OSSOS DO OFÍDIO: Voltei, Recife

Fantasias do premiado carnavalesco Luís Freire, irmão do escritor Marcelino Freire

Fantasias do premiado carnavalesco Luís Freire, irmão do escritor Marcelino Freire

Era o avião pousar e o coração já me dizia: minha mãe estaria à porta, olhando a rua. Não o relógio. Mãe não olha relógio. É o coração da mãe que bate, pontual. Marcelino está chegando para mais um Carnaval.  Vindo de São Paulo. Onde moro há 23 anos.

O bloco de sobrinhos à minha espera. E as plumas de meu irmão. Espalhadas pelas almofadas da casa, mesas, cadeiras. Brilhos no bairro pobre de Água-Fria. Meu irmão, Luís Freire, tem o título Hors-Concours pernambucano.

Esclareço: Luís foi, no Recife, uma espécie de Clóvis Bornay local. Ganhava todos os campeonatos de fantasia. E eu era quem dava, em sua maioria, a temática dos desfiles. Nada de dragões chineses, jardins do éden, florestas megatropicais. Eram personagens literários que eu provocava o meu irmão a levar às passarelas.

O primeiro prêmio dele foi com “O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote De La Mancha”. Depois vieram referências à Morte e Vida Severina, Camões, Federico García Lorca. E, todo ano, o povo esperava: a surpresa, guardada embaixo das penas, lantejoulas… Eu também dava a ele alguns toques teatrais. Veja: é preciso criar um clima para a apresentação. Não entregar, de cara, todas as armas do sonho.

É nisto tudo que eu penso, aqui, de volta ao Recife.

Na minha mãe, na casa iluminada, na agitação pelos corredores, nos vizinhos vindo ajudar na costura dos objetos, nas linhas da imaginação grandiosa e radiante de meu irmão. Sertanejo, nascido e vindo da mesma Sertânia. E ter, o danado, se tornado referência nos bailes de máscaras da cidade. Algo, acho, como transformar osso em ouro. Teimosamente, couro em tesouro.

Sem contar que ele introduzia à mente do bairro o respeito às diferenças – meu irmão não poupava bordados para se transformar em mulher, gueixa, saias guerreiras, rainhas do paetê. E os veados, queridos amigos, que passavam, em nossa sala, madrugadas ajudando na produção. E na construção da alegria. E a família, reunida, à noite, apoteoticamente para assistir à colorida transmissão pela televisão.

Quanto suspense!

Ganharia ele mais um Carnaval?

E o meu irmão ganhava, sempre. Daí, repito, o título de Hors-Concours. Hoje, ele vive no Rio. Trabalha com arte, artesanato. Cria e recria muitos objetos de cena para novelas da Globo.

Minha mãe, já falecida. Meu pai, uma estrela. A casa, morando no passado. Os sobrinhos já têm filhos. E eu continuo chegando de viagem. Quando o avião pousa, já é Carnaval.

Agora, que pena, festa assim só no ano que vem.

A saudade, mais uma vez, me trazendo pelo braço.

Salve, salve, saravá, amém!

marcelinofreire

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