Oscar: um mundo de homens

O pênis seja louvado. Img: Ian West/PA Archive.

O pênis seja louvado. Img: Ian West/PA Archive.

Por William Brown

As indicações ao Oscar deste ano rapidamente incitaram um fogo cruzado de críticas – convenhamos que isso não é nenhuma novidade. “Tudo é horrível”, resmunga o jornal The Telegraph: “The Lego Movie, a animação mais aclamada pelos críticos em 2014, simplesmente desapareceu da lista de indicações”.

Mas, dessa vez, a batata de um dos mais importantes prêmios do cinema parece realmente estar assando. Uma das principais críticas correntes na mídia foi a indicação de apenas atores brancos nas quatro principais categorias – deixando para escanteio David Oyelowo, que fez uma grande interpretação de Martin Luther King em Selma. Em 2011, os 20 atores indicados ao Oscar também eram todos brancos, mas, se não for suficiente, você pode voltar a 1998 e encontrar mais um grupo inteiro de atores brancos nas indicações.

As críticas são claramente merecidas, mas os problemas ainda não param por aí. Hollywood também parece ter esnobado as mulheres: neste ano, todos os filmes indicados carregam consigo um pênis. Os filmes indicados, em sua maioria, são inegavelmente fantásticos e merecem ser louvados por sua beleza e profundidade. Mas, quando olhamos para estes filmes, nenhuma mulher realmente aparece.

Peguemos, por exemplo, as indicações a melhor filme. Temos filmes sobre como se tornar um homem (Boyhood, Whiplash); um filme sobre o campo minado que é tentar ser um homem bom em meio a uma guerra (Sniper Americano); aquele sobre um homem tentando voltar a ser o que era antes (Birdman); um sobre as loucuras de um homem para seguir vivendo (Grande Hotel Budapeste); e um sobre um gênio tentando esconder sua atração por outro homem (O Jogo da Imitação). Mas também não esqueçamos os filmes que celebram outros grandes homens, como A Teoria do Tudo e Selma.

"O gênio torturado". Img: Studiocanal.

“O gênio torturado”. Img: Studiocanal.

Todos os diretores indicados ao prêmio – incluindo os diretores estrangeiros e de animação – são homens. Todos os roteiristas – com textos originais ou adaptações – são homens. Todos os cineastas são homens, todos os compositores são homens, todos os editores de som são homens e cinco dos seis nomes indicados a melhor edição são homens.

Há apenas um documentário dirigido por uma mulher (Citizenfour), porém é sobre a história de um homem. Mas também há um documentário sobre uma mulher (Finding Vivian Maier), dirigido por dois homens. O mais interessante é que esse filme conta a história de uma mulher com medo de mostrar sua arte ou mesmo se assumir como uma artista durante toda sua vida – talvez porque numa sociedade machista isso fica mais difícil se você não tiver um pênis (portanto, tentar tornar-se uma artista seria em vão; mas, pelo menos, um homem aparece para salvá-la…).

Livre... Img: Fox UK.

Livre… Img: Fox UK.

Mas sim, claro que há mulheres indicadas nas categorias reservadas a elas. Vamos dar uma olhada nos papéis pelos quais foram indicadas: uma é uma assassina profissional e premeditada (Rosamund Pike, em Garota Exemplar), outra desenvolveu Alzheimer precocemente (Julianne Moore, em Para Sempre Alice); temos ainda uma personagem eremita e antissocial (Resse Wetherspoon, em Livre), uma mulher rejeitada pela maioria dos homens com quem trabalha – chegando mesmo a preferirem hora extra do que tê-la como companheira de trabalho – (Marion Cotillard em Dois dias, Uma noite), e outra é uma mulher genial que deixa de lado o doutorado e a tarefa de ser mãe por um homem que acaba trocando-a por outra mulher, que irá masturbá-lo enquanto ele “lê” uma Penthouse (Felicity Jones em A Teoria de Tudo).

Agora, compare tudo isso que você acabou de ler com as indicações a melhor ator: temos um herói (Bradley Cooper em Sniper Americano), dois gênios (Benedict Cumberbatch em O Jogo da Imitação e Eddie Redmayne em A Teoria de Tudo), um louco que acaba aclamado como gênio (Michael Keaton em Birdman) e um maluco rico e recluso que acaba matando alguém só porque sua mãe é uma vaca (Steve Carell em Foxcatcher).

As indicações a melhor atriz coadjuvante também não escapam e estão sempre à sombra de um homem (Keira Knightley em O Jogo da Imitação, Emma Stone em Birdman, Patricia Arquette em Boyhood). Fugindo talvez um pouquinho disso temos Maryl Streep, no papel de uma bruxa em Caminhos da Floresta.  Apenas Laura Dern em Livre, fazendo o papel da mãe de Reese Witherspoon, consegue escapar dessa correnteza que parece levar as mulheres para “aonde se espera que elas estejam”.

Quando assisti Boyhood, achei a Patricia Arquette a melhor coisa do filme. Achei mesmo que, ao invés de Boyhood, o filme poderia se chamar Motherhood. Mas não. Já ficou mais do que claro – e escancarado – que Hollywood precisa rever seus conceitos (ou preconceitos) quanto a diversidade racial. Mas também temos que notar que esses conceitos (ou preconceitos) acabam ficando perigosamente camuflados no caso das mulheres. As indicações deste ano servem para mostrar que o Oscar parece não abandonar seu sistema para as nominações: um sistema que insiste em venerar homens brancos como heróis ou gênios e retrata mulheres como selvagens, loucas e perigosas. Preocupantemente, James Brown parece ter acertado em cheio ainda lá atrás: para Hollywood, este é um mundo mais masculino do que nunca.

Artigo publicado originalmente no The Conversation. Leia o original em inglês aqui. Tradução: Equipe Livre Opinião.

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