(femin)Agnes: “O feminismo é pelas, das, com, para as mulheres e é nisso que eu foco a minha existência”

(femin)Agnes

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(femin)Agnes, lésbica, vegana, feminista radical, professora de Inglês há quase uma década e estudante de Letras Português-Inglês pela Universidade de Coimbra e PUC Campinas.

Gasta seus dias com leituras sobre feminismo, tentando ajudar mulheres, brincando com o cachorro que divide a casa com ela e vendo vídeos de gatinhos fofos no youtube.

Confira aqui no Livre Opinião – Ideias em Debate, o que para esta estudante é o FEMINISMO.

LOID:  O que é ser FEMINISTA para você?

Feminismo é um movimento político e ideológico que busca o fim dos padrões opressores patriarcais. Isso é facilmente encontrável na própria página da wikipédia sobre o assunto.  E eu concordo com essa definição: ser feminista, para mim, é mais do que se auto-identificar (até porque não acredito em auto-identificação) como feminista. É ter práticas políticas que são ditas como feministas, parafraseando bell hooks (minúscula intencional aqui). O feminismo é pelas, das, com, para as mulheres e é nisso que eu foco a minha existência. Toda a minha existência deve ser política tendo como objetivo ajudar mulheres. Não viver isso na prática é não viver o feminismo e, sendo assim, é não ter coerência política. É como um militante/ativista Marxista ter uma empresa e explorar milhares de empregados, ou um vegano fazer uso de produtos de origem animal. Coerência e responsabilidade política são necessárias quando pensamos em políticas para as mulheres. Falamos de milhares e milhares de mulheres que são mortas diariamente e, se me proponho a lutar por todas nós, não posso ser incoerente, porque isso seria ser irresponsável com vidas de mulheres.

LOID: Você crê que ser Cisgênero é uma identidade com a qual as mulheres devem aceitar e se identificar? Por quê?

Vejo a identidade “cisgênera” como mera invenção pós-moderna partida de homens na tentativa de encaixar mulheres em uma posição de conformidade com as opressões que sofrem. Eu não sou cisgênera, assim como não sou transgênera. Sou mulher. Nasci com um orgão genital que não deveria ter qualquer relevância na minha vida, mas ele tem.  Porque a sociedade patriarcal sustentada e beneficiadora de homens assim o quis. Eu não escolhi ganhar bonecas de presente de aniversário durante a infância e meus agressores nunca me perguntaram se eu me identificava como mulher ou não, antes de me agredirem. Eu sou lida assim e é assim que serei tratada. Enquanto feminista radical, rejeito tais classificações de mulheres como opressoras de pessoas do sexo masculino que se identificam, seja por qual motivo for, com a identidade de mulher. Os recortes e análises necessários de classe, raça e idade são fundamentais para entender mulheres em situação de mais ou menos poder opressivo. Mas a identidade cisgênera como oposta à identidade transgênera não me faz qualquer sentido. Assumir a identidade de pessoa cis é dizer que eu me identifico com as características próprias do gênero que designaram no meu nascimento, de acordo com o meu sexo. E isso é meramente culpabilizador para mulheres, é dizer que elas são responsáveis, à medida em que se identificam com isso, pela sua identidade – quando na verdade somos todas vítimas do patriarcado e do que ele determina em nossas vidas. Não me identifico com nada que é, comumente, associado ao meu gênero – gênero este que foi forçado a mim desde o meu nascimento, algo que podemos também chamar de socialização. Não sou feminina, não pintos as unhas, não sou vaidosa, sou peluda e não estou à disposição de homens, mas nada disso me faz ser um homem ou uma pessoa não-binária ou agênera ou qualquer outro nome que a pós-modernidade alucinante queira dar a isso. Sou uma mulher, continuo sendo reconhecida socialmente enquanto mulher, porém sofro as violências de não ser uma mulher que vive dentro das normas e isso não pode ser nomeado com uma palavra tão culpabilizadora como cisgênera. Sobre isso, recomendo o texto “não sou cis (e nem você)” [Link: http://milfwtf.wordpress.com/2014/06/04/eu-nao-sou-cis-nem-voce/]

LOID: Como feminista e considerando toda a sua trajetória, tanto na Europa quanto aqui no Brasil, quais tipos de preconceitos você já sofreu? Por quais situações você já passou, principalmente em Coimbra e em Campinas?

Sofri e continuo sofrendo diariamente com o racismo, lesbofobia, gordofobia, e também com os preconceitos de classe e origem social, e enquanto feminista radical sofro o backlash [Link: https://cafefeminista.wordpress.com/2013/07/14/backlash-desvendando-o-contra-ataque-antifeminista/] vindo por parte das vertentes de esquerda que se opõe à definição de gênero proposta pelas feministas radicais. Sou normalmente expulsa de espaços feministas ou apenas tenho minha entrada vetada, assim como sou silenciada em diversos espaços por não poder falar sobre as minhas considerações que partem de uma visão radical do assunto. O feminismo “me sinto bem assim” é cada vez mais popular, visa apenas o empoderamento e bem estar individuais e pouco se preocupa com mulheres enquanto classe, e isso faz com que o feminismo radical [que significa ir à raiz do problema] sofre as depredações mais diversas. Enquanto lésbica, negra e de origem pobre, sofro com tudo que toda outra mulher na mesma situação que eu sofreria. Lesbofobia é uma constante na minha vida, principalmente por não ser uma Lésbica feminina. Ouço coisas das mais diversas nas ruas, na Universidade e em espaços de lazer. Ameaças de estupro são cotidianas e o medo de estar nos espaços públicos também. Em Portugal o mais agravante era a minha condição enquanto Brasileira num país europeu que nos colonizou, a constante associação da mulher brasileira com a prostituição é o mais básico dos problemas. Já em Campinas a maior dificuldade tem sido realmente o backlash por ser uma feminista radical inserida em contextos onde o feminismo liberal, queer ou transativista é muito popular e massivo. E qualquer opinião contrária, ainda que meramente teórica, é sumariamente destruída, perseguida e aniquilada.

LOID: Considerando o meio acadêmico contemporâneo em que vivemos, você acha que os estudantes com os quais você tem contato e convive ou conviveu, aceitam e concordam com o movimento feminista? Se sim ou não, por quê?

Não. Somos parte de uma geração que pouco sabe sobre revolução, pouco contato teve com movimentos de libertação ou qualquer grande revolta popular. Os pensamentos reacionários são muito frequentes nos espaços universitários e isso dificulta a evolução de qualquer movimento. Vivemos no país de Bolsonaro, Aécio, Edir Macedo, Marco Feliciano, etc. Não sei o quanto podemos esperar de uma geração inserida em uma sociedade que elege esse tipo de gente para altos cargos governamentais.

LOID: O que você designaria como PUTA?

Puta é uma palavra que não me agrada, é mais frequentemente usada para designar coisas negativas às mulheres. Quando usada para se referir às mulheres que estão em situação de prostituição é ainda mais ofensivo. Não vejo a prostituição como uma profissão como outra qualquer, ou como uma escolha que se faz dentre diversas opções. As principais mulheres em situação de prostituição são negras e pobres, isso é um indicativo de que temos uma falha no nosso sistema que faz com que mulheres sejam obrigadas a recorrer à prostituição como forma de sobrevivência. Isso não é empoderador e muito menos libertador, como é o caso das Marchas das Vadias que tem como propósito se apropriar do termo vadia com o objetivo de empoderamento. Sobre isso, ver: [Link: https://we.riseup.net/radfem/porque-a-cr%C3%ADtica-%C3%A0-marcha-das-vadias+191826]

LOID: Acerca dos pêlos ; questão esta que gera muita repercussão;  atualmente algumas pessoas até os tinge de outra cor; o que você tem a dizer sobre? Ter ou não ter? Por quê?

Tenho a dizer que, caso não seja de conhecimento geral da sociedade, mulheres adultas têm pelos. E não há nada de mal nisso. Ter pelos é uma condição biológica dos seres humanos adultos. E qualquer tentativa de dialogar para que mulheres sejam obrigadas a passar por verdadeiras sessões de tortura para removê-los é misoginia escrachada. É a sociedade dizendo que somos sujas por termos pêlos, enquanto homens andam livremente com os seus. Qualquer ginecologista diria o quão nocivo é remover os pelos da área genital das mulheres. É uma questão muito simples e que poucas pessoas sabem lidar, infelizmente. Sobre isso: http://economistinha.com/2013/08/20/o-mes-em-que-me-tornei-uma-feminista-peluda-por-melissa-de-miranda/ e o documentário “My body My hair” [http://vimeo.com/76152590].

LOID: O que é o estupro para você? Você crê que é culpa do homem, da mulher ou dos dois?

Estupro é qualquer ato praticado por um homem contra uma mulher onde ele tenha acesso ao corpo dela sem a permissão clara para tal. E a culpa é sempre do estuprador. Qualquer tentativa de justificar o ato é culpabilizar a mulher ou desresponsabilizar o criminoso.

LOID: O que tem a dizer sobre o ABORTO?

Um ato horrível porém um direito mais que necessário para garantir que mulheres parem de morrer em procedimentos clandestinos. Ser feminista não é gostar de aborto, ninguém gosta de aborto. É ser a favor da vida das milhares de mulheres que morrem diariamente na ilegalidade. A criminalização só fere mulheres. A legalização salva vidas.

LOID: Qual a diferença entre o feminismo liberal, radical e queer?

Eu sei muito pouco sobre o queer, tive pouco contato com ele e li o básico que todas as pessoas costumam ler: Gender Trouble, da Judith Butler, então prefiro não dar qualquer explicação sobre. Quanto ao feminismo liberal e radical, creio que a principal diferença é o individualismo. O liberal enxerga o mundo com um lugar cheio de indivíduos que fazem ou não parte de grupos maiores. O radical enxerga o mundo como um espaço cheio de grupos que são compostos, por sua vez, de indivíduos. Em termos práticos, também, o radical quer a revolução, enquanto o liberal se contenta com a reforma do sistema. Sugiro o vídeo da Lierre Keith sobre o assunto: https://www.youtube.com/watch?v=YkXrS0NnQM0.

LOID: O que tem a dizer sobre CANTADA?

É assédio sexual, é invasão de nossos corpos sem a nossa permissão. É o homem demonstrando publicamente seu poder falocêntrico de dominação de mulheres. Uma importante contribuição sobre o assunto é a campanha “chega de fiu-fiu”. Link: http://thinkolga.com/chega-de-fiu-fiu/.

davilla_martins

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