Daniela Lima: “Escrever é propor um jogo que depende da generosidade e engajamento do outro para acontecer”

Daniela Lima

Daniela Lima

A escritora Daniela Lima gravou um vídeo em que lê trecho de seu novo livro A Mulher Vencida, com previsão de lançamento para o segundo semestre deste ano.

Daniela Lima é escritora e pesquisadora do Laboratório de Filosofias da Alteridade (Instituto de Filosofia-UFRJ), autora de Anatomia (Multifoco, 2012) e Sem importância coletiva (e-Galáxia, 2014). Coordena o coletivo feminista Jandira.

A escritora conversou com o Livre Opinião – Ideias em Debate sobre seu novo livro: “é sobre desigualdade de gênero: a mulher já nasce vencida na estrutura perversa em que vivemos”. Ela também falou sobre o processo criativo na elaboração de seus romances: “meus textos acabam tendo uma continuidade, não só pela forma, mas também por um forte desejo de confrontar a realidade”.

Em relação à literatura de autoria feminina – e aqui o LOID faz um mea culpa pelo termo erroneamente utilizado em uma das perguntas -, Daniela brilhantemente explicou: “Detesto esse termo “literatura feminina”, já que determina um lugar para a mulher. Reflete o estigma de que a mulher escreve sobre questões particulares e o homem escreve sobre questões universais”. Além disso, a escritora falou sobre o Coletivo Feminista Jandira: “É um espaço de acolhimento (recebemos mulheres que foram vítimas de violência e fazemos encaminhamento para atendimento psicológico e jurídico), ativismo e de pensar o feminismo sem limites estabelecidos por uma determinada vertente do pensamento feminista”. Confira a entrevista na íntegra.

Conte-nos sobre seu novo livro A Mulher Vencida. Qual a temática abordada? Por que a escolha do trecho do livro para o vídeo? Você tem uma previsão de lançamento do livro?

O livro é sobre desigualdade de gênero: a mulher já nasce vencida na estrutura perversa em que vivemos. Por isso, não podemos aceitar a penas a incorporação a esta ordem, mas a sua transformação profunda. O livro é uma adaptação de relatos reais sobre como somos vencidas nos processos de socialização. Cada capítulo aborda um tema: família, trabalho, academia, política, entre outros. É também uma tentativa de mostrar como aquilo que nos constitui enquanto mulheres é brutalmente imposto, de maneira que a nossa identidade se confunde àquilo que nos é apresentado como feminino. Não por acaso, Lacan dizia que socialização é alienação. Escolhi este trecho porque é a abertura do livro, do capítulo A Felicidade da Mulher, onde questiono quem define aquilo que constitui a felicidade da mulher. Vai ser lançado no segundo semestre de 2015.

O que você aprendeu com os seus últimos livros e que em A Mulher Vencida te ajudou a escrevê-lo? Há certo envolvimento com os outros livros?

Os meus textos acabam tendo uma continuidade, não só pela forma, mas também por um forte desejo de confrontar a realidade. Por esse desejo de que a literatura (não só a minha) seja capaz de inspirar novas formas de estar no mundo. Escrever é propor um jogo que depende da generosidade e engajamento do outro para acontecer. É o leitor que faz um livro passar à existência objetiva. E eu gostaria muito que os meus livros existissem como bandeiras que tremulassem na mesma direção.

Suas influências vão além da literatura? Ela passa também pela Filosofia, campo em que você é pesquisadora?

Quando escrevemos, ainda que não sejam textos literários, somos influenciados por todos os discursos e vivências anteriores. É sempre um acúmulo. Então, quando escrevo, estou refletindo o fato de ser mulher, militante política… Aliás, Badiou diz que um filósofo precisa ser amante da poesia, um militante político, mas também deve assumir que o pensamento nunca é dissociável das violentas peripécias do amor. Acho que o lugar do escritor é bem próximo deste.

A seu ver, como está a literatura feminina atualmente? E as escritoras brasileiras estão tendo visibilidades no mercado editorial?

Então, foi bom você perguntar, porque detesto esse termo “literatura feminina”, já que determina um lugar para a mulher. Reflete o estigma de que a mulher escreve sobre questões particulares e o homem escreve sobre questões universais. Justamente por isso, não existe literatura masculina. Até neste lugar é perceptível a desigualdade de gênero. Justamente por isso, escritoras que se querem universais acabam dizendo que escrevem “como homem”. É uma tentativa de negar o próprio lugar de fala. Não, ainda temos pouca visibilidade. Citando números: na última FLIP, dos 44 autores convidados, apenas 7 eram mulheres. E isso suscitou o movimento #kdmulheres.

Realmente o termo é detestável. Você citou um ótimo exemplo que foi o movimento #kdmulheres, que aconteceu na Flip. Existem outros movimentos? Há poucos convites em outras  feiras também?

Existem muitas iniciativas, o leia mulheres 2014, que incentivava a leitura de escritoras, por exemplo. A editora Kayá, voltada à publicação de mulheres. Na falta de convites, existem um movimento cada vez maior das mulheres criarem espaços de debate, meios de publicação e eventos de divulgação.

E você, qual o espaço que utiliza para a divulgação de seu trabalho literário?

Redes sociais e as revistas para as quais escrevi: Carta Capital, Revista da Faperj, The Buenos Aires Review, entre outras.

Você pode nos contar um pouco sobre o Coletivo Feminista Jandira?

O coletivo é um espaço de acolhimento (recebemos mulheres que foram vítimas de violência e fazemos encaminhamento para atendimento psicológico e jurídico), ativismo e de pensar o feminismo sem limites estabelecidos por uma determinada vertente do pensamento feminista. Algumas de nós são militantes do PSOL, essa ponte institucional é determinante para que possamos articular em situações graves, como a prisão da Mirian França. Pudemos contar com companheiras e companheiros que militam no Ceará e se dispuseram a ajudar, quando a questão chegou ao partido.

Entrevista: Equipe Livre Opinião

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