrigou a três dias de prisão militar, mas uma coisa muito suave e quase risível (não houve qualquer dramatismo nisso), porém com consequências, essas, sim, que seriam muito dramáticas para mim: ser obrigado a ir para zona de combate. Foi a actividade intelectual que me salvou, literalmente: como escrevia nos jornais, um militar, o Jorge Trindade (de Aveiro), que, na vida, era artista plástico e cartoonista, colaborador do mesmo jornal, e era familiar de um comandante, fez com que eu ficasse em Luanda, embora impedido de sair da capital. Pessoa notável, pois não lhe pedi nada (não sabia que era cunhado do comandante), nem me informou de nada, apenas me safou desse castigo militar. A ida a Angola foi, portanto, determinante. E lembrar-me que estive para me exilar, tendo, inclusive, passado a fronteira para Espanha (a caminho de França)! Desisti e regressei a casa, por várias razões, incluindo o estar à espera do meu primeiro livrinho (de poesia adolescente) e porque a minha saúde não era famosa. Preferi ir para África.

LOID: Como você acha que seria uma sociedade sem África?

PL: Não é possível imaginar isso! Um continente com 56 países, com cerca de duas mil etnias e outras tantas línguas, riquíssimas civilizações, habitantes muito jovens, uma história de resistência à dominação e sofrimento, espalhando as suas culturas pelo mundo, o continente da hominização, a tellusmater por excelência, que reclama o seu devido e verdadeiro lugar no mundo, pleno de potencialidades, é como perguntar se o universo seria o mesmo sem o nosso sol!

LOID: Conte um pouco sobre sua vida acadêmica em Porto: enquanto estudante e no que esta influenciou em sua vida profissional em Coimbra.

PL:  Vivi desde tenra idade e é a minha cidade. Comecei a trabalhar na Universidade no ano lectivo de 1980-81, mas ainda vivia no Porto e somente mudei para Coimbra sete anos depois, onde passei a viver, portanto, com 37 ou 38 anos. Antes disso, trabalhei no Porto num tribunal, em jornais e na rádio, aqui com Leonel Cosme, o co-fundador das Edições Imbondeiro (Sá da Bandeira, Angola, 1960-65), meu grande amigo, com quem  tenho convivido desde 1978 e que muito me influenciou no modo de abordar a questão angolana e africana, pela sua maneira de ser, a sua capacidade crítica, o seu saber e a sua filosofia de vida. Um homem notável, daqueles com um comportamento vertical e uma humanidade irrepreensível, além de uma simplicidade desarmante e comovente.

A Universidade de Coimbra, já que segui o percurso de docente e investigador (quer dizer: de leitura e escrita e falar para os outros e com eles), obrigou-me a muita disciplina, que, para uma pessoa como eu, rebelde, iconoclasta quanto baste, adversa a todo o tipo de poderes, me ajudou a transformar, aceitar melhor os outros, a uma maior serenidade nos juízos, a uma maior objectividade na apreciação da realidade, do mundo, da cultura, da literatura, até porque fui sempre exercendo a crítica literária em jornais e isso obriga a julgamentos não precipitados e apreciações em palavras sucintas (muito poucas linhas de jornal, recensões em revistas, notícias e artigos de jornal, tudo isso obriga a ser claro e preciso!). Fiz o doutoramento em Coimbra, mas o mestrado (quando eram quatro anos), na Universidade de Lisboa, onde fui aluno de Manuel Ferreira, Jacinto do Prado Coelho, Maria Lúcia Lepecki ou Fernando Cristóvão. Obviamente, ser professor em Coimbra obrigou-me a ter, desde sempre, um cuidado extremo na escrita e no uso das palavras ditas, ao rigor, por, de certo modo, representar essa instituição quando em situação pública. Mas também é verdade que sempre, desde sempre, desde que comecei a publicar textos aos 14 anos, segui os meus princípios de curiosidade, rigor, frontalidade, honestidade, fraternidade, resistência e persistência. Aprendi isso com uma parte da família e com a vivência em Rio Tinto e no Porto, além de certas amizades, com que me fui caldeando. Coimbra, por outro lado, com o seu conservadorismo e doutorice, ajudou-me a ficar mais seco e formal, mesmo na reconhecida informalidade. Coimbra só é libertadora para os estudantes que estão de passagem. Trata-se de uma cidade muito pequena, acanhada, universitária, centrista. Mas a cidade, na sua história, teve também os seus grandes momentos de luta estudantil, as suas pequenas revoluções culturais, os seus bastiões de uma esquerda empenhada em mudar o mundo.

LOID: Sabemos que você é um ícone mundial em Literaturas Africanas: conte-nos um pouco como é viver a cultura e a literatura de África tão de perto e ter amigos pessoais como Mia Couto, Luandino e Ondjaki? O trabalho deles de alguma forma influencia em sua vida e trabalho, e vice-versa?

PL: Agradeço muito a simpatia, mas há que ter consciência das nuances. Não tenho uma relação tão próxima como possa pensar, dependendo sempre das pessoas, dos nossos percursos, dos encontros e desencontros. Há uma clara atmosfera de proximidade, partilha, camaradagem e amizade, entre escritores e estudiosos, consoante os casos. De qualquer modo, creio que é normal a convivência entre escritores e estudiosos. Nós, os que estudamos e divulgamos, ganhamos muito com o conhecimento dos criadores, mas, por outro lado, por vezes, não deixam de existir equívocos nesses relacionamentos. Somos, por um lado, uma espécie de comunidade, mas, por outro, há divisões, perspectivas distintas, mesmo oposições, interesses diferentes. E um estudioso é sempre um potencial crítico, que valora e pode desagradar. Por isso, também há ressentimentos e desagravos. Claro que conhecer determinadas pessoas ajudou a mudar a minha vida e a visão da própria literatura. Mas é sempre assim, como tudo, na vida. Os criadores são pessoas muito interessantes, complexas e estimulantes. É quase sempre uma benesse conhecê-los, mas não mitifiquemos, porque são pessoas.

LOID: Como professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e ex-estudante da FLUP, o que tem a falar sobre esta cidade encantadora?

PL: É uma cidade que não me encanta, não me conseguiu encantar. É nela que trabalho, é nela que tenho vivido, desde há um quarto de século, mas há mais mundo. E, quando me retirar do ensino, talvez volte para o meu Porto, tão diferente desta pacata cidade. Gosto de algumas pessoas que vivem nela, e que admiro, mas não mais do que isso. Até pode acontecer que continue a viver nela até ao fim, mas sem romantismo ou mitificação. A minha vida e a minha maneira de ser ajudam a explicar este sentimento de indiferença, mas isso é outra história.

LOID: Eu tive o prazer de estar no lançamento de seu livro: O vento que passa, em Coimbra. Conte-nos um pouco sobre o quê o inspirou a escrever esta obra e quais outros projetos você tem em mente.

PL: Não posso explicar o que deu origem a esse livro. Perderia muito do interesse se avançasse com a minha interpretação. Além disso, foi motivado por vivências intensas, transformadoras e dolorosas. Mas isso foi o que espoletou o texto, que é outra coisa. Só escrevo poemas nessas situações, quando necessito de catarse e autoanálise. Por isso, não posso dizer o que tenho em mente agora, porque ela, não estando vazia, não está cheia, não está pronta para a escrita, por não ser necessária.

LOID: O que significa ser negro para você? Como acha que isso se passa no Brasil? E em África? E sobre o racismo? O que tem a dizer?

PL: Ser negro é ter uma condição de “maldição” perante os brancos, sobretudo esses, de herdeiro dos “condenados da terra” (cf. Fanon), uma cor construída como negativa pelos brancos, e não só, ao longo dos séculos, indicativa de uma “raça”, construção social de um “tu”, um objeto, uma não-pessoa, que a historicidade relegou para os lugares de abjecção da sociedade. É como ter um ferrete na pele para as sociedades, todas elas, que são, na sua globalidade (não me refiro a excepções), discriminatórias, racistas, preconceituosas, marginalizantes. A sociedade brasileira – em que vivi um tempo – que conheço bem (acho), tem sido racista e discriminatória. Há mudanças, a partir do momento em que o governo de Lula admitiu, na letra da lei, que os regimes políticos, durante o século XX, tinham mantido o racismo, ao desqualificarem os negros. Tem havido mudanças importantes, mas ainda não as suficientes, como a equitativa distribuição dos bens materiais que são propriedade da nação e a redistribuição do valor dos bens produzidos pela comunidade dos brasileiros. O racismo, infelizmente, vai continuar, e, por isso, a luta continua, não tem fim, em todo o lado, em todas as frentes. E precisamos de lutar, sempre, todos, em todo o lado, cada um segundo as suas possibilidades e aptidões, por uma humanidade melhor. E não podemos sentir-nos felizes, se os outros não se sentem! Humanidade e felicidade devem ser globais e gerais, não sectoriais e individuais. Utopia, sonho e esperança – com determinação – são ingredientes necessários à luta.

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