Em entrevista, cartunista Arnaldo Branco fala sobre o atentado ao “Charlie Hebdo”

Arnaldo Branco (Foto: Divulgação)

Arnaldo Branco (Foto: Divulgação)

Na última quarta-feira (7), a França sofreu um dos maiores atentados de sua história recente, a sede do jornal satírico Charlie Hebdo foi atacado por três atiradores que mataram doze pessoas, entre os mortos estavam os cartunistas Cabu, Charb, Tignous e Georges Wolinski. Segundo informações, os atiradores invadiram o prédio gritando “Vamos vingar o profeta”.  O jornal já havia causado polêmica ao publicar uma charge satirizando Maomé na capa de uma das edições.

O ataque abalou a área jornalística e, logo em seguida, diversos cartunistas ao redor do mundo prestaram condolências aos cartunistas mortos no atentado. No Brasil, o jornalista e também cartunista, Arnaldo Branco, prestou homenagem às vítimas do Charlie Hebdo.

Criador de personagens como Capitão Presença, Joe Pimp e das tirinhas Mundinho Animal – publicadas no G1 -, Arnaldo conversou com o Livre Opinião – Ideias em Debate sobre o fato que chocou a área jornalística e o assunto sobre a conduta do humor e do politicamente incorreto.

Para você, o que pode ser afetado na área jornalística depois do dia 7 de janeiro? A liberdade de expressão sofreu o atentado também?

Sim, sofreu – até porque apareceu muita gente afirmando que os cartunistas fizeram por merecer. Gente que se acha muito humanitária porque, diante da iminência de uma catástrofe (o aumento da perseguição ao islamismo) relativiza uma catástrofe real (o atentado), que acabou de acontecer. É a galera a favor da liberdade vaca amarela: se ninguém nunca disser nada que desagrade outra pessoa, talvez a paz seja possível.

Você tinha bastante contato com as publicações do Charlie Hebdo? A que ponto ele te influenciou no seu trabalho. O traço de Wolinski também foi importante para a sua carreira?

Eu conhecia o Charlie Hebdo – para um cara do meu ofício e com a minha idade (pré-internet, principalmente) o trabalho dos caras era meio que obrigatório. E o Wolinski era meu cartunista favorito, imito o sujeito em todas as oportunidades. É só ver pelo jogo entre legenda e balões de diálogo, o desenho econômico (no caso dele era proposital, no meu é involuntário, por falta de recurso mesmo) e as tentativas fracassadas se ser tão incisivo quanto.

A seu ver, esperava-se que o humor incomodasse tanto a sociedade a ponto de acontecer o atentado da última quarta-feira?

Não incomodou a sociedade, que sempre acolheu o Charlie Hebdo como parte da paisagem cultural da França. Incomodou gente que acha lícito dar tiro na cara de um policial já fora de combate. Imagino que qualquer reação contrária anterior dos devotos sensatos da fé islâmica tenha acabado no lugar certo: nas cartas dos leitores ou nos tribunais.

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Em relação à repercussão do caso, está havendo pessoas que apontam  a conduta do Charlie Hebdo como machista, homofóbica e racista em suas críticas, outros de que o jornal satírico precisa ser politicamente incorreto. Qual é a sua posição sobre o assunto?

Uma premissa falsa usada por oportunistas. A maior vítima do jornal era a extrema direita que persegue muçulmanos, negros, homossexuais – agora uns desavisados que nunca tinham ouvido falar no Charlie Hebdo discorrem como se fossem especialistas sobre o conteúdo de uma publicação de mais de quarenta anos. Aquele site Brasil 247 tentou imputar ao jornal um cartum racista que na verdade foi publicado em um tabloide fascista, e mesmo o material que está saindo por aí – que realmente foi publicado no Charlie – só mostram cartunistas zoando os fundamentalistas e desenhando  Maomé (desrespeitosamente, é verdade, mas no mesmo nível de outros cartuns e esquetes que já vi por aí brincando com outros profetas/mártires), justamente porque grupos extremistas afirmaram que atacariam quem fizesse isso. Aquilo não era um desrespeito puro simples – era também um ato de desafio contra a brutalidade.

Eu tenho discos de heavy metal lá em casa com capas muito mais desabonadoras sobre Jesus Cristo. E boa parte das piadas eram até bobas, sobre motes engraçadinhos, tipo sobre as virgens que os terroristas suicidas esperam encontrar no céu. Que porcaria de causa fraca é essa que precisa vingar um cartum?

“Os cartuns são racistas, retratam os islâmicos como terroristas”. Sim – os que são efetivamente terroristas.Trazendo para o nosso contexto: quando você faz um cartum com um traficante de AR-15 e chinelo, não está chamando todos os favelados de bandidos – você está retratando uma minoria (a Rocinha, por exemplo, tem 200 mil habitantes e é controlada por um bando de 100 caras armados) que efetivamente tem grande efeito na vida da comunidade. Todos conhecem as circunstâncias que levam um sujeito ao crime organizado, mas a prática não é menos odiosa – nenhuma miséria justifica a predisposição para o assassinato, senão muito mais gente estaria formando com os traficantes. Digo isso friamente, sem achar que a pena de morte ou redução da maioridade penal seja a solução pra nada – mas também não vou me compadecer da situação de alguém que acha matar um recurso válido. Quando um bandido morre em uma ação da polícia não sinto pena, mas também não me sinto vingado. Pelo mesmo motivo não senti nenhuma emoção quando a polícia francesa cercou os autores do atentado – nenhum desfecho iria trazer o Wolinski de volta, e quem quer que tome esse caminho de violência na vida entende o próprio assassinato como um revés possível do ofício. Condenar um homem-bomba à pena de morte me parece o cúmulo da inutilidade.

Outra coisa: esses caras do #jenesuispascharlie acham que só eles enxergam as implicações e desdobramentos do atentado, se acham o último farol da humanidade, ficam nas redes sociais exibindo sua pretensa sagacidade, dizendo coisas tipo”será que só eu percebo que o Sarkozy é um hipócrita quando fala em liberdade de expressão?” Não, fera, tem a maior galera que se liga nisso, mas nem todo mundo tem a manha de se aproveitar de uma tragédia pra se sentir especial. O que esses relativizadores estão fazendo é contestar luto em velório.

E pior é esse povo que fica repetindo “não teve toda essa comoção com o massacre tal”, como se fosse um campeonato de tragédia. Geralmente você vai na timeline desse pessoal e tem mais foto de almoço do que solidariedade com os oprimidos.

Agora, depois do dia 7 de janeiro, o humor tem que ser feito com limites?

Sim. O limite do humor continua sendo o da graça.

Os cartunistas mortos no atentado: Georges Wolinski, Cabu, Charb e Tignous

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Entrevista: Equipe Livre Opinião

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13 comentários sobre “Em entrevista, cartunista Arnaldo Branco fala sobre o atentado ao “Charlie Hebdo”

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  3. Como o mundo está chato por causa desses humanistas politicamente corretos! E esse Arnaldo Branco é cheio de viadagem de histerismo. “Isso é fascismo, preconceito”. Que cara afrescalhado.

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