A Hora de Florbela Espanca

literaticesjorgevalentim

Na coluna anterior, de janeiro, havia chamado a atenção para as efemérides de 2015, sobretudo, a que se destinam às comemorações do Centenário da Geração de Orpheu, responsável pelo boom modernista em terras portuguesas. Temas, aspectos artísticos e culturais, movimentações vanguardistas, publicações em periódicos e circulação de saberes acabam vindo à tona, na ânsia celebrativa de uma época responsável pela consolidação da Modernidade em terras d’Além Mar.

Em Portugal, é claro, todas estas incidências passam a ser resgatadas, não só para relembrar as conquistas revolucionárias dos homens de Orpheu, mas também para dar visibilidade a outros nomes que, com uma postura movida pelo desejo de modificação diante de um estado de marasmo e mesmice, optaram pela escrita rasurante, ainda que, não abertamente, tenham “vestido a camisa” (como se costuma popularmente dizer) do espírito vanguardista de um Fernando Pessoa ou de um Almada Negreiros, por exemplo.

Se 2015 é o ano de celebrar a poética de Orpheu, não menos também é o de recuperar uma época marcante com o início da carreira singular da autora de Trocando olhares. Obra de publicação póstuma, o título reúne os poemas escritos por Florbela Espanca, de 1915 a 1917. Graças ao trabalho cuidadoso de Maria Lúcia Dal Farra, professora e investigadora brasileira, uma das ensaístas mais respeitadas da obra de Florbela Espanca, esta obra pode vir à público, em 1994, pela chancela da Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Trata-se de uma reunião dos textos iniciais e germinadores da veia feminina avant guarde da “alentejana livre” (como a chamou, certa vez, Óscar Lopes).

Figura controversa pela sua maneira de ver o mundo, absolutamente desapegada de regras e moldes cerceadores, Florbela Espanca (1894-1930), mesmo depois de morta, não deixou de ser rainha. O mote é proposital, é claro, porque, diante dos olhares suspeitos e rançosos de uma crítica mordaz e atrelada a estatutos morais sob o signo da hipocrisia, a imagem da escritora ficou fadada a um silenciamento inexplicável. Rompendo essa barreira entediante, José Régio e Jorge de Sena, dois dos mais respeitados ensaístas portugueses, retiraram Florbela do reino das sombras, em 1946, com dois ensaios que, até hoje, são referências obrigatórias para o estudo da poética florbeliana: “Sobre o caso e a arte de Florbela Espanca” e “Florbela Espanca ou a expressão do feminino na poesia portuguesa”, respectivamente.

Atravessando o século XX e depois, a figura enigmática desta autora não abandonou a pauta das reflexões acadêmicas. Seja no âmbito do ensaio (artigos, dissertações e teses), seja no âmbito artístico-cultural (biografias, romances sobre a sua trajetória, películas cinematográficas e peças), Florbela continua reinando absoluta. E um dos momentos singulares em que é possível perceber as muitas faces e máscaras que esta escritora desenvolveu encontra-se no espetáculo teatral “Florbela Espanca: a hora que passa”.

Com uma reunião de textos de autoria da poeta portuguesa, o espetáculo é assinado pela direção de Fábio Brandi Torres e pela performance (arrebatadora, diga-se de passagem) de Lorenna Mesquita. Muito simples na sua concepção – o cenário possui apenas uma cadeira, dois abajures e uma mesa, com uma caixa de jóias –, a peça desenvolve-se com a atriz em voz solo, apresentando e desenhando as facetas da personalidade da escritora, a partir dos seus versos e de sua concepção de mundo.

Longe de querer dar a conhecer uma Florbela, apenas autora de versos amorosos, o ouvinte já entra no espaço do teatro com a presença da poeta no palco. A princípio, poderá conjecturar que se trata de um aquecimento ou de um simples jogo de cena. Ledo e salutar engano. Na verdade, parece que o espectador tem diante de si a primeira impressão da personalidade a ser apresentada: paira, já em primeira mão, uma Florbela inquieta, inconformada e marcada pelo desassossego, mas que, em momento algum, desvia o olhar daqueles com quem precisa conviver, ou se lança numa postura cabisbaixa ou de recusa da sua realidade. Encara a todos de frente, sem titubear. Artimanha muito bem urdida do diretor que, me parece, não se afasta daquela Florbela, descrita por José Ferreira Gomes, em Relatório de sombras ou A memória das palavras II (1980):

Prefiro saltar estes últimos trinta anos de complicações de fogo e fumo e voltar para trás até o momento do meu encontro com Florbela (talvez em outubro de 1918), exatacmente no dia em que me apupavam como caloiro na Faculdade de Direito de Lisboa com as praxes do costume.
Formaturas, calças arregaçadas, discursos parvos, bailados com os casacos do avesso… E por fim, a derradeira cerimónia do ritual: o corte do cabelo.
Um dos carrascos, o João Botto de Carvalho, abeirou-se com passos solenes, brandiu a tesoura e, quando me cortava o caracol simbólico, intimou-me:
– Vai entregar o caracol àquela senhora. De joelhos!
No banco do átrio, sentada ao lado de José Schmidt Rau, meu condiscípulo de sempre e poeta que, a certa altura, se envergonhou de fazer versos, lobriguei então uma rapariga.
Florbela.
Descansem que não vou agora descrevê-la com palavras de cor. Lembro-me lá das feições reais da Florbela!
Por mais que me concentre só me recordo dum pedaço de neblina, onde colo (ora um, ora outro…) todos os rostos e vestidos que lhe conheço dos retratos.
Talvez nesse dia trouxesse aquele vestidinho de mangas pelos cotovelos, flores no peito, gola justa ao pescoço, cabelo em despenteio de bandós na testa…
Talvez. Não sei…
Só sei que caí de joelhos aos pés da Florbela, a oferecer-lhe o caracol… Só sei que ela me fixou com o tal desdém terrível nos olhos e na boca. Um desdém marcado de alma funda. Um desdém por mim, pelos cabelos, pelos homens e pelas nuvens. Um desdém de atirar tempestades para o céu! Um desdém que mais tarde extravasou para os sonetos, inundou a terra, gelou o sol, estrangulou a lua… Um desdém de acabar o mundo! Um desdém de “amar! Amar! E não amar ninguém!”.
Depois… Depois, pronto. Mais nada. (1980, p. 50-51).

Este retrato do poeta Gomes Ferreira constitui uma das descrições mais singulares de Florbela Espanca. Primeiro, porque não canta uma senhorinha delicada e de gestos subservientes a uma ordem masculinista (basta lembrar que, em 1918, ela se encontrava no meio de uma faculdade de direito!). Segundo, porque a Florbela delicada e delirante, espécie de lugar-comum fadado ao comportamento feminino da época, cede lugar a uma Florbela contundente e de olhar firme, de quem expecta o mundo de cima para baixo e não o contrário, como se poderia esperar de uma mulher bem comportada para os moldes das décadas iniciais do século XX.

O desdém desta mulher, inserida num espaço predominantemente masculino, desperta a atenção do poeta. E não será errado afirmar que esta também parece ser a máscara em evidência na performance que dá Lorenna Mesquita. A Florbela conventual lá está, a sofrida e a inconformada também comparecem e a inquietação e a descompostura diante de regras pré-estabelecidas povoam a sua personagem. Mas, não só. A sedutora em busca do seu prince charmant, a vaidosa diante dos colares e das jóias, enfim, a erótica que anseia a liberdade de amar sem peias ou rédeas – a mesma de “Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui… além…” – não são esquecidas pela sua intérprete.

O espectador, portanto, logo percebe que a hora de Florbela Espanca – como o título da peça bem indica – não pode ser resumida ou concentrada numa dimensão homogênea ou pacífica. Muito pelo contrário, quanto mais o tempo do espetáculo passa, mais as máscaras vão se adensando, e uma vai se sobrepondo a outra, a ponto mesmo de já não mais conseguirmos definir qual é a Florbela que se apresenta: a intimista? A isolada? A infeliz? A delicada? A feroz? A apaixonada? A sofrida? Todas elas, na verdade, num jogo dramático intenso e tenso.

Aqui, acredito que o mérito seja exatamente da atriz Lorenna Mesquita, ela, também, leitora sensível de Florbela Espanca, que foi buscar em outras fontes, para além da originária do espetáculo, nos versos da autora de Charneca em flor, alguns dos registros biográficos e ensaísticos da e sobre a escritora do Alentejo. Leitora de Florbela, mas também de Agustina Bessa-Luís (Florbela Espanca, 1979), de Jorge de Sena e de José Régio, Lorenna consegue desenvolver um monólogo sem cansar ou deixar os olhos pestanejarem. A sequência e o enjambement entre os textos escolhidos da produção florbeliana são muito bem conseguidos, de tal modo que a hora que passa diante do retrato desta Florbela se constitui uma hora de doação total e completa. Doação da atriz que mergulha fundo no universo conturbado e caleidoscópico da escritora; doação da personagem dramática que vai desfiando e desvelando máscaras sobre máscaras; e doação também do expectador que não consegue ficar impune diante das revelações que lhe vão sendo feitas.

Um aspecto interessante nesta peça fica por conta do figurino. É claro que a Florbela do fim-de-século XIX e das décadas iniciais do século XX não chegou a ousar na sua indumentária, utilizando um vestido na altura do joelho, como opta a direção e a atriz na apresentação da personagem. Mas, seria de um purismo ortodoxo acreditar que aquela Florbela é a Florbela. Ainda que não concorde com este aspecto – e basta consultar as fotografias da época para entender a minha reserva –, é preciso respeitar a opção dos responsáveis pelo espetáculo, que entenderam que qualquer tentativa de dar conta de uma figura enigmática, como foi a da autora de Livro de Sóror Saudade, seria inútil. Captada a partir de um recorte, Lorenna e Fábio apostam em uma Florbela, numa personagem, persona dramática, melhor dizendo, retirada dos seus próprios textos, e não na personalidade histórica que existiu nas décadas contemporâneas dos homens de Orpheu e presença.

Se o cumprimento do vestido não chega a corresponder fielmente ao retrato esperado daquela poeta das décadas iniciais do século XX, a cor preta do tecido, as jóias, as pérolas, os brocados e o cuidado na manutenção de um visual feminino, sedutor e elegante lá comparecem para corroborar a hora desta Florbela. Sofrida, desassossegada, vaidosa, sensual e sedutora são algumas das máscaras desta Florbela teatralizada.

Para quem não teve a oportunidade de assistir, vale a pena conferir este belíssimo e sensível espetáculo, homenagem mais que merecida a uma escritora que, durante muito tempo, se viu relegada ao espaço do esquecimento. Não por desmérito dos seus escritos, é claro, mas pela pequenez e hipocrisia que contaminaram (será certo conjugar esta sentença no passado? Não sei, mas fica, aqui, a esperança…) determinados setores da Academia que não conseguiam engolir aquela postura arrogante e marcante de quem se vê como a “Poetisa eleita”, ou, ainda, “Aquela de saber vasto e profundo / Aos pés de quem a terra anda curvada!” (“Vaidade”. Poemas. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 132).

Por fim, aquela sensação descrita pelo poeta José Gomes Ferreira, afinal, não era fruto de uma impressão falha. Ter o mundo aos seus pés e encará-lo na sua condição com um desdém de ser superior pareciam mesmo ser atitudes e desejos daquela Florbela Espanca. Felizmente, há, ainda, hoje, quem aposte nos gestos fortes e pragmáticos da “alentejana livre”. Esta, parece-me, é a maneira mais convincente de perceber a hora de Florbela.

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Florbela Espanca (Foto: Divulgação)

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