Ah! se os objetos falassem…

Imagem: Bemoir.com

Imagem: Bemoir.com

Os arqueólogos se veem, rotineiramente, estupefatos pela dimensão idiossincrática dos bens materiais. Parece-nos, na maioria das vezes, que somos incapazes de capturar as histórias pessoais e as emoções mais primitivas investidas nestes bens ou objetos, aparentemente tão prosaicos. Quase todos nós possuímos objetos ou souvenires guardados desde nossa infância. Coisas simples e mundanas associadas a passagens de nossas vidas, ou mesmo objetos que foram passados adiante, mesmo que não estivéssemos presentes para contar aquela história por trás de cada uma dessas coisas. Histórias que são impossíveis de serem conseguidas pela arqueologia.

A página do Bemoir. Dentre os símbolos mais comuns da infância, o ursinho de pelúcia tornou-se a marca do site.

A página do Bemoir. Dentre os símbolos mais comuns da infância, o ursinho de pelúcia tornou-se a marca do site.

Um projeto no kickstarter propõe garantir que essas memórias e significados idiossincráticos permaneçam literalmente ligados a estes objetos. Bemoir, como é chamado, propõe capturar histórias contadas e outros dados relevantes sobre um objeto e guardá-las junto a ele via NFC (Near Field Technology) e QR Code. Funciona mais ou menos assim: seu avô, por exemplo, pode ter te contado uma história interessante sobre aquele seu amado ursinho de pelúcia e, através do Bemoir, você pode incluir fotos do seu avô com esse ursinho ou mesmo, através do QR Code, adicionar essa história ao próprio urso. Outro exemplo: você presenteia alguém com uma obra de arte e anexa a ela uma entrevista com o artista, ou inclui alguma história sobre a ocasião de estar presenteando aquela pessoa. Tudo isso é compartilhado/acessado pelo site do Bemoir ou pelo aplicativo.

Ou seja, o apelo principal do Bemoir é a capacidade de relacionar e contar completamente as histórias do nosso dia-a-dia através dos objetos que nos cercam. Com certeza o mundo material está povoado por milhares destas histórias que podem ser “contadas” através de objetos, mas que nós apenas as conhecemos superficialmente (por exemplo: “esse relógio era da minha mãe”), ou as guardamos conosco até que desapareçam com o tempo. Uso meu caso como exemplo: eu escrevo à mão todos os meus posts em um diário. Só depois é que transfiro o texto para a plataforma digital. Isso talvez tenha a ver com algum traço ideológico que carrego ligado ao processo da escrita (compare com a defesa da escrita à mão feita por Tim Ingold), seja ele a possibilidade de ver e poder rearranjar o texto visualmente no papel, seja literalmente apenas pela sensação da caneta deslizando por ele.

Minha caneta Waterman.

Minha caneta Waterman.

Entretanto, reconheço que faço isso em grande parte porque possuo uma Waterman fountain pen maravilhosa! Se analisarmos a caneta em termos puramente arqueológicos, é extremamente fácil explicar sua forma física e o estilo decorativo que ela carrega – qualquer arqueólogo, ainda que modesto, seria capaz de deduzir sua idade, preço original e todo o simbolismo que envolve a marca Waterman e o processo de escrita à mão que subsiste ainda no século 21. Esse tipo de análise é a pilastra mais básica da arqueologia, mas estes detalhes tão descritivos raramente apareceriam nas histórias que eu poderia contar sobre a caneta ou mesmo as histórias que o Bemoir pretende produzir ou capturar.

Minha caneta Waterman tem um significado completamente pessoal para mim: ela foi um presente dado por minha sogra quando fui diplomado, tendo portanto uma ligação emocional. Pat (minha sogra) sempre admirou o conhecimento e a carreira acadêmica e ficou feliz quando um PhD começou a fazer parte da família que ela adorava. É raro um dia em que passo sem que tenha escrito algo ou simplesmente segurado a caneta que ela me deu. A caneta tem um significado e uma história idiossincrática pessoal, mas, também, um inegável papel funcional que é a escrita – que considero meu trabalho principal, mais do que escavar, lecionar ou qualquer outro trabalho estritamente arqueológico. Há algumas semanas Pat veio a falecer e agora a caneta também é, de alguma forma, um mecanismo capaz de acessar uma memória e uma vivência que ainda guardam seu significado através do tempo.  Essa caneta, por exemplo, seria insignificante para outra pessoa e todos estes significados que remetem a mim certamente desapareceriam numa análise arqueológica. Ainda assim, objetos tão inesperados como uma caneta podem muito bem ser um dos principais “guardiões” das histórias que acumulamos em nossas vidas.

Um exemplo de como funciona o Bemoir.

Um exemplo de como funciona o Bemoir.

Por outro lado, há que se compreender que muito dessa materialidade é uma simples expressão ou impressão externa. Imagens da vida que, mesmo motivadas emocionalmente, podem ser inevitavelmente distorcidas ou seletivas. Apesar do Bemoir celebrar o potencial de dar a você  “o poder para criar seu próprio legado”, a linha que fica proposta entre uma digressão memorialista ou autorreflexiva e uma simples representação seletiva ou excludente é, no melhor dos casos, impossível de definir. Isso não quer dizer que a expressão pessoal ligada a objetos proposta pelo Bemoir seja invalidada. Ela apenas sublinha a fragilidade e, mais do que isso, a infinidade de maneiras em que as coisas materiais podem narrar a história de lugares, objetos e pessoas. Talvez seja por isso que o trabalho arqueológico muitas vezes é capaz de reinscrever objetos e experiências, que subsistem fora de um texto ou uma narrativa pessoal, em seu contexto histórico-social – ainda que possa lançar mão dessas narrativas para complementar a análise. Também pode inferir padrões e simbolismos desses objetos ou mesmo provar como isso pode ter moldado um certo modo de vida. Existe uma infinidade de maneiras de “contar” estas histórias e, por mais detalhada que ela possa ser, nunca será completa.

Não me aprofundarei na noção sobre o que as coisas realmente significam – isso seria fantasia mesmo se nós tivéssemos dados digitais ligados a todos os objetos, ou mesmo se eles realmente pudessem falar. As histórias destes objetos e a ampla narrativa proposta pelo Bemoir são certamente fascinantes, mesmo que carregadas de representações arbitrárias e lapsos de memória – o que, há que se considerar, é um fenômeno comum de qualquer narrativa. Mas ela pode nos prover com dados que poderão chacoalhar e, por que não, complementar uma análise arqueológica. Fica claro que os objetos não podem falar, assim também como fica claro que o Bemoir não irá transformar a maneira como estudamos a cultura material, mas ele nos dá uma mostra fascinante das complexidades da memória e dos significados que os objetos assumem em nossas vidas.

Paul Mullins

Para ler o artigo original (em inglês) clique aqui. Tradução: Equipe Livre Opinião.

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