O Jeito Que Ele Morreu

alinebei

 

Uma angústia nisso tudo, no túmulo do morto de boca cerrada que, no caso, eu conheci bem pouco. Dois ou três ois, ele

morreu provavelmente sem lembrar-se de

mim.

Fui no seu velório de multidão, um querido, me disseram sobre ele, um homem extremamente generoso.

Casou-se duas vezes, a primeira com uma mulher que estava lá com os filhos. A segunda,

com a mãe da minha amiga e por isso

Fui ao velório, um lugar

duro demais pra qualquer vivo,

a gente troca de lugar com o morto, a gente

fica com pena da gente, da fragilidade da

gente e

Nunca acha que está na hora de Partir porque

Partir

é sempre pra onde. No fundo nem padre

Acredita em

deus, os animais não acreditam. Eles morrem todos os dias e

sentem medo também. Eu

estava sentada no banco da parte de fora da sala em que se velava o corpo quando me contaram

a história

Da Morte do morto, nunca ouvi coisa mais linda.

Eram seis da tarde quando ele foi jantar com a mulher no restaurante favorito dele,

Comeu mais do que o normal. E se lambuzou de churros, aos 86 anos sua sobremesa

Melhor no mundo, gostava bastante

Também Por conta do doce de leite, se fosse só a massa

Teria menos

Graça a canela, o sabor.

Depois

eles foram na Livraria. Ele comprou

Muitos livros pra dar de presente, inclusive fez dedicatórias com

Caneta Bic.

Voltou pra casa com calma.

Colocou seu pijama azul.

Estava enfrentando problemas seríssimos pra dormir, sua mulher

Dizia que a culpa era do hábito de

ler muito durante a noite, isso

Lhe tirava o sono, provavelmente,

era o que lhe dava

Insônia. Sonhos ele tinha,

alguns.

Talvez viajar de barco sozinho, descobrir autores

Que sabia que eram bons mas

Ainda não tinha lido, como Joyce ou Dalton

Trevisan. Bons autores, ele pensava, boa vida.

Morou na mesma casa por longos anos, a casa

Está impregnada com a sua presença. E ficará

Assim

Talvez pra sempre porque as coisas não são falecidas como gente.

As coisas são Teimosas em permanecer. E por permanecerem e por nós a termos tido quando a tínhamos, elas

guardam

importantes resquícios nossos, a casa

está viva do morto e vai ser difícil morar naquelas paredes sem sentir ausência. A saudade é o sentimento mais inevitável do mundo.

Pois no dia da morte ele colocou seu pijama azul e

Pegou o livro que lia, depois da janta farta e depois de voltar pra casa com calma. A mulher disse o que disse

Sobre a insônia e ele, teimoso como as coisas, disse a ela:

– Não. Agora eu vou terminar de ler meu livro.

Era 1 da manhã quando ele

Acabou.

Morreu

um pouco depois, recebi notícia às 3 da manhã. Penso que ele não foi teimoso nada, ele foi

muito Sábio fazendo a Morte

Esperar.

Partir sem terminar uma história, oras,

isso é coisa gravíssima que

não se faz.

Ainda no banco de fora da sala do velório fiquei sabendo também que

Semanas antes,

ele tinha reunido a família, grande pelos 2 casamentos que teve, netos, filhos, ele reuniu essas pessoas em casa e contou um pouco da sua vida, desde menino até os seus 86 longos anos, contou o que lembrava e disse pra eles serem Honestos, acima de tudo. E felizes, se possível. Nunca antes ele tinha feito isso

E me disseram também que essa Tarde foi

uma tarde

Memorável.

Ela vai ficar impregnada nas paredes das pessoas que o conheceram

Muito mais

Do que a manhã de velório. A gente tem o velho hábito de se livrar da Dor pra

Caber Saudade que

tudo

não cabe, algumas coisas a gente precisa Esquecer.

Aline Bei

A busca ou o processo.
(nunca o pronto)

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