Disse que ficaria só para a primeira rodada, permaneceu por trinta anos

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Quis sentar perto, veio de manso. Sorriso largo, olhos para dentro. Mexia no cabelo e dificilmente olhava para do lado esquerdo. Eu estava para o seu lado direito. Pediu a garrafa de cerveja: “Um copo na mesa nunca deve ficar seco”. Virou tudo! Decidi que ia acompanhá-lo.

Algo nele foi prudente. Aquele cabelo encaracolado, grande para a sua idade, talvez quisesse aparentar ser novinho. As rugas na testa riscavam mais de trinta. Arrisquei 31, mas para ele não havia vergonha. A camisa sufocava, abriu os primeiros botões de cima. O colarinho ficou desigual, charmoso. Tem poucos pelos, transparecia o traço de seu abdômen.

Ele enchia o copo dos outros ao seu redor, o meu inclusive, e deixava para se servir por último. Cavalheirismo de botequim. Gesticulando comentou sobre o filme que assistiu na quarta-feira. Prefere pagar meia do que gastar inteira, “vai que se arrepende no final da sessão e culpa o filme por ser um desastre”. “Hoje em dia é arriscado encontrar bons filmes”. Disse que adorou a direção precisa de Iñarritu. “Tem uma sacada brilhante de não entregar o corte do filme, também seria sem graça assistir o filme só para descobrir a hora do corte. Se o cara quis insinuar o filme todo em plano sequência, senta e relaxa”. Terminou a frase caindo no encosto da cadeira num gesto de descanso. Admirei a conversa cinematográfica, mesmo sem eu saber que raios foi o primeiro ator que interpretou o batman.

Para não prolongar a conversa, bicava a cerveja de seu copo, voltava a falar sobre o filme favorito do ano. Um hotel em Budapeste, um filme que durou doze anos, esse do homem pássaro que assistiu na semana, do baterista maluco e do Hawking. Este eu assisti. Cortei. Nem percebeu, disse para marcarmos um cinema em algum dia, semana, mês, ano. Prefiro nunca. Não sou de cinema, sou de shows. Fico semanas folheando o Guia para encontrar um bom concerto. Ele levantou a sobrancelha e trouxe a mão perto do rosto, alisou o cabelo para o lado. Deve estar interessado no assunto.

“Qual show você gostou?” Logo de cara, fiquei sem graça.
Pensei, matutei, fui buscar à força debaixo do tapete da memória um show marcante. Chico, Caetano, a voz de Ney rolando na vitrola da lembrança, Gil, nossa Os Mutantes, Bethânia declamando Pessoa, Gal em Recanto foi divino maravilhoso – ele riu da piada -, Paul. Sim, Paul foi espetacular, levei meu pai, o velho ficou doidinho.
“Você realmente viu os melhores no palco”.
“já posso morrer cantando”.

Copo seco foi salvo com mais uma queda de cerveja. Gelada demais, do jeito que gosto, comentou querendo brindar não sei o que no momento. A nossa conversa tão simples e produtiva, disse após pedir ao garçom mais uma garrafa. Eu diria “redundante”, ele virou o copo todo. Calor! Sabor da noite. Frescor da boemia. Exagerado, mas deixei falando. Tentava elaborar mais algum assunto, quero saber mais de você. Não é só de cinema que você é capaz de seduzir. Vamos, diga:

seu livro de criado-mudo
tamanho da cama
tucano ou petralha
pinta o cabelo
acorda cedo
malha de manhã, tarde ou noite
assiste jornal
ou melhor, que jornal costuma assinar
pensa em ter filhos
droga, já tem filhos
por favor, não é casado
aliás, nem pensa em casar, né
saiu da saia da família
não vê impedimento de um relacionamento aberto
gosta de Belle & Sebastian
fuma Dunhill
não pretende voltar para casa cedo
são muitas ????????????????

Não pretendo, penso em ficar um pouco mais.

Em outro bar, o que acha? Não vou negar. A mesa está cheia, vai esvaziar logo e as portas vão descer. Já tem gente suficiente para lotar um táxi. Eles que se virem, respondeu se aproximando do meu ouvido. Aqui e em outro lugar, pegaremos o mesmo táxi, para o mesmo rumo. Pedi a conta.

Sabe aquela garota que sai do interior e chega na capital? Sabe, sabe essa mesma garota quando sai do metrô da Consolação, sobe as escadas e percebe ser menor que aqueles prédios? Pensa, ligeiramente, nas dores que cada apressado trombou com ela, selvagens de terno e saia se caçam sem pedir licença pelas calçadas largas da Paulista. Mas na cambulhada faz uma lista das cabeças em zigue-zague, correndo cada um para bater o cartão, comer às pressas, pagar as contas, pedir emprego, ser demitida. Elabora planos futuros na mente, desmente a si mesma e promete não se subestimar com algo momentâneo. Sem ser piegas, apenas diferente, quer deixar a hora rolar devagar. Pensa até em pegar uma sessão. Esse filme do pássaro parece ser uma boa. Já imagina ser um pássaro. Sempre gostou de pardal. Um pássaro no alto da FIESP a saltar e não ter medo de se destroçar no chão.

Acredita que pode, na loucura de sampa, sentar na grama depois de uma noite no bar.

jorge-filholini2

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