A busca da perfeição em “Whiplash”

Whiplash_posterUma coisa fica para debate após a sessão de Whiplash: a que ponto você quer ir para ter perfeição? Sonho se torna pesadelo na vida de Andrew Newman (Milles Telles), baterista que estuda no conservatório de música de Shaffer. Tanto ele como outros colegas almejam entrar na banda do impetuoso Terence Fletcher (na brilhante e melhor atuação do ano feita por J.k. Simmons – que já ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante).

Dirigido por Damien Chazelle, o filme é uma homenagem ao jazz e os percalços que músicos tiveram para conquistar, digamos, a perfeição e domínio no instrumento que escolheram como uma ligação do corpo. No caso de Newman, a bateria é o seu instrumento fundamental para conquistar o reconhecimento. Mas como todo aprendiz há um mestre. E esse mestre está na persona mais desagradável. Fletcher rompe a barreira da conduta educacional e mostra métodos totalmente questionáveis ao conduzir sua banda.

O conflito entre Fletcher e Newman correspondem a altura dos atores. Telles conduz um personagem tímido no começo, mas que mostra sua grandeza e persistência no decorrer do filme. Além da ambição de ser o melhor baterista de sua geração, descartando até vínculos amorosos e familiares. Já Fletcher ainda segue o método do terror psicológico para tirar o máximo de seus alunos. Humilha, ironiza, arranca sangue se for preciso para conseguir a tal perfeição. Sempre bom falar novamente da interpretação de Simmons, que está fora de série. Ele incorporou o personagem e temos cada vez mais medo quando ele interrompe o ensaio para arrancar a pele de alguém. Assustador. Com certeza, a interpretaçao de Simmons entra para a lista das melhores do últimos quinze anos. Sem exagero, equilibra-se com a brilhante interpretação de Christoph Waltz em seu Hans Landa, de Bastardos Inglórios.

A direção de Chazelle é peculiar, você acompanha todo o preparo dos músicos antes do ensaio. Faz refletir a individualidade de cada um. Por se tratar de uma banda reparamos que não existe companheirismo entre eles. Newman sempre está solitário na tela, mesmo quando está no cinema com seu pai, o rosto dele passa certo repúdio daquele momento. O interesse mesmo de Newman é estar treinando, mesmo que o faça arrancar sangue das próprias mãos, ele busca a perfeição – que é exigida por Fletcher. No entanto, o que é a busca da perfeição – subtítulo do filme no Brasil – para ambos? A sequência final aponta a resposta de modo particular para esses dois personagens.

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Além dos métodos de ensino de Fletcher, que abrem discussões em relação se é a conduta certa para se extrair a “perfeição” dos alunos. Sim, insistirei na palavra perfeição, pois no filme ela é interpretada em diversas formas, solta no ar para o público debater até que ponto é preciso passar por tortura psicológica e física para tê-la.

SPOILER: No último ato, o filme fica um pouco maçante, mas não que atrapalhe o desenvolvimento do clímax que é genial. “Caravan” se torna um personagem na sequência final, possibiltando uma aproximação amena entre mestre e aprendiz, ou seja, é quando o mestre é morto – calma, no sentido figurado da palavra. O corte do filme é necessário e preciso. Não precisamos saber do desfecho, durante a execução de Caravan é apresentado, apenas pela troca de olhar – o resultado da relação entre Fletcher e Newman. Genial. FIM DO SPOILER.

Whiplash é um dos melhores filmes do ano… passado. Infelizmente as distribuições de filmes que não são blockbuster ainda prejudicam as datas de estreias. Merece muito mais indicações a prêmios, torcer para uma vaga no Oscar na categoria Melhor Filme. E, certamente, é a melhor atuação de J.k. Simmons, que já pode separar um lugar na estante de sua casa para a estatueta dourada.

Érico Mello

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