A luta de todos contra todos em “Leviatã”, o filme russo indicado ao Oscar

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Até fiz uma brincadeira na minha conta de Facebook ao postar “Quer acabar com o seu dia? Assista Leviatã. Este é o filme russo indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, também já venceu o Globo de Ouro na mesma categoria. Brincadeira ou não, Leviatã incomoda o espectador em certos aspectos que irei apontar neste texto. Se acabar com o seu dia, é só virar uma vodka e pronto.

Dirigido pelo veterano Andrey Zvyagintsev, Leviatã nos apresenta diversas metáforas de dois textos: a Bíblia e o próprio Leviatã, de Thomas Hobbes. O próprio monstro do mar está presente. Calma, é também apenas metaforicamente. O monstro que defende seu território, que ataca quando se sente ameaçado, o monstro que age sem raciocínio. É essa a ameaça imaginária que não se apresenta mais no mar, mas na terra, em uma batalha entre homens e poderes. Daí  se instala a obra secular de Hobbes, que no livro defende o governo de um soberano absoluto, ou seja, aquele governo central e autoritário que dita as regras para se ter a total tranquilidade na sociedade. Mas em tempos de capitalismo selvagem, o centro se torna corruptor do povo em que controla.

Na trama, Kolia, pai de família, luta na justiça para que sua terra não seja desapropriada por uma prefeitura corrupta situada no Mar de Barrents, litoral da Rússia. Amigos desde o exército, Kolia conta com a ajuda de Dmitri, advogado influente de Moscou, que batalha de todas as formas legais para que o prefeito Vadim não tome a terra. Neste conflito é que vemos a conduta autoritária do prefeito, que embriagado decide ir até a casa de Kolia para o provocar. Cercado de seguranças, Vadim abusa de sua condição política para extrair de todo o modo o que deseja. Nota-se também o controle dos órgãos públicos, como polícia e poder judiciário, na sequência em que Dmitri tenta protocolar um processo contra o prefeito, tornando-se em vão.

Do outro lado do embate, em situação que percebemos estar numa ebulição interna, está a deprimida Lylia, esposa de Kolia e madrasta de seu filho. Sofrendo pelo fato da desapropriação e tendo um caso extraconjugal com Dmitri, Lylia é a figura do resultado do controle opressivo imposto à sociedade. Na brilhante atuação de Elena Lyadova, nota-se o machismo e a pouca visibilidade empregatícia, além de não ser aceita pelo enteado. Lylia é a decadência humana em ambiente não propício para a ascensão.

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O filme retrata livremente a corrupção política, abuso de poder, traição, relação familiar arruinada, conduta religiosa e a convivência falida da amizade no século em que vivemos. O caducante Kolia é o exemplo do conflito já vencido dos precários direitos do cidadão. O filme também, de forma não explícita, critica a gestão de seus governantes anteriores: na cena de um fim de semana de churrasco, os amigos decidem colocar como alvo, na brincadeira de tiros, retratos das antigas figuras políticas do pais, nem Lenin foi perdoado. Pode-se considerar um desgaste de ídolos de um país dividido ao longo do século passado. Outra minuciosa crítica é o retrato de Vladimir Putin pendurado no gabinete do prefeito enquanto conversa com Dmitri para tentar uma negociação “amigável” de modo a resolver o imbróglio judicial. Metaforicamente, o retrato demonstra que Putin não é onipresente, que diante de seu nariz ocorre as mais terríveis deteriorações políticas, e nem sempre consegue saber e controlar esse abuso.

Leviatã é um incômodo visual, propositalmente retratado por Zvyagintsev, que mostra, em uma cena brilhante, a carcaça de uma baleia, que nos demonstra a decadência do lugar. Ou pode ser atribuído aos “esqueletos do armário” que vigora o poder do estado. Mas o interessante é que Leviatã dialoga com o mundo. Não é específico e muito menos datado. Quantos relatos você já leu em jornais de pessoas que brigam na justiça contra alguma atuação irregular do governo? É exatamente o que explora o filme, as atitudes ultrapassadas de mostrarem poderes, a corrupção impune e a queda humana diante de circunstâncias que rolam como bola de neve. Sem parar, arranca tudo pela frente. A sequência final já aponta isso.

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Na luta de todos contra todos, há a traição amorosa, que desencadeia a relação de amizade e a precária constituição familiar. Do outro lado, a forte influência da igreja na política e na vida pessoal da sociedade. O que se pode notar ser o verdadeiro Leviatã, o monstro inventado para transmitir medo. Todos os personagens não fazem questão de ter empatia aos olhos do espectador. Todos lutam para terem o individual benefício, prejudicando a própria conduta social.

O filme tem um dos finais mais impactante dos últimos anos. A solidão interna de todos os personagens. O ódio concentrado por dentro a ponto de explodir, mas que tem que ser oprimido devido às condutas que são impostas. A reflexão que se faz é a de que não temos mais solução. Somos o monstro de nós mesmos. Protegendo nosso território, atacando se ameaçado for e agindo irracionalmente. No fim, apenas seremos carcaças de nossa própria terra.

Jorge Filholini

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