MARSA

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Os pretos vêm presos sim, senhor.

Devidamente amarrados. Aglomerados. Como mandam as instruções.

E eu particularmente acho meu senhor, que alguns navios dão condições até muito boas pros pretos. Os que chegam até o porto não costumam reclamar. E os reclamam não costumam chegar até o porto– Pelo menos vivos, não. Modéstia à parte. Somos muito eficientes. E não costumamos ter problemas. Pelo menos não até o Reino Unido começar com essa conversa de comparar mercadoria com gente.

Antes disso, de preto ser gente, era tudo muito mais fácil. Os poucos problemas que tínhamos. Resolvíamos.  Ligeiro. Não conheço nenhum relato de os bichos terem tomado um navio daqui até o Rio de Janeiro.

Apenas um caso merece ser contado.

E por isso. Para lhe contar, é que vim até aqui.

Juro que vi. E juro que ouvi. Pior, meu senhor. Juro que senti em todos os pelos do corpo. Aquilo era bruxaria. Magia. Como é que pode? Diga lá. Como é que pode. Quinhentos e tantos pretos cantarem.Tocarem música. Naquelas condições. Ainda rirem. Porque riam. Gargalhavam alto. Arrepio só de falar. Morrendo de fome. Todos  eles. Mortos de fome. E ainda cantando alto. Pareciam demônios. Como os deuses deles. E eu não estou louco.

 Explico o porquê, meu senhor.

Marsa é o nosso tumbeiro. Somos bastante conhecidos no ramo. Pode perguntar no porto, se a fé não bastar. Nosso navio foi um dos primeiros a trazer pretos para Pernambuco.

Pois bem.

Trouxemos da ultima vez que saímos de Luanda uma quantidade de mercadoria maior que o de costume. Não sei como coube tanto preto naquele porão. Sinceramente não sei. Sei que as duas primeiras noites foram muito tranqüilas. Noites caladas, mas do terceiro pôr de sol até aqui os pretos inventaramde cantar. Cantar muito. A noite inteira. Cantar alto. Agora o senhor imagine. Quinhentos e tantos pretos juntos. Cantando. O inferno que não é. E ainda gritavam o nome de todos os tripulantes. Como descobriram ninguém sabe. Mas chamavam todos.pelo nome. Menos eu. E ninguém arrisca entrar no porão durante a viagem, que ninguém é louco. Que os bichos são agressivos. E os nojentos continuaram lá. Cantando.

Trinta e três noites, para ser exato.

 Do quinto dia em diante o capitão mandou suspender a água e o milho de comer. Enquanto não findasse a macaquice, comida não tinha.

 O problema se fez aí.

Os pretos não se acanhavam. Cantavam ainda mais forte a cada noite. Parece que a fome alimentava o seu canto. E o mau cheiro só aumentava – e veja o senhor que não foi a primeira vez que eu trouxe pretos.Sei bem que os bichos fedem, mas não daquele jeito.

Acontece que faltando três dias para pisarmos terra, festejávamos como é costume. E decidimos nos divertir. É verdade que o vinho nos afoitava. E a raiva era grande. Então pensamos que se os pretos cantavam, deviam querer dançar também.

Juntamos treze homens e fomos buscar alguns deles na intenção de trazer ao convés para que pudessem dançar enquanto estalávamos o chicote.

É engraçado ver como todos eles contorcem quando o chicote estala na pele. Parecem dançar. É divertido. Mas naquela noite não teve graça.

Eles não dançaram. Também pudera. Como poderiam?

Estavam todos mortos. Todos.  A carne já podre. Não restou um. E pelo cheiro que tinha, fazia alguns dias que ninguém ali era vivo. Uns dez dias. pelo menos. E me responda. Como é que pode. Se todas as noites até ali eles cantavam em coro.

E não me ponha louco.

Nos três dias seguintes de viagem eles ainda cantavam. E ainda mais alto. E ainda mais forte. E seu canto tomava o navio inteiro, meu senhor. E nossos tripulantes apareceram mortos. Todos. Na noite seguinte. Apenas eu sobrevivi.

Eu permaneci naquele navio. Porque era o meu trabalho. E porque eu não falharia. E eu trouxe o navio até o porto. E eles ainda cantavam. As noites todas. E agora chamavam outro nome. A todo instante.um nome. O mesmo nome. O seu nome. Meu senhor, o seu nome e o nome de sua fazenda.

Na última noite antes de aportar um deles falou comigo.

Ananias, o preto guardião dos outros pretos.

Estava escuro, senhor. Não consegui ver quais os traços em seu rosto, mas seus olhos queimavam mais que as velas que queimavam a seu redor. Seus dentes reluziam mais que as estrelas de um céu de alto mar. O quente que saía de sua boca parecia o sopro de um braseiro. As palavras proferidas pelo seu sussurro ainda rodeiam a minha cabeça todas às vezes que tento dormir, meu senhor.  Ele ainda fala em meu ouvido. Ainda chama o seu nome. E diz que é bom que o senhor saiba

Um Deus veio com eles naquele navio e por isso cantavam. Manda dizer que é no terreiro de sua casa que esse Deus descansará. E festejará. E que no terreiro de sua casa serão feitas obrigações. E que sua descendência brincará no seu terreiro. E que um dia o seu povo voltará a cantar o mesmo som que foi cantado em Marsa. E que esse som vai ressoar por muito tempo nas terras de Pernambuco.

E é bom que o senhor esteja preparado.

Gleison Luiz Nascimento

Pernambucano da capital, escritor e ator, ainda não tem livro publicado. Performer, desenvolve hoje um trabalho de performances/recitais que trabalham como linguagens convergentes – literatura e teatro. É integrante do grupo #4urubueacarniça e ex-integrante do grupo São Saruê. No cinema, como roteirista, teve seu primeiro filme rodado em 2014 (Sobre o peito, a lâmina: Crua), que circulará a América do Sul em competições de língua latina. Letrista, traz parcerias que têm dado frutos, como a parceria com a banda Marsa, que venceu o festival de música PRE-AMP 2015 e está gravando um disco com músicas inéditas assinadas também por Gleison.

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