Quando deus foi embora fazia calor

Quando deus foi embora fazia calor. Logo ali, perto da beira do mar, ele morava. Por fora nenhuma luz. Por dentro o facho de esperança da pequenina Ibéria. A porta baixa. Fiapo já mostrava desgaste de tanto abre e fecha. Sem verniz, a parte inferior tomada por cupins. Aos poucos construíam a destruição. Maçaneta enferrujada, amarelada,dava sinal de muito utilizada. Num vira-vira que o miolo não aguentava mais. O que se via dentro era uma sala arredondada. Sem canto. Paredes brancas. Para contrastar, por dentro havia muita luz.

Não se alcançava o teto, a luz que vinha de cima era muito forte, cegava quem forçava enxergar o final. Diziam que era o final que fornecia a esperança. Branda iluminação no chão. Piso azul, pisado por pessoas de Ibéria. Descalços ou calçados, sentiam o calor que acalmavam os pés. Relaxavam os dedos. E para quem entrava, a voz saudava.

“O que lhe faz estar bem para viver?”. A frase sempre dita a quem entrasse naquela sala poderia ajudar. Ou podia prejudicar os alcances desejados. Uns pediam peixes “para trocar por batata”. Outros pediam batatas “para trocar por peixes”. Há quem pedia arma “de imediato é só para assustar o ladrão de bodes”. Existiam os traídos. Emocionados por um livro doado pela luz. Necessitados por materiais de construção para erguerem um lar. Couve, cereais e feijões. Arroz se houver festa de casamento. Bois para o carnaval. Roupas para a festa de nascimento. Colchões para quando a visita anunciava vinda. E isso tudo caía do alto, para além daquela forte luz, até o chão ou nos braços dos pedintes.

Uns comentavam que aquele gesto era divino. Outros o chamavam de deus, foi o que escutaram da cidade grande, uns bons pés dali, sobre um homem crucificado para salvar outros. Desejou morrer por eles e voltou para ajudá-los. Essa coisa de colocar-te no eixo. Os líderes de comunidades decidiram, para não incomodar todo o tempo deus, organizar reuniões para listarem as necessidades dos moradores. Um encarregado batia na porta da luz e entrava com os pedidos. Voltava com sacolas cheias. Tudo realizado. Desde tinta, tijolos a copo de barro e tecidos. Distribuídos e bem guardados. Era engraçado que alguns, ao receberem seus produtos, olhavam para o alto em gesto de agradecimento ao invisível. Ou seria o céu? Ou seria para o deus? Mas o deus vivia naquela sala, não vivia no céu. Respondiam que era costume. “Simbólico, lógico!”

Um dia, bem na madrugada chuvosa, tentaram saber quem era deus. “Charlatão”, tinha quem imaginava ser aquela luz. “Aproveitador”, cochichavam. Querendo saber quem é esse que dá coisas.

Entraram sem bater, isso quem contou foi o próprio papai, a luz entojava. Tentaram escalar as paredes. Nada! Traziam cadeiras e empilhavam-nas. Em vão. Davam voz de ordem para que o corpo daquela voz se mostrasse. Nenhuma resposta. “Onde está esse deus agora?”.  “Deus deu no pé”. “Ele jamais existiu”.

A luz da sala redonda. A mesma luz que sempre esteve emitindo forte brilho se apagou! Escuridão tomou a visão dos invasores. Aquela luz nunca mais se acendeu. Não havia teto. A escuridão também prejudicava saber o fim daquela altura de sala. Decepcionados e abandonados, os povos de Ibéria não recebiam mais nada de cima. Acabaram batatas, cebolas, armas, matérias, objetos. Chamavam e clamavam, deus não respondia mais! Decidiram culpar os invasores, enforcaram eles, como solução para se desculparem com deus, também na esperança de seu retorno. Nem um facho de luz. Sacrificaram mais pessoas em uma suposta acusação da fuga da luz. Mas nenhum sinal de deus. Ossos empilhados. Chamuscados. A fogueira alta, queimava corpos. Fez calor na região com o cheiro de pele tostada.

Os mais espertos demarcaram terras, usaram os vegetais antigos e plantaram batatas, cebolas e cereais. Os sábios faziam de suas casas diversas mercearias, para venderem o que foi colhido. Os habilidosos cortavam árvores para a construção de cadeiras, mesas e armários. Os técnicos moldaram copos, talheres, panelas. Os espertos tornavam-se líderes, que mais tardes hierarquizavam os poderes. Os leitores ensinavam os outros. Os cansados pegavam emprestados todas ideias. Os que nem queriam isso, escreviam.

Deus foi embora e o homem inventou o trabalho. Deus ainda tinha os devotos, que todos os dias ajoelhavam na porta daquela sala na esperança dele voltar. Estes formaram até um grupo que anos depois cresceu e teve muitos adeptos. Fizeram estátuas imaginando como seria a presença corpórea daquela luz, pegaram emprestados  os relatos das cidades vizinhas sobre o deus pregado. Acrescentaram metáforas, parábolas e fábulas. Deram um imbróglio com os nomes, omitiam um, colocaram alguns. Fizeram um livro para doutrinar os novos membros. E ficaram lá à espera da volta de deus. Não voltou.

Decidiram fincar terreno ao redor da casa onde a luz morava. Enfileiraram cadeiras, levantaram lonas, fizeram um espécie de altar. E nele perduraram uma cruz com duas madeiras cruzadas. O mais devotado, aquele que decorou o livro de doutrina de cabo a rabo, foi escolhido o orador do grupo. No sétimo dia eram elaboradas as palavras, conversas e todos olhavam para o alto pedindo a volta de deus. Duraram anos, levaram séculos e vidas.

Houveram guerras. Os devotos queriam que todos de Ibéria participassem do ritual de volta de deus. Que todos clamassem o retorno da luz-que-dava-tudo. Nem todos acataram. “Tá louco? Ele não existe”. “Por que irei pedir a volta de uma luz?”. “Não enche”. Houveram mortes. Os devotos se possuíram de ódio e matavam aqueles que não seguiam as doutrinas do livro. Queimaduras e aços penetrando a pele. Rubro caminho nas terras jorravam das veias dos povos de Ibéria. Não havia trégua. A guerra despertou separação. A força trabalhadora não aguentava tantas mortes por causa de uma paixão invisível. A paixão inflamável que conclamava o volta de uma luz que se apagou e nunca mais acendeu. “Eles ficaram loucos”, diziam sobre os devotos. Os devotos com sangue nos dentes, lutavam pela luz. Acreditavam que estavam em missão para o retorno de deus. Confusos!

Cada um em seu canto. A trégua foi estabelecida. Deram o nome de reza aos que desejavam a volta de deus. Alguns ficaram cegos de tanto ler o livro de doutrinas. Faziam calamidades em nome da luz, tantas guerras surgiram. Amavam uma luz que não existe mais. Ainda lembro, quando deus foi embora fazia calor.

 jorge-filholini2

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