Dez anos sem o poeta cabo-verdiano Manuel Lopes

manuel-lopes-jovemHá dez anos, no dia 25 de janeiro, falecia o poeta e ficcionista cabo-verdiano Manuel Lopes. Fundador da literatura moderna de Cabo Verde, Lopes também foi importante como ensaísta, colocando em foco as agitações culturais de sua época. Cofundador da revista “Claridade”, suplemento cultural para a emancipação literária do país e, também, do surgimento de novo movimento intelectual cabo-verdiano.

Em sua obra, Manuel Lopes escreveu sobre as temáticas da seca, calamidade e a violência. Explorou a cultura do país em seus poemas, contribuindo para o registro da tradição cabo-verdiana.

Publicou durante a carreira Poemas de quem ficou (Açores, 1949); Chuba Braba, novelas (Lisboa, 1956); O galo cantou na baía (uma novela e quatro contos; Lisboa, 1959); Os flagelados do vento leste (romance; Lisboa, 1959); Crioul.o e outros poemas (Lisboa, 1964).

Em homenagem a Manuel Lopes, o Livre Opinião – Ideias em Debate selecionou cinco poemas desse mestre da literatura.

A GARRAFA

Que importa o caminho
da garrafa que atirei ao mar?
Que importa o gesto que a colheu?
Que importa a mão que a tocou
— se foi a criança
ou o ladrão
ou filósofo
quem libertou a sua mensagem
e a leu para si ou para os outros.

Que se destrua contra os recifes
eu role no areal infindável
ou volte às minhas mãos
na mesma praia erma donde a lancei
ou jamais seja vista por olhos humanos
que importa?
… se só de atirá-la às ondas vagabundas
libertei meu destino
da sua prisão?…

CAIS

Nunca parti deste cais
e tenho o mundo na mão!
Para mim nunca é demais
responder sim
cinquenta vezes a cada não.

Por cada barco que me negou
cinquenta partem por mim
e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!

Mundo pequeno para quem ficou…

SONETO À LIBERDADE

Primeiro tu virás, depois a tarde
com terras, mares, algas, vento, peixes.
trarás, no ventre, a marca das idades
e a inquietude dos pássaros libertos.

virás para o enorme do silêncio
— flor boiando na órbita das águas —
tu não verás o fúnebre das horas
nem o canto final do sol poente.

primeiro tu virás, depois a tarde
sem desejos e amor. virás sozinha
como o nome saudade. virás única.

eu não terei a posse do teu corpo
nem me batizarei na tua essência,
mas tu virás primeiro e eu morro livre.

POSTAL

deste lado da ilha
o cais e a cidade velha
datam de muito tempo,
mas a cidade é um poema

não cresceu. é sempre a mesma.
todos os dias igual:

o mesmo outeiro da cruz
desterro, fontes e fortes
igrejas, lendas, sobrados
estreitas ruas, mirantes
portões, sacadas de ferro
poetas, becos, telhados
serestas, maledicência
saveiros, pregões de rua
cantaria, mal-amados
rios (chão, templo e canteiros)
de peixe e palafitados)
ladeiras, moças bonitas
recato e amor nas janelas
casarões azulejados.

cidade em traje a rigor
vestida à colonial
meu mundo, meu porta-jóias
meu bem, meu cartão postal.

brisa de maré vazante
sem similar no país.
quietude pousada na água
caminhos feitos de história.

gente vem ver São Luís!

A PALAVRA

te lavo e lavro
palavra / pão
polida pedra
de construção

do quanto faço
deste edifício
em que elaboro
fé e ofício,

te esculpo e bruno
verbo/canção
no diário labor
de artesão.

te louvo lume
e pedra d’ara
com que ergo o templo
da flor mais cara

e clara: poesia
com que reparto
os sóis do meu dia
o suor do meu dia
o fel do meu dia

as mazelas do homem
as amargas vidas
o pão subtraído
as pagas devidas

a paz relativa
a justiça rara
a fome de todos
a morte na cara
da criança. o aço
que o corpo nos cava,

a fé o cansaço
desta luta brava

a fartura a poucos
de muitos tomada

o chão proibido
a água negada

o amor que rareia e
a festa sonhada

……………………………….

palavra larva
semente pura
que em mim explodes
de sons madura,

te lavo e lavro
verbo / canção

te louvo lume
poema / pão

manhã sonhada
meu sim/meu não.

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