O silêncio desafiador em “Memória da Bananeira”, primeiro romance de Isadora Krieger

memoria_blUm enigma. Assim definiria Memória da Bananeira (ou a Analofobia de uma Sociedade Chique no Úrtimu), livro de Isadora Krieger lançado em novembro do ano passado durante a Balada Literária.

É sempre uma grata surpresa encontrar livros que desafiam seu próprio tempo. Enquanto na literatura brasileira contemporânea a temática da violência é explorada incansavelmente e arquitetada por uma linguagem crua e cristalina, Krieger diverge nos dois aspectos – forma e conteúdo – em um movimento ousado na construção desse romance de múltiplos tons, vozes e indagações. Ora revestida do lirismo influenciado pela obra de Hilda Hilst – de quem Isadora se declara fã – e ora permeada pela sátira, a narrativa nonsense da autora nos aponta não para uma constatação estatelada em nossa frente, mas sim para os silêncios presentes nas diferentes relações humanas.

Somos apresentados, através de cartas trocadas, à emblemática relação de Gioconda Lívida de Existência e Genésio do Peito Genuíno. Nas epistolas, as personagens discorrem sobre os mais diversos assuntos e acontecimentos, principalmente os ocorridos no Sítio Descanse em Paz Antes da Madama Chegar (residência de Gioconda) e na Cidade das Crianças Marmanjas, onde vivem Genésio e as demais personagens.

Em um mundo ficcional caricatural do nosso, onde a modernidade e tecnologia estabelecem relações dialéticas com arcaísmos da Idade Média, parece haver um porto seguro na troca de cartas. Enquanto as outras personagens se utilizam de meios como o telefone e a internet para se comunicarem com os protagonistas, Genésio e Gioconda encontram nas cartas o único meio possível de tecer uma relação, ainda que à distância, afetuosa e verdadeiramente carregada de sentido humano. Cria-se, então, um espaço para a troca de segredos e observações referentes à existência tanto dos dois, quanto de outras almas que permeiam seus cotidianos. No oco do dia comum, a dupla encara a complexa gramática da vida e da morte.

Como uma colcha de vários retalhos, Memória da Bananeira inscreve diversos discursos em seu cerne, criando um verdadeiro mosaico narrativo. Sob seu potente labor formal e experimental, a escritora transmuta questões políticas, artísticas e existenciais em uma obra singular, tão desafiadora quanto às palavras de uma esfinge.

Isadora Krieger (Foto Carolina Krieger)

Isadora Krieger (Foto Carolina Krieger)

Poeta e escritora, Isadora nasceu em Balneário Camboriú (SC) e, desde 1994, reside em São Paulo. Também atua como agitadora cultural, sendo idealizadora e produtora do Cabaret Revoltaire, projeto em atividade e aberto a experimentações artísticas diversas, passando pela pintura com modelo vivo, leituras de poesias, performances e música. Em 2014, além de Memória da Bananeira, publicou os livros O Gosto da Cabeça na coleção “Poesia Menor”, pela publicações Iara; e Caráter Anal na antologia “Boca Santa”, publicada pelo selo Carniceria Livros.

Memória da Bananeira
Isadora Krieger
144 páginas
R$25,00
Editora Carniceria Livros, com apoio de A Oficina do Santo

 

Matheus

 

3 comentários sobre “O silêncio desafiador em “Memória da Bananeira”, primeiro romance de Isadora Krieger

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