Em entrevista, escritora Isadora Krieger fala do romance “Memória da Bananeira”

Isadora Krieger (Foto Carolina Krieger)

Isadora Krieger (Foto Carolina Krieger)

Poeta e escritora, Isadora Krieger mergulhou pela primeira vez no romance. Publicado em novembro do ano passado, Memória da Bananeira (Carniceria Livros) é um interessante texto que desconstrói o padrão literária e fornece originalidade na linguagem e enredo, tornando-se um livro único e experimental para os leitores de sua geração.

Nas palavras de André Sant’Anna, que assina a orelha do livro: “Memória da Bananeira é um livro de non sense afetuoso, de crítica política, indagação filosófica, experimentação formal e a caríssima emoção do pensamento único de uma autora única. Isadora Krieger é uma espécie de Campos de Carvalho, só que dotada de um grande coração, uma maluca cheia de consciência, que bota o amor na vanguarda”.

Em entrevista ao Livre Opinião – Ideias em Debate, Isadora contou sobre o processo de elaboração de Memória da Bananeira, da linguagem do romance e dos projetos alternativos em que atua. Ela também comentou do exercício lírico de sua poesia – O Gosto da Cabeça, na coleção Poesia Menor, e Caráter Anal, na antologia Boca Santa (Carniceria Livros) – e as influências artísticas na construção de Memória da Bananeira. Confira a entrevista na íntegra. Leia também, no final da matéria, um trecho do romance.

Para você, o que vem primeiro: A história ou a linguagem?

Não é sempre igual. Na Memória da Bananeira a história e a linguagem apareceram quase que coladas. A linguagem sempre se adapta a história, ao que o personagem tem a dizer, independentemente do que vem primeiro. Eu descubro a forma que o faça se sentir à vontade, que incentive o personagem a contar tudo. No Caráter Anal – história que escrevi para a antologia Boca Santa – aconteceu algo curioso, a Idivilna era a única personagem que se recusava a falar, eu escrevi o seu depoimento diversas vezes, porque sabia que ainda não era ela. Até que outros personagens da história, Os Seus Semelhantes, fizeram uma pergunta à Idivilna e a moça deu o ar da graça, respondeu. E eu pensei: É ela! Agora você não me escapa (risos).

Você também é estilista. Acha que o melhor figurino para uma boa história é a linguagem que se usa?

Eu não sou mais estilista não, fechei a minha marca em 2009. E sim, acho que o melhor figurino para uma boa história é a linguagem. Mas uma boa história precisa mais do que um figurino, precisa também de corpo e de essência. Senão vira manequim de vitrine, e eu prefiro história que respira.

Intimamente para Isadora, quem você se apegou mais: Gioconda Lívida de Existência ou Genésio do Peito Genuíno?

Me diverti e me comovi com os dois. Amo o sarcasmo da Gioconda e a coragem do Genésio. Gosto muito dos outros personagens também. Talvez o meu preferido seja O Vizinho que Igualmente É Triste. Na semana passada vi um homem sentado na calçada do lado de um buraco, à noite, a britadeira estava desligada. Voltei pra casa viajando naquela cena, por segundos senti a presença do Vizinho ali. Algo parecido acontece com alguns leitores, uma amiga disse que depois da Bananeira, toda vez que vê um britador pensa no Vizinho que Igualmente É Triste. Outro amigo me escreveu: “De Daminha de Unha Francesinha todo mundo tem um pouco, ou um poucão.” A identificação com um personagem é uma das coisas mais interessantes da literatura.

Quando e como veio a ideia de Memória da Bananeira ser um romance epistolar? Você ainda escreve cartas em plena era de Face, Twitter e outros meios mais imediatos de comunicação?

Comecei a escrever a Memória da Bananeira em dezembro de 2011. A ideia inicial era fazer um livro com textos que estavam guardados, prosa e poesia. Um destes textos era uma pequena troca de bilhetes entre a Gioconda e o Genésio. Só que os dois logo ganharam tanta força que os bilhetes viraram cartas. E eu percebi que o livro era uma espécie de romance epistolar.

É bonito trocar cartas, tem outra dimensão de intimidade, que não acontece na internet. Mas não dá tempo, até e-mails longos escrevo pouco. Acho impressionante como antigamente os artistas mantinham trocas intensas de cartas. Hoje temos apenas o imediato, perdemos outros aspectos do tempo. Sabe quando estamos numa cidade do interior e o tempo parece passar mais devagar? Este é um aspecto do tempo que perdemos, em lugares como São Paulo, onde se passa a maior parte do dia conectado, respondendo e-mails, pensando em dinheiro, no trânsito, indo e voltando do trabalho, enfim, esta arapuca toda. Conheço pessoas que ficam três dias, quatro dias sem dormir, porque precisam ter dois trabalhos e emendar um no outro, imagina a saúde como fica, física e mental. Uma moça que trabalha num restaurante perto de casa me contou que está com depressão, porque não tem tempo para ficar com a família. Eu sou a favor da redução da jornada de trabalho. A gente precisa de tempo para se divertir, estudar, contemplar, refletir. Dizem que o trabalho enobrece o homem, eu acho que o ócio enobrece mais.

Nota-se uma influência, em sua prosa, do escritor André Sant’Anna. Inclusive, ele assina a apresentação do seu livro. André está mesmo presente em sua Memória?

Está sim, por uma daquelas vias misteriosas. Logo que comecei a conhecer os personagens da Bananeira conversei com um amigo e ele disse que o André fazia algo parecido. Neste caso ele estava se referindo aos nomes dos personagens, nomes compostos, atípicos. Só que eu não conhecia o André e nem a sua literatura. Mais tarde o André se apresentou com a sua banda Sons e Furyas no Cabaret Revoltaire, um projeto de experimentações artísticas que eu fazia com o Daniel Minchoni. O André leu um fragmento fortíssimo do seu primeiro livro, o Amor. E o André lê de um jeito que potencializa o texto, desloca a gente, é o tipo de coisa que você escuta e quando termina pensa: Caralho, preciso fumar um cigarro. Antes de enviar a Bananeira às editoras senti necessidade da opinião de um escritor mais experiente e procurei o André. Ele foi muito generoso, leu os originais, me deu força e escreveu a apresentação.

Você está sempre ligada a projetos alternativos, editoras artesanais, pequenos selos. É vocação ou sonha em estrear, um dia, em uma grande editora? E como está o mercado editorial para as autoras? Ainda há obstáculos e preconceito?

“Ela é bonita, e até escreve bem. Ela escreve feito um homem. Isso é jeito de mulher escrever? Ela tem uma escrita feminina, passional. Gostei da tua poesia, vamos conversar sobre uma publicação e tomar um vinho?” Se as mulheres ainda escutam coisas deste tipo, é porque há obstáculos e preconceito sim. Está incrustado na sociedade e emporcalha tudo. Quanto ao meu envolvimento com projetos alternativos é aquela velha história, quando não nos encaixamos nas convenções a única alternativa é abrir novos caminhos. Ou ficar esperando. Mas eu nunca fui uma pessoa conformada, disposta a esperar eternamente pela resposta do que está aí estabelecido. Mandei o original da Bananeira para editoras grandes e a única que respondeu foi a Rocco, com um e-mail eletrônico. Na época, “coincidentemente”, eu estava lendo O Castelo, do Kafka (risos). O que salva é que encontramos alguns curiosos, dispostos a apostar e a trabalhar na nossa loucura. Foi assim com o Luis, o meu editor, da Carniceria Livros. A gente já tinha trabalhado juntos na Boca Santa. Deu muito certo a nossa parceria. Faz toda diferença trabalhar com alguém que acredita no teu texto, que dá a atenção necessária, que está realmente interessado em tornar o livro melhor, em fazê-lo acontecer. O que me interessa numa editora grande é a possibilidade – nem sempre é o que acontece – de ver os meus livros nas livrarias, mais distribuição, mais divulgação, mais leituras, mais vendas, mais convites, etc., etc. Mas não dá para trocar a alma por isto, ser incoerente. Eu acho o seguinte, em primeiro lugar está a relação com o teu texto, que precisa ser honesta sempre, desde a criação até o lado prático.

Isadora, além de romancista, você também é poeta. É perceptível seu exercício lírico em meio à Bananeira, porém, você acredita haver diferença entre sua prosa e seu verso? Se sim, quais são suas preocupações artísticas em cada modalidade?

Na minha prosa, a crítica e o humor aparecem mais. Já na minha poesia, aparecem mais o espanto e o transcendente. Mas como tento uma unidade entre as duas, nalguns momentos tais diferenças desaparecem ou se confundem. Não tenho preocupações em cada modalidade, tenho cuidados com a escrita, que descobri que são importantes pra mim: só o que importa é a história, não julgar o personagem, não subestimar o leitor, fazer do tempo um aliado e seguir a intuição são alguns.

Para regar a Bananeira e seus outros projetos, você se influenciou das águas de outros artistas? Quais poetas, escritores e artistas ajudaram a germinar seu trabalho?

A Negação da Morte do Ernest Becker, O Outsider do Colin Wilson, Memória, Sonhos e Reflexões do Jung, Temor e Tremor e O Desespero Humano do Kierkegaard, a obra completa da Hilda, a obra completa do Campos de Carvalho, Beckett, o Huberto Rohden, Mozart, Rachmaninoff, Bela Tarr, Tarkovski, Pasolini, Fellini.

Seu romance tem um labor estético bem perceptível e singular. Contudo, há também uma preocupação social e política nos emaranhados da sua ficção. Assim, qual foi o mote social que te levou até a Bananeira?

A arapuca que citei anteriormente. Olha, mesmo com a falta d’água, o conselho de SP aprovou a construção de três torres no terreno do Parque Augusta, vão derrubar mais árvores. A minha mãe disse uma frase bonita e certeira: “Uma árvore é um rio em pé”. Mas qual político, qual empreiteiro, se preocupa com uma árvore, com um rio, né? O bandido do Geraldo Alckmin? O seu crime organizado? O número de mortos em ações da polícia de SP aumentou 97%. E a Coração Valente então? E a sua amiga Rainha da Motosserra? Estão cagando para floresta Amazônica, os índios, as comunidades ribeirinhas. Esta gente viajou dias de ônibus para falar com a presidenta e ela nem os recebeu, a candidata do diálogo. A tática do poder é usar frases simplistas: “Você queria pagar uma conta de luz mais cara? Ficar sem luz também?” Como se não houvesse fontes de energia renováveis. E detalhe: vamos pagar mais caro e já estamos ficando sem luz. Precisamos parar de tratar a urgência como uma utopia, o esgotamento já aconteceu, não é realidade de uma geração futura, precisamos transformar a nossa maneira de viver, o consumo, o capitalismo. Soa ingênuo o que estou dizendo, mas não dá mais pro dinheiro mandar no mundo. Está claro, claríssimo, mas fechamos os olhos. O poder continua a se aliar com gente que está na contramão de tal urgência, porque o poder também está. Ah, tá, precisa aprovar projetos sociais no congresso. Ué, presidente não tem mais voz ativa? Só tem voz ativa para bater na mesa e dizer: “Belo Monte vai sair!”? Presidente, de um partido que se diz de esquerda, não faz mais alianças com movimentos sociais? Só faz alianças com velhacos? Misóginos? Preconceituosos? Os casos de homofobia só aumentam no Brasil, eu tenho muitos amigos que sofreram agressões. E qual é a boa notícia? Um pastor no Ministério dos Esportes, que defende ideias homofóbicas (até um Deus pessoal os homens inventaram) e que foi flagrado num aeroporto com quase $1 milhão na bagagem. Uma beleza. Não tem um novo ministro que não está envolvido num caso de corrupção, num escândalo. Nem a conversa do pior e do menos pior faz mais sentido. Pior é quem rouba mais e menos pior é quem rouba menos? Não. Roubou é pior, matou índio é pior, bateu em manifestante é pior, apoiou corrupto é pior, desviou verba da saúde é pior, fez discurso demagogo é pior, só tem o pior. No fundo, é muita paixonite dos eleitores pra pouca, ou zero, oposição entre os candidatos. Precisamos parar de apoiar quem está contra nós e ficar do nosso lado. Safado é o PSDB que roubou dinheiro do metrô, não o cara que manifesta a sua indignação. Enfim, acredito no voto nulo e na abstenção como símbolos de insatisfação, acredito no pensamento jovem e na troca de experiências, acredito na revolução silenciosa e individual através dos livros, e acredito, ainda acredito, a partir daí, numa transformação coletiva, nas ruas. Aliás, domingo foi um diazinho bom pra invadir Brasília.

Você já trabalha no sucessor do seu primeiro romance? Quais são os planos daqui pra frente?

Estou trabalhando numa história, uma peça de teatro, para uma antologia sobre putas, que vai sair este ano pela Carniceria Livros.

Entrevista: Matheus Torres e Jorge Filholini

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Confira um trecho de Memória da Bananeira

 

Sítio Descanse em Paz Antes da Madama Chegar, 2 de dezembro de 2011

Genésio,

Queres saber se me sinto sozinha? Meu querido, faz muito tempo que preparei uma listinha básica: Coisas que Só a Solidão te Propicia.

1- Peido à la vonté
2- Não distribuo ternura. Logo não a desperdiço. É terrivelmente desgastante transformar entulho em desprezo. Desmoronamento que nunca acontece com os cães e as galinhas.
3- Guardo facas e tesouras em lugares visíveis. A machadinha também. Eu não sou esquartejada por um banana. Um banana não é esquartejado por mim.
4 – Grito sem risco de ser internada imediatamente num hospício.
5 – Escuto quando quero a bobajada alheia.
6- Permaneço calada sem me preocupar com o silêncio. Logo não passo por constrangimento em conjunto, que convenhamos, é o pior, senão o único.
7 – Mijo de porta aberta escutando Debussy.
8 – Vivo pelada.
9 – Morrerei sem escândalo.
10 – Conheço-me. Sem fazer provões da Universidade Mundial O Outro com as Suas Inhanhas e Suas Façanhas.

Genésio, fui sucinta, sucintinha da silva. Preciso enfeitar o altar. Receberei Belzebu Te-Ama e Belzebu Também. Ulalá!
Ah, estás esquentando o assento cerimonial regularmente? Cuida-te, mon amour.
Aguardo notícia do teu vento íntimo. Ah! A liberdade de ser óbvia.
Desejo-te alento no buraquinho. Ah! A liberdade de ser mais óbvia.

Tua sempre cheia de graça. Mesmo quando duplamente óbvia.

Giogonda Lívida de Existência

5 comentários sobre “Em entrevista, escritora Isadora Krieger fala do romance “Memória da Bananeira”

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