Heroína

Trabalho dobrado, isso sim. Agora chega o feriado e eu fico cansada só de pensar na canseira que essa bendita palavra me dá. Ninguém tinha me falado que depois que a gente tem filho, viajar vira uma epopéia. É muita tralha que um bebê arrasta pra onde quer que ele vá. Arrumar-malas deixa de ser simplesmente jogar dois biquínis uma calcinha velha e uma canga dentro da mochila: significa arrumar a mudança. O carreto. A van. O trailler. A mochila de uma criança é a casa empacotada. Agora feriado é isso: sinônimo de desespero. Não tem choro. Nem adianta arrumar tudo rapidinho. Se não levar o arsenal completo, o peso de mãe-relapsa despenca sobre as costas. A regra é simples: não dá pra esquecer nada. 1-Na praia não tem legumes fresco 2- fralda custa uma fortuna 3- banana, só verde 4- hipoglós só se der sorte.

As vezes, ficar em casa é a salvação. Fui me dar conta disso no primeiro feriado que resolvi ir pra praia. Não estou exagerando. Lembro que não sentei um segundo na areia. Tomar sol é privilegio das solteiras. Minha missão foi ficar engatinhando atrás do moleque, que comia areia que nem biscoito. Tem um imã que fica puxando criança em direção ao mar, nunca vi. É aquela moça. A tal da Yemanjá.

Meu marido diz que sou um Exu porque vivo reclamando que estou exausta-fatigada-podre e acabada. Mas não é ele que pega no batente um dia antes de viajar e quando chega segunda, ainda está desarrumando malas. Sou eu quem faz o trabalho sujo. Pelo menos é assim pra quem não tem babá, que hoje em dia é artigo de luxo: ou eu ponho gasolina no carro ou pago uma babysitter pra empurrar o carrinho e vou em cima dele tomando mamadeira com o bebê. Minha escolha foi simples: eu não tive escolha. E nesse caso, o trabalho grosso sobra pra mãe. Não tem avó madrinha amiga sogra pai porra nenhuma. Inclusive, o pai é só um coadjuvante na saga da maternidade. Ele, e seu saco. Porque sem o saco pendurado do danado, nada disso seria possível. Mas não são poucas as vezes que tenho um desejo profundo de cortar o saco do ditacujo fora. Acho que é por isso que dizem que casamento tem prazo de validade. Toda mãe que trabalha que nem mula, que nem eu, esta sempre a um fio de mandar tudo a putaqueopariu. Veio daí a expressão “tô de saco cheio”. Certeza.

A arrumação da mudança começa um dia antes. Não da pra arrumar nada em cima da hora. Em cima da hora não existe. Sair rapidinho, muito menos. Acabou a vida lôca. Tudo tem que ser pensado. Em cima da hora é o tempo exato de uma desavença das grandes: sair e esquecer o fogo ligado a mamadeira esterilizando a roupa embolorando na maquina e a porta da casa destrancada. E a culpa é sempre do marido, que fica apressando a gente porque pensa que fralda brota na bolsa. Isso dá separação. Vai por mim.

Era meio da tarde do dia anterior á viagem quando decidi começar a empreitada: parti pra cozinha toda descabelada pra descascar uns leguminosos sem graça e colocar a gororoba pra ferver. Famoso estoque de papinha. Não dá pra chegar na praia e encostar o umbigo no forno já de cara. Ta aí uma situação que me deixa emburrecida.

Não nasci pra ser mula. Embora hoje, eu seja uma. E uma mula brava.

Enquanto a panela fervia fui ajeitando do jeito que dava a mala do moleque: entre pausas de choro (fralda suja) palminhas de parabéns (falda imunda) musica da Galinha (fralda suja fralda suja) lanche da tarde e cabeçada no móvel. Tudo nessa ordem. Depois veio a mamada medicinal de quarenta minutos pra curar o galo da cabeça, seguida de um vomito cabuloso que adiantou a etapa do banho, que só seria de noite. Achei que tinha agilizado o processo. Puro engano. Realiza que um simples ato de arrumar mala, que demoraria uns quarenta minutos sem as interrupções inesperadas, passa a durar um dia inteiro. Claro que eu, continuaria toda vomitada até dez da noite. E isso é só um detalhe.

Coloquei peças de roupas pra todas as estações possíveis dentro da mochila porque a probabilidade de chover fazer sol e um fim de tarde invernal assolar a madrugada é grande. Não da pra sair pra comprar moletom porque eu tive a audácia de deduzir que não haveria frio. Eu não tenho bola de cristal. Faz uns meses que aceitei isso.

Adicionei toalha roupão sunga chapéu-de-sol fralda de piscina fralda para o dia fralda da naninha fralda de pano e cobertor anti-alérgico porque bolor de praia é foda. Melhor cobertor do que bronquite. Vitamina do dia, vitamina da noite, protetor solar kids- que faz uma camada densa e mais parece massa corrida- repelente de mosquito para a peles sensíveis repelente de mosquito para peles cascudas repelente de parede para um sono sem zumbido e Shampoo chega-de-lagrimas. Talco hidratante chupeta lenço humidecido hipoglós óleo Johnsons termômetro anti-térmico anti-alergico. Tem de tudo. Realiza que a mala do moleque eqüivale a uma mala de viagem pra passar um mês na Indonesia. Sentei em cima pra fechar o zíper. Primeira etapa concluída.

Eram sete da noite quando meu marido chegou e eu pensei inocente que ele vinha somar. Puro engano. Ele veio ser o segundo filho.

– Amor, o que a gente vai jantar?

Putaqueopariu, vou surtar. É esse o pensamento. Respira uma. Duas. Três vezes.

-Pão com queijo e coca-cola. Silencio. Acho que ele entendeu o recado.

Parti pra cozinha de novo e foi ai que me lembrei dos legumes assando na panela, que aquela altura já tinham virado um carvão. A casa impregnada de fumaça. Comecei a descascar legumes, de novo, enquanto colocava o maldito pão com queijo na tostadeira. Muda descabelada vomitada de calcinha top e chinelo havaiana. É a visão do inferno. A essa altura o tesão é ilustrativo. Não existe sensualidade na maternidade. O peito perde totalmente a conotação sexual: está sempre pingando leite sempre protegido por algodão e sempre chupado. É o cão.

Daí sentei pra comer o sanduíche meia-boca com um copo de água morno com açúcar, pra acalmar, o moleque se pendurando e gritando na minha perna, o marido me contando animado do dia super agitado e dos mil acontecimentos que movimentam o mundo e aquela angustia que fica entalada na garganta junto com o queijo porque você lembra que existe vida além dos muros da sua casa. Existe cafezinho na padaria. Bate-papo na porta do grupo. Existe a fashion week acontecendo enquanto você usa o mesmo sutiã enfadonho de amamentação faz mais de um ano. Pra não quebrar os pratos na parede lavei eles três vezes pra dar tempo de respirar fundo antes de cometer um assassinato. Daí tirei a panela do fogo, bati no liqüidificador a gosma, coloquei nos potinhos coloridos e enfiei na geladeira, que quase ficou sem porta depois da porrada mal pensada na hora de fechar a geringonça.

Segui para o quarto com o moleque, que se estabacava pela casa inteira, pendurado no que restou do meu cabelo, e aproveitei para colher a dezena de brinquedos espalhados pela sala e cozinha. Entro no quarto parecendo um camelô ambulante, despejo a criança na cama e os brinquedos no chão, e fui colocar ele no berço. Isso já são nove da noite e eu continuo com o vomito da tarde enrolado no cabelo. Enquanto o moleque suga toda vitamina que me resta, o maridão toma um banho fumegante e canta musica sertaneja a altos brados. Escorre aquela lagrima no canto do olho que já nem sei o que significa. Se é alegria ou tristeza. Cansaço ou cegueira. Depressão ou Shampoo no olho. Tanto faz.

Ponho o imundo no berço e chega a premiada hora do banho, de tirar a casca grossa, de relaxar os nervos. São quase dez da noite e quando tiro os trapos a calcinha nojenta o algodão da teta, o bendito cônjuge entra banheiro porta adentro com o pinto em riste pronto para a foda da noite, e eu nem tive como argumentar a minha falta de disposição para a troca de fluidos. Troquei um corpo a corpo do jeito que deu.

Depois do coito do banho de raspar o sovaco e de chorar um pouco, fui arrumar minha mala. E a dele.

-amor, leva a bermuda jeans? A sunga? Tem meia na minha gaveta? Não esquece do barbeador. O tênis de corrida. A batata Pringles. Meu carregador.

O caralho a quatro. É impressão minha ou ser mulher e ser mãe deveriam ser tarefas diferentes? Mas não são.

Quinze minutos pra arrumar minha mala e as tralhas dele. Canga shorts casaco calcinha camiseta pijama. Protetor-solar IPed gilete Shampoo vitamina hidratante silicone para pontas duplas. Carregador do IPhone. Do IPed. Isso sim era importante: minha comunicação com o mundo. E o tablet pra tocar Galinha Pintadinha. Sem os carregadores eu era capaz de definhar. Já eram mais de onze horas quando deitei a cabeça na cama. Morta de cansaço. O sujeito, claro, babando no travesseiro. Aquele “boa noite amor” ficou pro período da gestação. Coloquei o despertador pra cinco e meia da manhã pra arrumar o isopor da criança. Dormi assistindo Chapolin Colorado. Tom e Jerry. Looney Tunes.

Acordei zero-hora pronta pro combate. Primeiro: colocar o carrinho do bebê no carro. Sem o carrinho não sou nada. E como meu carro não é uma van, no porta-malas cabem o carrinho e mais nada. No banco de trás vai o resto: o saco de brinquedos o berço as malas o cadeirão o cobertor No porta luvas: a maldita Pringles óculos escuros Novalgina Tilenol Lactopurga Eparema.

Voltei pra cozinha e arrumei o isopor do danado. Papinhas banana laranja-lima melancia danoninho gelatina leite integral biscoito de maizena biscoito de polvilho mamadeiras colher de silicone babador batata cenoura mandioquinha. Puta merda, é impressionante como o moleque arrasta-coisa.

Quase seis da manhã. Não dá pra pegar o transito encalacrado. Com filho, a gente vai contra o fluxo. Carreguei o guri no colo, acordei o meu respectivo sonâmbulo, tranquei a porta da casa e fechei os olhos para tentar lembrar de alguma coisa esquecida. Esperei uns minutos para ver se vinha aquela sensação de vazio. Nada. Acho que estava tudo certo. Abri o portão. O moleque ronronado. O pai babando. E eu, claro, dirigindo o carreto. Parece que o meu amor estava muito cansado pra pegar no volante e enfrentar a serra. Mas uma mãe jamais fica cansada. Nunca pega resfriado. Jamais perde a hora. Mães são super-heróis que usam saia. Parti pro litoral convencida de que tinha feito um belo trabalho.

Foi só lá que me dei conta. Que na maldita correria eu tinha sem-querer esquecido de colocar na minha humilde mochila um par de biquíni.

marina

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