Capistrano: nóis, tamo junto!!!

unnamedNo final de 2014 fui convidada pela amiga Wal Silva (Kira para a família e os amigos íntimos) a participar da festa em homenagem a Professora Hiromi na Escola Capistrano de Abreu. Minha irmã Marli estava presente, testemunha!!!

Como se já não bastasse a emoção de rever a Dona Hiromi, fui transtornada por entrar no prédio que estudei do pré a sétima série. O prédio não porque, depois da reforma, não sobrou nada de 1975 a 1983.

Não sobrou nada materialmente.

O Capistrano foi a minha primeira escola e, naquela época, a escola era nossa rede social.

No meu caso era a escola, a igreja e a rua.

A escola era o shopping da época. No pátio, praça de alimentação, aconteciam as maiores emoções da semana. Na quinta série eu paquerava de longe o garoto dos meus sonhos. Na festa junina mandava correio elegante, nos bailinhos, cartões apaixonados e, durante o ano inteiro, cartas e bilhetes de amor com letras de música e poesias copiadas dos livros.

Foi nessa mesma escola que eu dei meu primeiro beijo. O menino foi obrigado mas foi. Cansados de acompanhar meu sofrimento, minhas amigas tramaram com os amigos dele. Na hora do recreio, trouxeram ele praticamente amarrado e o colocaram sentado à minha frente. Seguraram a cabeça dele e a minha e assim aconteceu meu primeiro beijo. É claro que a minha cabeça ninguém precisava segurar mas eu deixei pra não parecer fácil demais. Naquela época as meninas não podiam parecer muito fáceis. Eu era mas ninguém precisava saber disso.

Foi no Capistrano também que conheci a Professora Alfa, minha grande idolatrada mestra e poetisa e cantora. Entrava na sala de aula sempre sorrindo ou cantando ou declamando poesia. Outra paixão da minha vida inteira. Durante o tempo que fui professora tentei imitá-la. Nunca deu certo. A imitação sempre revela a farsa. Se você não descobre sua própria personalidade vai viver fingindo o tempo todo. Depois eu encontrei o meu caminho e fui aprendendo a ser professora com os meus alunos.

Dessa época também ficou a minha grande melhor amiga de todos os tempos (que a Paulinha me ensinou que é minha BFF) Maria Rosana, a Rosaninha. Minha parceira, cúmplice, mecenas e provedora do melhor requeijão baiano de toda a minha vida. Nas excursões, era ela, quando meus pais não podiam, quem pagava minha parte. Meu álbum de formatura eu não pude fazer porque o preço era abusivo (até hoje é) e ela disse: deixa que eu pego umas pra você também. Não lembro de um dia que passava sem fazer a lição na casa dela. Outro dia ela lembrou que passava muito tempo na minha casa também. Eu já disse em outro texto da importância do outro pra compor a nossa história inteira. Cada um vai lembrando uma parte e, juntos, montamos o filme.

Uma história que foi contada pela Dona Hiromi neste dia me encheu ainda mais o peito de satisfação e alegria. Ela lembrou que eu li todos os livros da biblioteca da escola e, ainda insatisfeita, trouxe os livros de casa. Lia e dava para os colegas. Dava não, emprestava, porque os livros eram do meu irmão Guilherme e do meu pai. Mas todo mundo sabe que livro emprestado não se devolve, então era tipo dado mesmo. Muito obrigada por compartilhar essa história, Dona Hiromi.

Essa imagem me encheu de satisfação porque na minha família sempre fui taxada de mimada, egoísta e brava. Me ajudou a entender que, provavelmente, eu era assim em casa.

Na escola, na igreja e na rua, era uma boa menina. Minha mãe dizia que não queria ouvir reclamação dos outros. Fora de casa, me comportava como uma mocinha mas dentro de casa era bem chatinha. E é claro que eu fico toda feliz e boba quando alguém elogia meu filho. É assim que funciona. Rio sozinha.

Reencontrei também a Vera (irmã da Kira), amiga da minha irmã Néia e também virou minha BFF. A Vera afirmou: você não era brava, nem chata e muito menos egoísta. A gente dividia tudo lembra?

Desculpa, Vera. Não lembrei. Ela falava e não voltava nada na minha memória. Ela disse que estudou comigo no Capistrano e eu não tenho nenhum registro disso.

No Capistrano também eu descobri os esportes.

Queimada não é esporte mas é uma atividade tão lúdica que deveria ser incluída nas olimpíadas.

Além da queimada, tínhamos o basquete, o handball e o voleibol. Não dá pra dizer qual eu gostava mais. É tipo pedir pra mãe escolher o filho preferido. Mentira. A mãe sempre tem o filho preferido. É óbvio. Só quem olha de fora que percebe. Elas disfarçam, dizem que amam todos da mesma forma mas a gente sabe que não. Enfim. Assunto pra outra coluna.

Eu sei dizer o que gostava mais: ficar no gol do handball. Era uma posição estratégica. Você vê o jogo inteiro e não precisa correr. Até hoje eu odeio correr e até hoje, nas poucas vezes que joguei futebol com as meninas, eu peço pra ficar no gol. Uso óculos, é uma estratégia para que o adversário não chute muito forte.

Mentira.

Tem adversário que chuta forte demais mesmo quando o goleiro usa óculos.

Nas aulas de Educação Física eu aprendi o espírito coletivo. Essa coisa de nóis, tamo junto, praticando um esporte de grupo a gente aprende de verdade, empiricamente na raça.

Por essas e muitas outras, eu amava aquela escola. Mesmo. De verdade.

Nas três últimas escolas que trabalhei o aluno era proibido de acessar qualquer rede social mas também é proibido de ler jornal, de ler livro ou revista na hora que tem que fazer a lição ou quando o professor está explicando, de desenhar na aula que não é de desenhar, de escrever na aula que não é de escrever.

Quando estava escrevendo Férias na prisão não percebi o real assunto que estava tratando até chegar ao final do livro.

Assim que comecei a delinear a sequência final, entendi de verdade.

O mundo de corredores, inspetores de aluno, sinal para entrar, para comer, para ir ao banheiro, para ir embora.

Coordenação, direção, subalternos. Hierarquia.

Carcereiros e grades e portas de ferro.

Alunos que escrevem nas carteiras e nas paredes.

Grafitam gritando: eu estive por aqui ou Lu e Bola dentro de um coração ou eu odeio a professora Rosa.

Tentativas sufocadas nas aulas de Comunicação e Expressão, História ou Educação Moral e Cívica.

Na escola eu aprendi muito mais do que Português e Ciências.

No Capistrano, eu aprendi a conhecer e amar pessoas, a viver com intensidade os momentos e a ouvir quando o outro fala (essa é a mais difícil porque eu sempre quero falar junto e ao mesmo tempo agora).

A Dona Hiromi, a Professora Alfa, a Rosaninha, a Vera e a Kira me ensinaram a dar valor ao que realmente importa e, ainda hoje, tudo isso me comove.

Não importa se derrubaram minhas salas, meus corredores e o meu pátio. O Capistrano está completamente construído dentro de mim e, nunca, ninguém, tira ele do meu coração.

Muito obrigada a todos que fazem da escola um lugar mais legal do que o facebook, o whatsap, o instagram e o twitter.

Muito obrigada a todos que me fazem tirar os olhos do livro, do gibi, do jornal ou do celular para olhar e ouvir o outro. Juntos.

E que quando um aluno levante o braço e diga presente, ele esteja realmente naquele lugar e não querendo estar em outro.

lucimar-mutarelli

12 comentários sobre “Capistrano: nóis, tamo junto!!!

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  12. Digito no google Escola Municipal Capistrano de Abreu e dou de encontro com um texto que me fez lembrar de uma época linda de minha vida. Fiquei curioso, quem é esta pessoa que descreve detalhes maravilhosos de sua vida que ao mesmo tempo me vejo naquela época. Lembrei que estudei com uma menina chamada Lucimar e foi você. Linda descrição de nossas infâncias. Herlens Samuel, estudei da 2ª a 8ª série.

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