OSSOS DO OFÍDIO: Alguns Pontos de Luz

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Eu sou capaz de ler um romance inteiro, um conto até o fim, do túnel, só para ver neles a trajetória da luz. Explico: onde entra o sol, onde cai a estrela.

Ave nossa! Creio que não estou sendo claro. Melhor explicar de novo. Gosto de verificar, na escrita, onde o autor ordenou, ele, o criador: haja luz. E houve luz.

Caralho! Comecei meu primeiro artigo do ano, aqui, no LO, em plena penumbra. Que coisa mais obscura!

Vejamos, pois, na Música Popular Brasileira. Também lá eu sou capaz de ouvir discos inteiros só para sentir como se deu, na letra, a luz do sol ou o salpicar das estrelas. Com que beleza o compositor nos iluminou.

Vamos à prática.

Por exemplo, na letra da canção “Chão de Estrelas” de Orestes Barbosa. Em um dos trechos, eis: “E hoje, quando do sol, a claridade / Forra o meu barracão, sinto saudade”. Caramba! O sol “forrando” o barracão. Tem verbo mais certeiro? E continua o cancioneiro: “A porta do barraco era sem trinco / Mas a luz, furando o nosso zinco / Salpicava de estrelas o nosso chão”. Quanta precisão! E ainda, para finalizar, um dos versos mais lindos da Via Láctea: “Tu pisavas nos astros, distraída”.  O poeta Manuel Bandeira já disse, um dia, sobre esse último verso: de que ele, o autor de “Estrela da Vida Inteira”, gostaria de ter escrito tamanha delicadeza.

E eu também.

Fico e fico, repito, horas a pino lendo os livros e ouvindo as canções à procura, neles, do sol, da lua, do crepúsculo verdadeiro. Sem ser, assim, essa coisa de lugar-comum. Mas, sim, observar de que maneira o artista fez, em suas linhas, circular o dia, abrir o amanhecer, tombar o anoitecer.

“O sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações  / Do mal será queimada a semente”. Eu ouvi isso mesmo? Repeteco na agulha: “Do mal será queimada a semente”. Caramba! Verso mais do que límpido, ideia mais do que inaugural para o trabalho do sol, esse, o de cegar, ofuscar os inimigos, sempiternamente nos guiar, para dentro da alma uma explosão, permanente, de cores vivas, salve, salve, saravá!

E depois dessa composição de Nelson Cavaquinho, tem mais, apontando no horizonte, a saber: “Luz do sol / Que a folha traga e traduz / Em verde novo / Em folha, em graça / Em vida, em força, em luz”. Caetano Veloso, trazendo e tragando, em um verbo só, essa força maior da natureza. Presente, onipresente, bem sei, na pele, lá no céu do sertão: “Que braseiro, que fornalha / Nem um pé de plantação”. Até que o verde dos teus olhos se espalhe, ave, e faça a vida voltar sobre nós, luminosa.

Olha, toda uma existência para fazer um verso assim eu teria, e não faria, igual a esse de Humberto Teixeira. Mestre, ele e Luiz Gonzaga, nessa coisa de fotografar, em palavras e rimas, o nascer e morrer do sol – dos bichos e das pessoas.

“Mera luz que invade a tarde cinzenta / E algumas folhas deitam sobre a estrada”. Essa, parceria de Djavan e Orlando Morais. Aqui, tudo já se indo embora, a “água abandonada”, os “restos de sonhos sob o novo dia”.

É muita coisa, nessa tarde tempestuosa de São Paulo, que me vem em brilho ao juízo. Quando tento lembrar, de improviso, esse movimento da luz. Até em Roberto Carlos, nada a ver com Nossa Senhora, quem diria? Em uma música simples, feita em dueto com Erasmo, ele nos diz: “Fui abrindo a porta devagar / Mas deixei a luz entrar primeiro”. E o cachorro que sorriu latindo. E o nosso dia a dia, amorosamente ali, vivo, revivendo. E ressuscitando. Dolores Duran pedindo: “Quero a primeira estrela que vier / Para enfeitar as noites do meu bem”.

Lindo, lindo!

E ainda canta Chico Science para eu ouvir, e acordar, sempre: “O sol nasce e ilumina as pedras evoluídas / Que cresceram com a força de pedreiros suicidas”. Uma cidade inteira, nas rimas de Chico, que “não para, a cidade só cresce / O de cima sobe e o de baixo desce”.

Esse sobe-e-desce, desde o início do mundo. No Brejo da Cruz, de um outro Chico, o Buarque, ainda vemos, nítidos, o bando de meninos famintos e nus “se alimentar de luz”.

Eta danado!

Uma noite dessas, eu terei menos preguiça e avançarei fundo neste meu olhar. Com a íris menos cansada. Até para citar nos livros, onde, para mim, os parágrafos fazem esse milagre poético/estético.

Aliás, isso se dá em um romance, de cabo a rabo. Digo do clássico “A Paixão”, do português Almeida Faria. O livro, de 1965 e recém-relançado pela Cosac Naify, é dividido em três partes: Manhã, Tarde e Noite. E, para cada parte, um verbo, uma frase, segue ganhando cor, vida, tamanho único. Almeida usa as palavras para ir girando, elas, entre elas, os acontecimentos do cotidiano – em torno de nós, a vida.

É essa, na verdade, a minha eterna procura.

E viva!

marcelinofreire

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