Carta ao Pai

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No dia 21 de dezembro de 2014 meu marido, que eu sempre reclamo que não é romântico, que não me leva pra jantar, que não me compra flores (eu não posso ganhar flores por causa dos gatos, viu gente???) e aquelas coisas que mulher fala da boca pra fora porque não reconhece todas as vezes que ele ficou quieto pra não te magoar, foi te buscar no trabalho, na balada, nas festas infantis, no hospital, levar pro hospital, sair na chuva pra comprar absorvente, remédio pra cólica, te acompanhou em batizados, casamentos, dedicou um livro pra você, sempre fala de você nas aulas e nas palestras, enfim…deu pra entender, né???

Pois é…esse mesmo marido que eu falo que não é nada romântico (quando vou parar de reclamar de barriga cheia???) ficou sabendo que o Almir Sater faria um show no Sesc Pompeia. Na hora, ele me mandou uma mensagem:

– Você quer ir?

– Sim, claro!!! Aquele monte de coração e carinha alegre que eu encho o saco dos amigos e da família no whatsap

– Mas eu vou junto

– Sério? Não acredito!!!

– Vai que ele se arrepende e tenta roubar você de mim!!!

Ai gente…eu morri…se isso não é ser romântico então eu sou uma burra estúpida e não sei o que é. Cena típica de comédias românticas que eu amo, amo de paixão…rs

Ele falou ainda que seria um presente pelos 21 anos de casados (celebrados em 18 de dezembro) e eu disse que valia também pro resto da vida (eu sou pouco exagerada) visto que nesse ano de 2014 nós cancelamos o Natal na nossa casa, pulamos direto para o Ano Novo mas isso é assunto pra outra hora

Enfim, chegou o tal dia. Eu chorei praticamente em todas as músicas porque não via o Almir Sater ao vivo há mais de 20 anos e pra piorar minha emoção estava acompanhada do meu maridinho

Preciso explicar uma coisa que aconteceu antes do Lourencinho entrar na minha vida

Eu conheci o Almir Sater com o meu pai

1984, assistindo Som Brasil com ele

Era uma forma de passar o tempo com o meu pai visto que não tínhamos muito assunto. Então, eu assistia o Jornal Nacional com ele (foi meu pai que me ensinou a dar boa boite, bom dia ou boa tarde para os apresentadores), esse programa de música regional na Globo que passava aos domingos, tipo as 8:00 da manhã e jogos do Corinthians mas o Timão também merece uma crônica só pra ele

Continuando…

O dia que o Almir Sater apareceu no programa eu falei: Pai, quem é esse cara? (provavelmente eu não falei cara porque não falava gíria na frente do meu pai mas não lembro o termo)

Ele respondeu:

– É um rapaz novo. Toca que é uma beleza.

Gente. Essa foi a crítica do meu pai!!!!!!!!!!!!!!!

E eu fiquei hipnotizada pelo jeito do Almir tocar, óbvio!!!

Quem não fica??? Até meus colegas eruditos da Unesp, que não falavam com quem não lia partitura, se rendiam ao talento do Almir Sater. Não conseguiam falar mal dele. Pelo menos não na minha frente.

Quem gosta desse estilo de música sabe exatamente do que estou falando. Almir é virtuoso. Perfeito. E, além de tudo, é um cara simples, humilde. Tudo bem, eu sei que você vai falar do Pantanal, da Globo mas gente, peralá, artista também tem que ganhar dinheiro, né? Infelizmente a bosta do dinheiro ainda rege nossas contas, comidas, escola, DVDs, cafés, brigadeiros de panelinha, mimos para o filho, o marido, os sobrinhos, a família e os amigos que não conseguimos não comprar. O tal do consumismo sustentável.

Eu, por exemplo, só compro aquilo que não posso viver sem. Minha última aquisição foi um apontador da Hello Kitty, 3 canetas Bic, um caderno da Magali, outro da Fada Sininho e três rolos de durex colorido para os sobrinhos. Sim, tudo material de trabalho. – carinha master blaster feliz

Minha mãe, (quando não estava na feira ou na cozinha ou na máquina de costura mesmo sendo domingo) às vezes, assistia o programa com a gente e eu sempre perguntava:

– Ele vai hoje, pai? Ele vai hoje?

Meu pai, delicado como eu sou com o meu filho, respondia:

– Como é que eu vou saber? Espera, uai. Se tiver aí, vai aparecer.

Não era muito inteligente meu pai? Viu que resposta perfeita?

Minha mãe também era muito inteligente. Aprendeu a ler sozinha, também vai ganhar uma crônica só pra ela…- um milhão de corações vermelhos

A mãe provocava:

– Tá apaixonada, quer casar com ele.

Eu tentava me explicar:

– Não, mãe. Não é isso. É outro tipo de amor.

E ela cobria a boca e ria, ria muito. Na época eu não entendia porque ela cobria a boca pra sorrir, hoje eu sei porque. Faço igual.

No mesmo Som Brasil anunciaram que ele estaria em São Paulo pra fazer um show e eu, 15 anos, já trabalhava fora, andava de ônibus e metrô (em 1985 o trem no Itaim Paulista não era tão legal quanto é hoje)

Fui. Cheguei lá no Caetano de Campos e comprei, tremendo o ingresso, o número 1. Só eu mais 11 testemunhas do que, na minha cabecinha, era a primeira apresentação dele na minha cidade. Ano passado eu reencontrei esse ingresso na capa do disco autografado por ele e enchi meu olhos de amor e alegria e saudades

No camarim, mostrei o ingresso pro Almir:

– Não, não foi meu primeiro show em São Paulo. A primeira vez que eu toquei aqui foi na Sala Guiomar Novaes.

Eu murchei. Desliguei. Apaguei. Fui tirada da tomada.

Meu amado marido que estava ao meu lado nem percebeu mas eu fiquei muito triste…kkkkkkkkkkkkkkkk

O Almir ainda falou:

– Quer que eu faça um rabisco aí? – Ele apontou para o disco que eu levei.

– Não, não precisa. Já tá autografado.

E fomos embora e bebemos cerveja e comemos pastel e meu marido me levou no bar que leva os alunos e me apresentou seus amigos e eu agradeci e vou agradecer pra sempre ao meu marido por ele ter sido testemunha do meu reencontro, não com o Almir Sater, mas com o meu pai.

Nem pensei em pedir pro meu marido fazer uma selfie minha com o Almir.

Mas, hoje, escrevendo a cena e lembrando do meu pai e da minha mãe sentados na sala ouvindo e vendo o Almir a casa que os dois construíram para a família, entendi que tem coisas que nenhuma foto ou vídeo no youtube pode trazer de volta.

Lembranças que só enchem o peito e os olhos, de amor, sempre…

lucimar-mutarelli

11 comentários sobre “Carta ao Pai

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