Coluna 4: Pra eu parar de me doer

unnamedMarcelino Freire me pediu para contar sobre minha primeira participação na Oficina Literária ministrada por Caio Fernando Abreu, em 1989.

Foi tão incrível e tão fantástica quanto é hoje poder estar presente nas oficinas do Marcelino.

Conviver com um escritor que divide seu processo de criação com você, lê o que você escreve e te orienta, é muito divino, é lindo demais. Mesmo. Sem falar nos amigos que você vai fazendo ao longo do tempo.

Eu descobri o Caio numa gramática do primeiro colegial. Falava algo sobre ser morena, frágil, pálida e trêmula. Fiquei transtornada. Aquele texto foi escrito pra mim. E eu não conhecia o autor.

Felizmente não posso recorrer aos meus exemplares porque fiz questão de doá-los para minha sobrinha Jessica Ribeiro.

Eu tinha 16 anos e anotei o nome do autor. Na Biblioteca de São Miguel descobri Morangos Mofados, Triângulo das águas, Inventário do irremediável e O ovo apunhalado. Não tenho certeza se li todos na biblioteca mesmo ou se fui comprando depois. A única certeza é que eu lia, relia e a admiração só aumentava. Naquela época eu não doava os livros, grifava as frases mais lindas e marcantes e que me desmontavam, sempre. Antes de passar essa pequena herança pra Jessica, eu dei uma relida só nos grifos. Não dá. É dolorido demais.

Relembro cada dor grifada.

Eu sou muito apegada ao meu passado, aos meus amigos antigos, as primeiras paixões da vida mas tem coisa que não dá. E o Caio Fernando é uma delas.

Na mesma Biblioteca eu descobri que ele escrevia toda semana para o Caderno 2. Passei a comprar o jornal por causa dele. Eu recortava e guardava todos os textos numa pasta. Eu acho que em algum momento de raiva súbita (depois de ter lido o sofrimento que foi pra ele dar a oficina) eu joguei tudo fora. Questiono meu marido e ele diz: espero que não e afirma “você é teimosa igual a uma porta”.

Uma vez na Paulista, eu e minha querida amiga, Raquel Marinho, encontramos o Caio pertinho do prédio da Gazeta (acho que a Dri estudava lá) e ele foi frio comigo, distante. Só porque eu parei gritando na frente dele como eu o admirava, amava, respeitava e como ele podia escrever tudo aquilo pra mim sem ao menos me conhecer? Ele agradeceu e saiu rapidamente andando, assustado. Não sei porque. Um milhão de kkk.

Logo depois desse encontro eu e a Dri descobrimos que ele ia oferecer a tal Oficina na Três Rios (hoje Oswald de Andrade) e precisava mandar um texto para ser avaliado. Eu passei. Eu era maravilhada com o grupo, com a Oficina. Deslumbrada. Desse mesmo jeito que eu sou hoje com as pessoas, as coisas, os lugares. Só que naquela época não tinha facebook pra gente compartilhar e dividir com os amigos. Porque algumas coisas que acontecem na vida são tão significativas que a gente precisa que o outro veja. Precisa que o outro acredite. Precisa de testemunhas.

Voltávamos de metrô. Eu, o Caio e mais alguém. Ele sempre estava feliz. Ele sempre cantava e ria muito das minhas palhaçadas. Me chamava de “Miss Oficina” porque eu era bem bonitinha, de “Mascote” porque eu era a caçula e de “Lygia” porque eu sempre chegava cantando Lygia e minha personagem na nossa história coletiva.

Fizemos um amigo secreto na casa dele e eu ganhei uma toalha de praia. Porque era uma piada que tinha no rádio e todo mundo falava, tipo falar tipo, uma gíria, um bordão: “ahhhhhhhhh, você tem uma toalha?”. Minha irmã Neia é capaz de lembrar disso. Ela é testemunha de muitas coisas importantes na minha vida.

Testemunhas. Em alguns momentos a vida é tão mágica e preciosa que mais do que fotos precisamos de testemunhas para confirmar nossas histórias. Eu tentei reunir meus amigos que fizeram a Oficina. Ainda não consegui. Queria terminar um livro que a gente começou com o Caio.

Cada um escreveria um personagem da família. O Caio era a casa. O projeto morreu com a Oficina. Mas eu ainda não desisti.

Sigo sonhando.

Persigo o Wagner, a Vânia, o Marcos, a Finísia, a Ana, a Sandra e o Manoel pra sonharem comigo de novo.

Eu não sei se eu inventei essa memória ou sonhei mas a lembrança mais forte que tenho do Caio é ele de branco, parado na porta da cozinha de sua casa e cantando com os braços abertos e sorrindo, sorrindo muito: “Eu sou a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma”. E também mostrando umas galinhas em cima da geladeira, alguma coisa sobre a Clarice.

lucimar-mutarelli

Confira os textos anteriores de Lucimar Mutarelli

Coluna 1: Não Coluna
Coluna 2: Eu Cuido da Sua Vida
Coluna 3: Pego criancinha pra fazer mingau

 

11 comentários sobre “Coluna 4: Pra eu parar de me doer

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