Xico Sá: “Triste de quem se leva a sério ao ponto de não ser protagonista da autopiada que é existir”

Xico Sá (Foto: Divulgação)

Xico Sá (Foto: Divulgação)

“Dizem que sonhar voando é o momento em que estamos crescendo. Já me medi depois de um sonho desses e vi que faz todo sentido do mundo. Até marquei na parede o meu tamanho. Tomara que faça sentido também essa história de que orelha de abano é sinal de vida longa. Estarei feito. É só reparar nas fotografias dos meus avós, uns matusaléns, uns cágados, uns Tutancâmons, uns jabutis que escondem milhões de crepúsculos debaixo dos cascos.” (Big Jato, p. 104, 2012, Companhia das Letras).

O jornalista, escritor, cronista, repórter e comentarista esportivo Xico Sá é um artista múltiplo. Nascido em Crato, no Ceará, Xico jamais abandonou as raízes agrestes e com um estilo próprio fez de seus textos uma referência de humor e originalidade na Literatura Brasileira.

Na entrevista ao Livre Opinião – Ideias em Debate, o autor conversou sobre os gêneros em que atua e qual tem vontade de experimentar: “Falta tanta coisa. Principalmente um bom livro de reportagem, na linha do que chamam de jornalismo-literário”. Com propriedade, ele falou como está a área do Jornalismo, em que trabalha há tantos anos: “Acredito no repórter, na grande narrativa que só um repórter tarado por contar uma boa história é capaz”.

Em relação a Big Jato (Companhia das Letras, 2012) – que será adaptado para o cinema -, Xico explicou a elaboração do romance e da comparação com o Brasil: “Aquele limpa-fossa é metáfora do país na visão de um homem do interior”.

Considerado um dos maiores cronistas brasileiros, Xico respondeu sobre a liberdade de expressão logo depois dos atentados à redação do jornal satírico francês Charlie Hebdo: “O episódio do Charlie – porra, amava o Wolinsky e o publiquei muito nos jornaizinhos que cito ai – só vai encorajar mais ainda essa luta pelo direito de publicar ou dizer qualquer coisa”.

Xico contou se voltaria a escrever na Folha de S. Paulo, após a sua polêmica saída: “Dependendo do carinho da cantada e da liberdade readquirida –foi lá que mais tive livre escrita dos grandes veículos que me empregaram- poderia voltar sim, não guardo rancor algum.”

Para não alongarmos, nada melhor do que passar a palavra – ou as palavras – para Xico Sá.

Xico começou publicando poesia, já publicou romance, crônica, etc. Qual gênero ainda falta? Qual gênero você gosta mais? E o poeta Xico, tem chance de voltar?

Falta tanta coisa. Principalmente um bom livro de reportagem, na linha do que chamam de jornalismo-literário. A minha versão (risos) Trumman Capote do agreste. Tenho fome de viver. O poeta vai voltar em breve com um livro de haicais.

E o jornalista Xico, conseguiu se salvar? Acredita no neojornalismo? Ou não tem neo que se salve?

Acredito no repórter, na grande narrativa que só um repórter tarado por contar uma boa história é capaz. Faço fé nessa figura obsessiva, mesmo sabendo que esse tipo de profissional está em baixa no momento – preferem os funcionários que simplesmente correm atrás pra justificar as teses dos chefes de reportagem.

Xico no jornal, Xico na rede, Xico na TV, Xico no livro – de qual desses Xicos você se sente mais à vontade?

Ainda acho estranho na tevê. Nunca vi nada que faço. Amo “ao vivo” por não ter nem que ver depois. Mesmo os programas gravados, passo longe, mudo de canal quando aparece uma simples chamada. Muito estranho me deparar com essa assombração. Também nunca gostei, por exemplo, de tirar entrevistas gravadas, por não lidar bem com a própria voz. Na escrita não, leio, releio, condeno meu próprio texto e também lambo a cria quando sinto prazer do texto, da frase, da linguagem –independentemente do conteúdo. Minha tara é pelo jeito que se diz. Mais do que pelo que se diz.

No romance, sua oralidade é singular, nota-se na narrativa de Big Jato. De onde vem a fala de Xico Sá? Para você, o Brasil é um Big Jato?

Um gigante Big Jato. Aquele limpa-fossa é metáfora do país na visão de um homem do interior. Minha voz, na escrita ou na fala, vem da prosódia nordestina, que flerta com o barroco, com a sátira, com o escárnio, com a arte do maldizer e, principalmente, como a tiração de onda consigo mesmo –triste de quem se leva a sério ao ponto de não ser protagonista da autopiada que é existir.

E a adaptação para o cinema de Big Jato?

Rapaz, fui lá no set e nas locações, no interior de Pernambuco, só para beber a cachaça de sempre com os amigos envolvidos com o filme. Deixei o Claudio Assis (diretor) e os roteiristas (Anna Francisco e Hilton Lacerda) totalmente livres para fazer o que bem entendessem. O lindo é essa leitura e compreensão que tiveram do livro. Big Jato já é uma autobiografia delirante, uma mentira sobre mim mesmo –para usar um Freudzim-, então eles que se virassem para refazer esse delírio. Eu boto fé porque confie em caras que fazem o melhor cinema do Brasil.

Em O Livro das Mulheres Extraordinárias você faz um “perfil” de 127 mulheres. Qual perfil foi mais delicado e qual foi o mais tranquilo de ser elaborado?

Os mais difíceis foram os das mulheres que amei de verdade, das mulheres com as quais me relacionei como homem, na rotina, na felicidade e na desgraça (risos). Casos, por exemplo, de Antonia Pellegrino, Rita Wainer e Branda Lígia, para ficar somente em três amadas. Com as musas da tv, do cinema, das artes, foi moleza.

O cronista sempre trabalhou junto com a liberdade de expressão, mesmo que tenha dificuldade em publicar alguns textos, você sabe muito bem disso. A seu ver, o que muda no jornalismo depois do atentado ao Charlie Hebdo?

Peguei o final da censura no Brasil, comecinho dos anos 80, mesmo assim senti o que é ter pequenos jornais, panfletos poéticos e livros de mimeógrafo sendo apreendidos. Além da gente perder as publicações, ainda sobrava umas dormidas na cadeia. Sou a favor da plena e total liberdade de expressão. O episódio do Charlie – porra,amava o Wolinsky e o publiquei muito nos jornaizinhos que cito ai- só vai encorajar mais ainda essa luta pelo direito de publicar ou dizer qualquer coisa. Seja sobre Buda, Maomé, Jesus Cristo ou meu Padim Ciço.

Se a Folha convidar você para voltar, você volta? Ou, para Xico, o caminho só é em frente?

Já fui e voltei em várias publicações da “imprensa burguesa”, como eu trato ironicamente, retomando um chavão genial dos tempos de política estudantil – tem gente que leva a sério e briga comigo por este uso (risos), mesmo sabendo que uso a palavra burguês no sentido da França pós-revolução. Dependendo do carinho da cantada e da liberdade readquirida – foi lá que mais tive livre escrita dos grandes veículos que me empregaram- poderia voltar sim, não guardo rancor algum. Só não acho legal é permitir que alguns colunistas da linha pitbull declarem voto –melhor, declarem subserviência e amor explícito a algum candidato- e outros não. Isso não é bom para ninguém, como observou a própria ombudsman do jornal. A minha crônica da confusão só dizia isso: por que não fazer como os jornalões americanos e declarar voto, para jogar limpo com os leitores? Só isso. Dilma ou não Dilma era o de menos. Ademais era uma crônica de futebol, quem liga?

Você publicou um livro pela Terracota em que você dá dicas a quem pretende escrever crônicas. Pode ser dizer qual é a principal delas?

É um livro como se fosse uma pequena oficina, oficina de bolso, para jovens iniciantes. Creio que a principal dica seja a de que a gente pode tirar uma crônica de qualquer assunto ou pequeno acontecimento. De tratar a crônica, o gênero mais lido no Brasil, como um prato feito, um PF de boteco da literatura.

Entrevista: Equipe Livre Opinião

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