Vai ser Palmeiras! Não, vai ser Corinthians!

Bem antes de eu nascer. Bem antes do choro, sangue e corte do cordão umbilical, meu pai e avô discutiam para qual time eu iria torcer. De um lado, a raiz dura italiana do palestra plantada em meu nonno. Do outro, a insistência doentia de um alvinegro. O Derby mais famoso para mim foi a briga entre meu pai e avô para que eu fosse Corinthians ou Palmeiras.

Conscientemente eu nem sabia quem raios era Corinthians e Palmeiras, muito menos a rivalidade histórica que ambos evam em suas camisas. Nem os olhos eu abria direito, então nem saberia qual cor me identificar. Verde, verde, verde, escutava dentro da barriga de mamãe. Na construção do meu cérebro nada era mais insignificante que a palavra “verde”. Mas já havia revanchismo. À noite, antes de dormir, tinha que escutar de meu pai: “verde, nada! É preto e branco, filhão”.

Nasci! Logo que o azul acendeu em cima da porta da sala de operação foram beijos e charutos nas bocas de parentes. Berrava incômodo. “Nasceu? Se fodeu!”, já não sei quem me disse isso. Jamais quis sair das férias de dentro da minha mãe. Estrear no mundo é um susto, ainda mais quando lhe dão um tapa na bunda. Qualé? Quando nasci, não sabia o significado de “mico”. Quer saber o primeiro que paguei? Foi ver a parentada toda batendo no vidro – o que é proibido, mas eles nem aí – para chamar a minha atenção. “Olha, nasceu enorme”, “Vai ser forte”, “Vai pegar as menininhas”. Oh, god!

Mas esses relâmpagos vergonhosos da memória não vem ao caso. O que me fez escrever este pequeno momento da minha vida era a “amena” briga entre meu pai e avô pelo Corinthians e Palmeiras. Sem pau ou pedra, mas o fim do caminho. O máximo que chegaram foi o silêncio no almoço de domingo pós-clássico do meio da semana. O garfo e faca se pronunciavam no enrolar do espaguete no prato. “Fazem de birra”, vovó reclamava. Minha mãe ria, a cada levada de macarrão à sua boca, um sorriso e virada de cabeça reprovando a situação. Eu já engatinhava, mesmo assim não sabia de nada. “Vamos fale: Co-rin-thi-an…”. “Tá louco? Pal-mei…”. “Nem vem, o filho é meu”. Pa-pa? “Não! Papa não! É Ti-mão”.

Lençóis verdes, luvas pretas, fronha verde, calça preto e branca, camiseta tricolor – não, não era o São Paulo – verde, preta e branca. Eu era um brega! Tinha que sair com os presentes dos meus avós. Buscavam trégua, harmonia entre papai e vovô.
Quem pagava: Eu!

Cinco para seis anos, meu avô insistia todo jogo de meio da semana me levar ao Palestra. O que, anos mais tarde, minha mãe me contou que fora um acordo entre os patriarcas para me dividir entre Corinthians e Palmeiras. Ficava assim: dia da semana, jogando o Palmeiras, eu vestia verde. Finais de semana, sendo o Timão, somente preto e branco. Nem a cueca enganava. Se um dos dois jogassem fora de São Paulo, eram noventa minutos no sofá: papai xingando árbitro, elogiando as mães dos atacantes – Luizão devia ficar com as orelhas vermelhas. Vovô era mais calmo, acho que a idade já não resultava o nervosismo futebolístico. Só levantava as mãos, em um gesto de mandar aquele lance ou jogador “se catar”. O nervosismo dele era o arrumar dos aros dos óculos ou as bochechas vermelhas.

Não adiantou!

Não adiantaram os esforços dos dois. De tanto verde, preto, branco. Quartas-feiras, sábados e também domingos. Tantos silêncios teimosos, roupinhas bregas, corações apreensivos para mais um gol. Tiração de sarro, churrascos adiados, chaveiros, canecas, mascotes. Na realidade peguei apreço na Associação Portuguesa de Desportos

Aconteceu no colegial, Amanda era o seu nome. O pai, dono de ma loja de armários, nasceu em Porto e pisou por estas terras quando vestia terninho com calça até a canela. Seu Mário e Amanda, me levaram ao Canindé e pelo Canindé fiquei admirado.

Amanda se foi, mas o coração continuou pela Lusa.

Demorei anos para contar aos meus dois mestres. Tinha que ser um momento especial. Pois vovó e mamãe me protegeriam. No almoço de domingo, o melhor momento. Besta, achava que seria boa ocasião. O resultado: panelas e pratos voaram e o a conta para reformar a cozinha ficou mais caro que o molho.

Vovô saiu bufando, papai com os olhos no asfalto. Lamentavam. Eu ainda tinha jogo para ver no Canindé. Meu quarto foi descolorindo aos poucos. Papai ainda me dizia: “Pelo menos não foi pro lado de seu avô”. E, do outro lado: “Menos mal. Já pensou um neto corintiano? Já basta o filho”.

Neste último domingo aconteceu o primeiro jogo do ano entre Palmeiras e Corinthians. Também foi o primeiro clássico sem o meu avô. Papai faz como seu genitor: assiste calado. Levanta as mãos quando o lance não o agrada. Muitas vezes olha para o lado. Na ponta em que vovô sentava. Talvez ainda à espera para escutar uma provocação, um risinho ou palavrão. Nunca mais!

Por dentro, é papai fazendo tabela com o passado e o presente.

jorge-filholini2

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